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Wednesday, April 27, 2011

Caminhos Abertos, Axé! - 2010




Caminhos Abertos, Axé! - Valéria Barbosa - CD - Independente - 2010


01. Rua Aberta; 02.Retalho de Mulambo; 03.Companhia de Zé; 04.Abre Caminho; 05.Coberto de Palha; 06.São 4 guerreiros; 07.Beijo de Oxá; 08.Filho do Vento; 09.Oxum Apará; 10.Ayé de Nanã; 11.Yá Ogunté; 12.Mãe de Ori do Mundo; 13.Tuiuiu na Mata; 14.Proteção de Arranca Toco; 15.Roda de Preto das Almas; 16.Conselho de Vô Ambrósio; 17.Vovó Catarina; 18.Som do Afro-canto;

Valéria Barbosa gentilmente nos mandou uma cópia de seu disco, uma produção bem simples, mas que esconde um grande trabalho (percebe-se que foi realizado com muito carinho), um dos raros discos de música de inspiração Umbandista atuais que realmente vale a pena ser escutado com atenção. Em que pese alguns pequenos problemas, tais como a falta de informação na capa (não se sabe quem são os músicos, por exemplo) ou alguma oscilação na afinação das vozes (coisa de produtor apressado) e algum problema na frequencia do baixo, ainda assim, o disco é maravilhoso, a começar com a qualidade da gravação, um dos discos de música de terreiro mais bem gravados que já ouvi.

Valéria canta bem, com alegria e disposição e é acompanhada por músicos maravilhosos, em alguns momentos chegam a ser brilhantes, principalmente o naipe de vocalistas, que em vários momentos lembram os Tincoãs. Uma pena que não haja informação do line-up.

Vá em frente, Valéria, queremos mais!!

Para comprar o disco, escreva para valodoci@hotmail.com

Para ouvir a faixa 06 - São 4 Guerreiros, cique abaixo:









Wednesday, November 24, 2010

Lamento aos Orixás - 2006

Lamento aos Orixás - Fernando Santos - CD - Atração

1.Saudação a Oiá; 2.Um Bo-Bo Oiá; 3.Tá no Bongoió; 4.Oxum e os Ixés; 5.Ago Igina - Part. Especial Claudia Telles; 6.Iao no Roncó; 7.Oiá; 8.Euá Dire - Part. Especial Solange; 9.Mapá Moró; 10.Ago Lonan; 11.Ogum e Iansa; 12.Saveiro; 13.Xango; 14.Ago Igina - Bônus - Part. Especial Claudia Telles;

Muitos amigos nos enviam gravações e discos para que estes possam participar do maior acervo de música de terreiro do Brasil, o Acervo Ayom. Mas qual não foi nossa surpresa quando entrou em contato conosco o grande FERNANDO SANTOS, o pai da "Disco Macumba", um criador de grandes clássicos do gênero (que você pode ver clicando aqui: http://acervoayom.blogspot.com/2008/04/o-programa-comea-assimeu-quero-falar.html).
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O Fernando nos mandou este disco de presente, um disco bem diferente do que ele já produziu anteriormente, desta vez com uma proposta sensível e delicada, onde se destacam os backing vocals maravilhosos de Solange, Viviane, Jussara, Betina e da grande Cláudia Telles. E Fernando Santos não fica atrás. Aqui percebe-se que a voz de Fernando ficava em segundo plano em seus antigos trabalhos, quando em relação com os timbres da soul music, onde metais, violinos e a bateria chá-com-pão chamavam mais a atenção para os arranjos do que voz. Aqui, sim, vemos um grande cantor, com uma voz forte, limpa e emocionante em muitos momentos.

O único porém talvez sejam os arranjos de teclados, que caminham demais por progressões harmônicas dissonantes, o que torna o disco um pouco repetitivo (não há nenhuma percussão em nenhuma faixa. Da outra vez chama nóis, Fernando!!!!) , mas que não compromete em nada a proposta inicial - apresentar os cânticos sagrados com um formato bem condizente com a seriedade da proposta espiritual do canto ancestral Yorubá: elevar a alma através da prece cantada à Olorum.

Para ouvir a faixa 02, Um Bo-bo Oiá, clique abaixo:


Tuesday, September 14, 2010

Titanic - MACUMBA NO ROQUENRÔU!!!!!


Prá você que acha que a música da "Banda" só está presente na música popular brasileira, se enganou redondamente, ela sempre fascinou músicos de todos os estilos...

Banda Norueguesa de Hard Rock fundada em 1973, o Titanic conta com um sucesso inusitado: diz-se que alguns de seus integrantes eram frequentadores dos terreiros de Salvador e que se deixaram realmente amar pelos batuques hipnóticos da Macumba, ao ponto de criarem um clássico absoluto do período, tão importante quanto "Their Satanic Majesties Request" dos Rolling Stones.

Confira clicando abaixo... sonzaço!!





"Macumba" fêz tanto sucesso que foi regravada mais tarde, na era da discoteque, pelo obscuro grupo Marbooo.




É claro que estourou nas paradas de sucesso mundial, pois Macumba boa é a que vem lá de Minas (mineiro e macumbeiro tem em todo lugar do mundo)! Com um arranjo maravilhoso, bem funkeada, com baixão, violinos e chimbal puxadaço! Escutem e dancem! Vale tudo (só não pode incorporar!) e nem colocar prá tocar durante a gira!
Confira "Macumba" na versão Disco:

Saturday, August 28, 2010

A mensagem de Ary Lobo - 1979








Ary Lobo – A mensagem de Ary Lobo - 1979 – Alladin Records

01. Baião do coração (Nelson Trigueiro / Tony Garça); 02. Só eu fico aqui (João Gonçalves / Ary Lobo); 03. Ei pomba gira (Álvaro Matos); 04. Buscas (Lindolfo Mastellaro); 05. O grande arquiteto (Joaquim Borges); 06. Amor e paz (Joaquim Borges); 07. No Pará não tem seca (Airão Reis / Darci Ayrão); 08. Meu São Carlos (Chico Caldas / Albuquerque); 09. Festa no mar (Amadeu Macedo / Tony Garça); 10. A Hora do adeus (Airão Reis / Darci Ayrão); 11. Caicó também está no mapa do Brasil (Severino Ramos / Ary Lobo); 12. Tem francês no samba (Nelson Trigueiro / Tony Garça);



rranjos e direção de Sylvio Viana, músicos: Armando Nunes (Violão), Guaracy (Cavaquinho), Raul de Barros (Trombone) e Jaime Storino (Bateria).

Gabriel Eusébio dos Santos Lobo (Belém, Pará, 14 de agosto de 1930 — Rio de Janeiro, RJ, 22 de agosto de 1980), mais conhecido como Ary Lobo, foi um dos inúmeros cantores e compositores brasileiros que seguiam as religiões afro-brasileiras e as cantavam em seus discos, dedicando pelo menos uma ou duas faixas ao tema.


Ary Lobo


Ary Lobo teve mais de 700 músicas gravadas, por ele e outros cantores, músicos e intérpretes. Era defensor da música nordestina de raiz.

De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, cantando derivativos do baião, além de cocos e rojões, Ary Lobo lançou vários sucessos nos anos 50 e 60 em seus nove LPs na RCA. Retratava a vida e os costumes nordestinos em números divertidos, como "Cheiro da Gasolina" e "Madame Paraíba". Este disco, "A mensagem de Ary Lobo" foi seu último lançamento e a maior parte das letras possui mensagens de espiritualidade. Estas faixas com arranjos recheados de teclados, com arranjos mais próximos de boleros e rumbas.

Sua gravação mais conhecida é, provavelmente, "O Último Pau-de-Arara".

Para ouvir a faixa 03 "Ei pomba gira", clique abaixo:




Thursday, April 22, 2010

Villa da Macumba


Villa curtia mesmo era um bom saravá!! Olha só o charutão do homem!!

Villa Lobos, nosso maior músico era um daqueles "meninos" - tais como Pixinguinha, Donga e outros bambas - que frequentavam a casa de Tia Ciata, mãe de santo famosa no Rio. Bom, é claro que ninguém divulga isso, mas nós não podemos ficar calados frente à essa ignomíniosa questão e botamos o berro, pois muitas de nossas maiores pérolas musicas surgiram ali, no terreiro da Yiá Omin.

Mestre Villa possui em seu repertório belíssimos cânticos inspirados nas melodias de terreiro e nos cânticos religiosos de nossas Umbandas, Candomblés, Encantarias etc.

Xangô é um canto de macumba escrito em 1919, com texto de autor desconhecido. É uma das Canções Típicas Brasileiras de Villa-Lobos e integra o segundo volume de Canto Orfeônico, coletânea de marchas, canções folclóricas e hinos, publicada em 1950 e destinada à educação musical. A primeira execução desta obra foi em 1930, em Paris, sob regência de Villa-Lobos.

Aqui ouvimos essa maravilha com o coral da Osesp:


Para ouvir "Xangô" clique abaixo:







Em 2000 fomos convidados a participar - tocando percussão: congas, apito, cowbell, blocks, bumbo, pratos e carrilhão - de uma apresentação com o Coral e a Orquestra de São José do Rio Preto, numa homenagem a Villa Lobos. Encontramos em nossos arquivos a gravação daquele dia (que pensávamos ter perdido). "Estrela do céu é Lua Nova" é uma das mais conhecidas canções "macumbísticas" de Villa Lobos.
Saravá Villa Lobos!!


Para ouvir "Estrela do céu é lua nova", clique abaixo:





Monday, April 19, 2010

Tam... tam... tam... 1958 (?)

Tam... tam... tam... - LP - Polydor - 1958 (?)

01.Imbarabo; 02.Imbaê Sofá; 03.Nanã Imborô; 04.Fá-eu-á; 05.Oniká; 06.Ogum olojô; 07.Maracatu de Dona Santa; 08.De Luanda ô; 09.Maracatu Elegante; 10.Nêga Zefinha; 11.Tem Brabo no samba;

Disco raríssimo, uma preciosidade praticamente perdida e desconhecida no Brasil. Também conhecida como Brasiliana, peça do escritor polonês Miécio Askanazy, de muito sucesso nos anos 30 na Europa. A orquestra é excelente, com vocais e solo de Ivan de Paula, cantor muito requisitado no período quando se tratava de executar pontes musicais entre música de terreiro, música erudita e música popular com orquestra. A gravação da época deixa um pouco a desejar, e com o estado do disco o resultado sonoro não é muito bom (apesar da recuperação que fizemos).

Com arranjos e direção de José Prates, o lado A é essencialmente baseado em música de terreiro, conforme está descrito nos rótulos do disco, são Macumbas, Candomblés e um Batuque no lado B. As outras faixas são composições regionais, Maracatus, Sambas e Lamentos. Percebe-se que a estética da época (veja a foto da capa) tenta imitar a concepção americana de "South Music", que mais tarde derivou na conhecida "Salsa", um estilo surgido da pobreza auditiva norte-americana que não sabia diferenciar rumbas de sambas, boleros de xotes, nem merengues de maracatus. Para a indústria era tudo a mesma coisa e a estética visual também pegou por lá, mas no Brasil bem menos, felizmente.




Aqui apresentamos a interessantíssima faixa 3, "Nanã Imborô", música obviamente baseada em alguma canção de terreiro, mas que mais tarde gerou a canção de Jorge Ben, "Mas que Nada", sucesso atual no batidão eletrônico da banda Black Eyed Peas. Ou não???
Para ouvi-la clique abaixo e tire suas conclusões:


Monday, February 08, 2010

Escrava Isaura - 1976


Escrava Isaura - 1976 - Compacto - Som Livre
1-Elizeth Cardoso - Prisioneira; 2 - Francis Hime - Amor Sem Medo; 3 - Dorival Caymmi - Retirantes; 4 - Orquestra Som Livre - Nanã; 05 - Os Tincoãs - Banzo; 06 - Coral e Orquestra Som Livre - Mãe Preta;

A Escrava Isaura é um romance de Bernardo Guimarães que teve sua primeira edição publicada em 1875. O livro causou furor na época devido ao polêmico tema: a escrava de pele branca que era perseguida por seu senhor. Apesar da hipocrisia por trás do conceito (porque as pessoas se emocionavam mais com o sofrimento da escrava branca do que com o sofrimento igual - ou pior - dos outros personagens, negros.), o livro fêz a sociedade intelectual branca da época se enxergar na pele do outro seu semelhante, mesmo que de uma forma confusa. O mesmo aconteceu com a novela dos anos 70, quando as pessoas se viam divididas entre julgar as intenções do tema, no "absurdo" de existir uma escrava branca, mesmo que a história mostrasse o contrário, quando o verdadeiro absurdo era entender que nenhum ser humano merece estar em tais condições.
A trilha sonora é um primor, uma maravilha de arranjos, com composições, compositores e intérpretes espetaculares: Elizeth Cardoso, Francis Hime, os Tincoãs e Dorival Caymmi, além da Orquestra Som Livre, composta dos bambas da época. No que pese os arranjos globais serem extremamente pasteurizados, a banda fazia força prá fugir da escravidão branca dos produtores e soar exatamente como era: excepcional!
Clique abaixo para ouvir o clássico de Caymmi, "Retirantes", cujo refrão era e ainda é exaustivamente assoviado de forma "engraçadinha" por muitos patrões nazistas de todo o Brasil:


Wednesday, September 09, 2009

Bezerra da Silva - O rei do Coco - 1975

Bezerra da Silva - O rei do Coco - LP - Tapecar - 1975

01 - O Rei Do Côco; 02 - Língua Grega; 03 - Valente Na Boca Do Boi; 04 - Côco De Itambé; 05 - Rapa Cuia; 06 - Côco Do Tato; 07 - A Coisa Mudou; 08 - Côco Do B; 09 - O Catimbozeiro; 10 - Vai Chover Hoje, Urubu; 11 - Lei De Bahia; 12- Rima de doê;

Bezerra da Silva (Recife, Pernambuco, 23 de fevereiro de 1927 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) foi o cantor, compositor, percussionista e violonista brasileiro, considerado o embaixador dos morros e favelas. Cantou sobre os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, se apresentando no limite da marginalidade e da indústria musical, pois seus principais temas foram os problemas sociais dentro das comunidades. É considerado um dos principais expoentes do samba do estilo partido alto, embora em seu início de carreira tenha começado a cantar cocos e forrós - foi o primeiro zambubeiro da banda de Zé Ramalho.

Desde sua infância foi ligado à música e sempre “sentiu” que tinha o dom de tocar, causando atritos com a família, principalmente com seu pai, da Marinha Mercante que saiu de casa quando Bezerra era pequeno, vindo morar no Rio de Janeiro. Bezerra, depois de também ingressar - e ser expulso - da Marinha, descobriu o paradeiro do pai e veio atrás dele, com o qual foi morar. Após muitas brigas, foi morar sozinho, no Morro do Cantagalo, trabalhando como pintor na construção civil, trabalhando a noite como percussionista. Logo entrou em um bloco carnavalesco, onde um dos componentes o levou para a Rádio Clube do Brasil, em 1950.

Nos anos sessenta, ficou sem emprego e durante sete anos viveu como mendigo nas ruas de Copacabana, onde tentou suicídio e foi “salvo” por um caboclo da Umbanda de um terreiro onde se tornou seguidor. A partir daí passou a atuar como compositor, instrumentista e cantor, gravando seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro LP seis anos depois.

Inicialmente gravou músicas sem sucesso, cocos e forrós. Mas a partir da série Partido Alto Nota 10 começou a encontrar seu público. O repertório de seus discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra notabilizou-se por um estilo Sambandido (ou Gangsta Samba), precursor mesmo do Gangsta Rap norte-americano. Antes do Hip Hop brasileiro, ele passou a transmitir do outro lado da trincheira da guerra civil não declarada: “Malandragem Dá um Tempo“, “Seqüestraram Minha Sogra“, “Defunto Cagüete“, “Bicho Feroz“, “Overdose de Cocada“, “Malandro Não Vacila“, “Meu Pirão Primeiro“, “Lugar Macabro“, “Piranha“, “Pai Véio 171“, “Candidato Caô Caô". Gravou ainda alguns discos de Exu pela antiga gravadora Tapecar e Cáritas, mas sem serem creditados seus vocais.

Morreu em 2005 após virar evangélico (já não estava mais lúcido!), aos 77 anos de idade, perto de completar 78, eternizando-se no mundo do samba.

Para ouvir a faixa 09 "O Catimbozeiro" clique abaixo:



Tuesday, September 01, 2009

Raul Seixas - Krig-Ha, Bandolo! - 1973


Raul Seixas - Krig-Ha, Bandolo! - LP - Phillips - 1973

01-Introdução_Good Rockin' Tonight; 2-Mosca Na Sopa; 03-Metamorfose Ambulante; 04-Dentadura Postiça; 05-As Minas do Rei Salomão; 06-A Hora Do Trem Passar; 07-Al Capone; 08-How Could I know; 09-Rockxixe; 10-Cachorro Urubu; 11-Ouro de Tolo;

Raul Santos Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945 — São Paulo, 21 de agosto de 1989), conhecido por "Maluco Beleza", foi um dos maiores gênios da música brasileira, pioneiro do Rock no país. Filho do casal Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Seixas, Raul cresceu na cidade de Salvador um tanto estagnada, alheia aos progressos de uma modernidade que passava ao largo da capital baiana. Tinha um irmão, quatro anos mais novo, Plínio Seixas. Em casa obtém uma cultura que o faz adiantar-se àquilo que era ensinado nas escolas, mergulhando nos livros que tinha à disposição, na biblioteca do pai. Até o final de sua vida, sempre foi avançado para sua época, o que é comprovado pelas músicas por ele compostas e que até hoje são executadas. Como seu parceiro musical Paulo Coelho já disse: "Raul Seixas não é passado, é presente! Futuro!".

O público que se acostumou a ouvir no rádio sucessos como "Lágrimas Nos Olhos", com José Roberto, "Ainda Queima A Esperança", com Diana, ou ainda "Playboy", com os Blue Caps e "Doce Doce Amor", com Jerry Adriani (seu grande amigo), nunca imaginaria que todos este hits eram da autoria daquele baiano magérrimo e torto que aparecia sem camisa, costelas à mostra, na capa daquele LP de título estranho (na verdade, "Krig-Ha-Bandolo" era uma frase dita por Tarzan, nos antigos gibis), cujo sucesso, "Ouro De Tolo", estava nos primeiros lugares de todas as rádios do país. A letra desta canção, além de muito inteligente, mostrava a realidade de um cidadão classe média que "devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema depois de ter passado fome por dois anos na Cidade maravilhosa".

A sonoridade da música se assemelhava a um sucesso de Roberto Carlos da mesma época, "Rotina". Embora o arranjo fosse parecido, a letra não tinha nada a ver com as imagens poéticas da canção do rei. A letra de "Ouro de tolo", na verdade fazia um contra-ponto com outra letra de Roberto, "A Montanha", do ano anterior, 1972. Roberto cantava "obrigado, Senhor, que o Sol nasceu, obrigado Senhor, eu agradeço...". Raul: "...eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida..." Devia, mas não agradecia.
Por estas e outras - principalmente pela faixa que nos interessa mais diretamente -, "Krig Há, Bandolo!" foi um dos mais enigmáticos e misteriosos álbuns quando do seu lançamento, em 1973. Repleto de parcerias com Paulo Coelho, este disco lançava também os primeiros sinais da Sociedade Alternativa, com seu repertório de rocks, baladas, gospel, baião e ponto de Umbanda, no clássico "Mosca na sopa", uma verdadeira salada que marcava a estréia em carreira solo daquele que se tornaria a maior lenda do rock nacional. Raul tinha muita informação esotérica e dos cultos afro-brasileiros, claramente influenciado pelos cultos de sua terra natal. Além desta, cita ainda a lei de pemba na música título do álbum "Eu nasci há dez mil anos atrás", onde diz: "Eu vi os símbolos sagrados de Umbanda, eu fui criança prá poder dançar ciranda".


Influenciado por vários setores da cultura - dos quadrinhos a clássicos da filosofia e do ocultismo (Veja a presença constante da cruz ansata que aparece na capa do disco, na palma da mão direita de Raul, ícone que ganharia ainda mais destaque nos discos seguintes.). A letra de "Mosca na sopa" é Schopenhauer: "Se a mosca, que agora zumbe em torno de mim, morre à noite, e na primavera zumbe outra mosca nascida do seu ovo, isso é em si a mesma coisa", mas para não deixar dúvida sobre sua fonte mais rica, em 1983 pegou do filósofo um trecho do capítulo "Morte" - do livro "Dores do Mundo" - para usar na música Nuit: "Quão longa é a noite do tempo sem limites, comparada ao curto sonho da vida".
Raul morreu aos 44 anos em 1989, de diabetes por complicações no fígado devido ao alcoolismo.

Para ouvir a faixa "Mosca na Sopa", clique abaixo:









Aqui, o raríssimo vídeo original, podraço e funhanhado, mas importante:



Friday, August 21, 2009

Zumbi somos nós - 2008


Zumbi somos nós - CD - Frente 3 de fevereiro - Independente - 2008

01.Quem policia a polícia?; 02-Batuque nagô; 03-Linha de frente; 04-Pare e olhe para a base; 05-Estado de sítio; 06-Eu vou subir ao céu; 07-Reza prá caboclo; 8-Canto para Xangô; 9-Canto para Oxum; 10-Periafricania/Brasileiro 2; 11-Já é hora de lutar; 12-Groove Berlim; 13-Por todas as partes; 14-Vamos prá palmares; 15-Zumbi Requilombo; 16-Diáspora;

A Frente 3 de fevereiro é um grupo transdisciplinar de pesquisa e ação direta que discute o racismo na sociedade brasileira. Sua abordagem cria novas leituras e coloca em contexto dados que chegam à população de maneira fragmentada através dos meios de comunicação. As ações diretas criam novas formas de manifestação sobre as questões raciais. Para pensar e agir em uma realidade em constante transformação, permeada por mudançãs culturais de diversas escalas e sentidos, se fazem necessárias novas estratégias. A frente 3 de fevereiro associa o legado artístico de gerações que pensaram maneiras de interagir com o espaço urbano à histórica luta e resistência da cultura afro-brasileira.

Um disco muito bom, onde o rap, a música de terreiro e outras manifestações da música brasileira se encontram com uma inteligência e propriedade poucas vezes vista. Particularmente esse disco nos é importante pois conta com a participação de um grande músico, nosso grande amigo de Kangoma, o Cássio Martins. Para conhecer mais sobre o projeto, visite:

http://www.frente3defevereiro.com.br/

Para ouvir a faixa 08, "Canto para Xangô", clique abaixo:



Saturday, August 08, 2009

Tribo Massahi estrelando Embaixador - 1972


Tribo Massahi estrelando Embaixador - LP - Reverse - 1972

Lado A: 01. Timolô, Timodê (1 - Walk By Jungle, 2 - Fareua, 3 - Harmatan, 4 - Dandara)
Lado B: 02. Lido´s Square (1 - Pae João, 2 - Menina Da Janela, 3 - OAN, 4 - Madrugada Sem Luar)

Disco raríssimo com apenas duas longas faixas em estilo jam, com quatro temas cada uma. Um misto de soul, ritmos latinos e africanos, com um clima lisérgico tão comum à época.

Parece que a banda tenta repetir a sonoridade de Fela Kuti (importantíssimo músico africano criador do afro-beat) com pitacos de Soul estilo Stax (na verdade lembra muito o disco malucaço do esquecido cantor de soul Miguel de Deus, o igualmente raro "Black Soul Brothers") e macumba brasileira. Um disco mal gravado, improvisadíssimo (com a galera aparentemente muito louca!), a banda parece que nem ensaiou, mandando tudo de primeira, mas é um time de músicos que comparece, principalmente os alabês!

Na verdade tudo que se refere a este disco é um mistério!

Quem tiver maiores informações, por favor, me mande.

Para ouvir excerto da faixa 02 - Lido's Square - Pai João, clique abaixo:

Friday, July 31, 2009

Yukihiro Takahashi - SARAVAH - 1974


Yukihiro Takahashi - SARAVAH - Compacto duplo - King Records - 1974

Lado A - Moody Indigo;
Lado B - Saravah!

Sim, senhores, podem acreditar em seus olhos!! Não, vocês não estão loucos, e o responsável por este blogue e por este acervo também não!! Você está no lugar certo, e na hora certa (que horas são?), aqui é realmente o ACERVO AYOM e é o único lugar onde você encontra raridades impressionantes como esta! Sim, a sua estupefação foi igual a minha quando, em minhas constantes e árduas buscas pela "Música do Santo", me deparei com este disquinho num sebo do Bairro da Liberdade (tradicional bairro da colônia japonesa de São Paulo). Li várias vezes, com incredulidade, o título, e como não conseguia ler o que dizia a parte de traz da capa do compacto (evidentemente em japonês!), pedi ao lojista que me ajudasse.
Apesar dos olhos puxados e da camisa escrito "Tóquio", o balconista me respondeu que se chamava Roberto Argemiro, que era brasileiro e não sabia ler japonês (talvez fosse um índio), mas chamou a dona da loja (uma bravíssima senhora que deveria ter uns 350 anos) que me deu uma tradução rápida, num japonês pré-histórico com sotaque Ainu e aqui conto o que consegui entender: o disco foi concebido numa viagem de duas semanas de Yukihiro à Paris, onde conheceu uma brasileira que era... DA UMBANDA (a senhorinha não sabia o que era isso, apenas disse que a palavra e que era uma "religión, né?")!!! Takahashi ficou muito impressionado com a palavra Saravá e seu significado (não sabemos o que a moça disse prá ele, mas deve ter sido coisa boa...), etc, etc, etc...



Como Yukihiro é um amante do samba bossa-nova de Tom Jobim, provavelmente a palavra o fêz lembrar-se de Carlos Lira com seu disco homônimo. Nascido em 52, Yukihiro Takahashi é um dos mais respeitados arranjadores do Japão e foi membro da banda de Rock Pop/Progressivo Yellow Magic Orchestra, juntamente com os igualmente famosos Haruomi Hosono e Riuichi Sakamoto (prá quem não se lembra, foi o compositor da belíssima trilha sonora do filme "O Grande Imperador"). A banda conseguiu chegar ao topo da parada britânica com o sucesso “Firecracker” no final dos anos 70 e foram uma grande influência no surgimento do acid house e do movimento techno do final dos anos 80 e começo dos 90.


A música Saravah é um samba bossa-nova cantado em Japonês, com as óbvias interpretações regionais que o suingue local permite. Com um arranjo belíssimo, a música é excelente, por mais estranho e bizarro que possamos achar um japonês legítimo fazendo um belo Saravá! Mas é a "Banda" já em 1974 chegando do outro lado do mundo! E salve Ela!


Para ouvir a faixa "Saravah", clique abaixo:

Monday, May 18, 2009

Adão Daxãlebaradã - Escolástica - 2003

ESCOLÁSTICA - Adão Dãxalebaradã- 2003 - CD - Selo Ambulante

1-Armas e Paz; 2-África; 3-Computador; 4-Bibi Lobi Woa; 5-Luanda; 6-Deus é um Negrão; 7-Vida Curta; 8-Escolástica; 9-Diamante; 10-I Ia Laa; 11-Xirê; 12-Vida Curta (Remix); 13-Armas e Paz (Remix);


Adão Daxãlebaradã: um gênio destruído pela violência


Um dia o cineasta Walter Salles subiu o morro do Cantagalo, no Rio, à procura de novas expressões artísticas. De lá, saiu com um documentário e uma descoberta: Adão Dãxalebaradã. Waltinho foi levado à casa desse músico desconhecido por Luanda, caçula dos filhos de Adão e bailarina do projeto Dançando para Não Dançar. O diretor de Central do Brasil ficou impressionado com o compositor, de mais de 500 canções, e o apresentou à sua parceira Daniela Thomas e ao irmão dela, o produtor musical Antônio Pinto. “Fiquei obcecado em registrá-lo. Adão tem um discurso de contestação, de paz, mas com olhar particular”, disse Antônio. Hipnotizados pela mistura de sons – reggae, samba, afro-beat, rap – e pelas letras vigorosas, os três decidiram revelar Adão. O resultado foi o disco Escolástica, o documentário Somos Todos Filhos da Terra e o videoclipe Armas e Paz.

Sobrevivente de emboscadas da polícia e de bandidos, levou 12 tiros. Quatro foram de metralhadora, e foi perseguido por 30 homens da polícia especial. Segundo Adão, o motivo foi ele ter sido excluído do Exército, conforme crê, por preconceito racial. Passou a pregar peças no coronel responsável pela sua exclusão. Em plena ditadura militar, conta ter sido até torturado. Um dos tiros de metralhadora ficou a um dedo do coração, e Adão passou meses no hospital.

A última bala ele levou quando tentava se afastar da violência do morro, como mecânico, em 1973. Em tese, foi assalto. Quis reagir e, sem ver que havia outro bandido atrás, foi alvejado. O tiro o deixou numa cadeira de rodas. “Sou semiparaplégico, consigo andar segurando nas coisas, tomar banho sozinho, fazer sexo", dizia. "Na verdade o tiro foi um mal que veio para bem, pois descobri as coisas da Umbanda e do Candomblé”. Daxãlebaradã é uma qualidade de Xangô que significa “Princípio, Meio e Fim”. Este foi o nome espiritual que adotou desde então.

Adão começou a fazer música aos cinco anos: “Meus pais eram crentes. Fazia hino de igreja”. Sua brincadeira era imitar o pastor. Aos oito anos, fugiu de casa e foi morar na rua. “Não tinha liberdade, era criado na base da pancada. Não podia jogar bola de gude nem soltar pipa porque eram coisas do diabo”, lembrava ele, o mais velho de nove irmãos. “Só podia brincar no porão. Não podia me misturar com filhos de pessoas que não eram da igreja.”
Na rua, sobrevivia com o que lhe davam. Foi encaminhado a uma instituição para menores, onde ficou dos 9 aos 17 anos. Foi guia espiritual de sua comunidade e por ser ligado às raízes afro-brasileiras, compôs cerca de 500 músicas sobre o tema. Residia no Morro do Cantagalo, em Ipanema. Faleceu no Hospital Miguel Couto, segundo alguns, vítima de uma Hepatite C com infecção generalizada, sendo enterrado no cemitério São João Batista, mas há muitos que juram que Adão incomodou o pessoal do tráfico, quando fêz a música "armas e paz", um protesto criticando o tráfico de armas e sua morte foi "repentina" e estranha demais...
A música de Adão é forte, cheia de fúria, com as letras focadas na injustiça de todos os matizes. Tocava apenas um atabaque - que era como compunha suas músicas - e muita gente achava que fazia parte da galera do funk carioca, o que o produtor Antônio Pinto provou não ser verdade, pois construiu junto com Adão um dos discos mais lindos da história da música brasileira. Adão era um homem de raiva e de fé, raiva dos poderosos que manipulam idéias para manter os homens escravizados, raiva da apatia dos seus iguais e fé na força de suas origens no Orun e nos rios da África, que o inspiravam na sua pregação libertária. Com uma voz rouca e profunda, forjada na tristeza e na difícil vida que levou, ela soa como se viesse de antes dos tempos, tempos melhores que estes que o fizeram vítima da violência. Adão foi uma perda, quase despercebida pelos homens, mas certamente, será sempre lembrado pelos deuses.
Deixou dois filhos: Ortinho e Luanda.
Para ouvir a faixa 2, a maravilhosa "Mãe África", clique abaixo:


Sunday, May 17, 2009

Candombless



Carlinhos Brown - Candombless – Candiall Music – CD – 2005

01.Labarã; 02.Orerê emapá; 03.Patuá; 04.Aguaxirê/Saleromi; 05.Xerê Jexé; 06.Kissanga; 07.Três Coruna; 08.Ódemã; 09.Coicoia; 10.Saudação a Oxossi; 11.Seleloá (Nave Isaura); 12.Rei da Hungria;

Senhoras e senhores, o que dizer de uma obra onde respeito e integridade se fundem de tal forma que já não é possível pensar em nada, a não ser que estamos frente a uma nova reconstrução da música num encontro suntuoso de ancestralidade e modernidade!? As cores múltiplas de todas os modos brasileiros de se fazer música tradicional estão nessa obra impecável, da Umbanda ao Candomblé, da Encantaria ao canto Católico e além. Permeado por toques sutis de psicodelia, ruídos sampleados são tratados como percussão e percussão viva é perfeitamente transformada em agradáveis melodias onde baixos e agudos se reconstroem numa concepção timbrística intrincada e muito bem pensada. Carlinhos Brown atingiu a excelência como um pensador refinado das atitudes e posturas que o músico das religiões brasileiras deve ter enquanto fomentador social no tocante ao poder de envolvimento que tem com os prosélitos do "santo" e consequentemente ponte essencial da responsabiulidade de ser um tradutor entre a linguagem dos homens e dos deuses.





Candombless mistura a música pop eletrônica aos cantos tradicionais dos cultos que colorem a Bahia de todos os tempos. O disco conta com a participação da comunidade dos músicos e sacerdotes do santo e em momento algum esta é submergida ou absorvida por qualquer excesso eletrônico, pelo contrário, a eletrônica, como filha da acústica, atualiza os pontos para uma linguagem contemporânea, tornando-se tão ancestral e milenar como eles. Há rezadeiras, Ialorixás, Alabês e Babalorixás, traz a reza da aparição do Arcanjo Gabriel e o canto de Oxotocanxoxô, o mito primordial de Oxossi, como o guerreiro que venceu uma batalha com apenas uma flecha. E conta com participação mais que especial de Mateus Aleluia, o último dos Tincoãs.


É assim: Carlinhos Brown, AYAN IRÊ Ô!!


Para ouvir a faixa 07, "Três Coruna", clique abaixo:





Sunday, August 17, 2008

Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação - 2003

Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação - CD - Quitanda/Biscoito Fino - 2003

01. Abertura e Cavaleiro; 02. Quem Pode Mais, Dona de Casa, Eu Vim Aqui; 03. Marinheiro Só; 04. Casa Nova, Raiz; 05. Tombo do Pau; 06. Samba Numerado; 07. Ariri Vaqueiro; 08. Senimbú e Calolé; 09. Ai Dindinha; 10. Minha Senhora, How Beautiful; 11. Santo Amaro Ê Ê; 12. Viola Meu Bem; 13. Vivas;

Para quem não está ligando o nome à pessoa, e para quem gosta de música brasileira, dona Edith do Prato não é outra senão Edith Oliveira, que abriu o LP Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, cantando "Viola, Meu Bem" (adaptação de Caetano para tema de domínio público), e dividiu com ele os vocais em "Sugar Cane Fields Forever". Dona Edith também era citada ("Edith Oliveira, meu bem/ Ai, ai, ai/ Torno a repetir, meu amor/ Ai, ai, ai...") na parte improvisada do samba-de-roda "Torno a Repetir" (1968), outra adaptação de Caetano para tema popular.

Eram formas de homenagem do já famoso cantor à amiga de sua mãe, dona Canô, que sempre reuniu em casa amigos e parentes para cantarem samba-de-roda horas a fio, com o indispensável acompanhamento das iguarias da culinária do Recôncavo baiano. Com certeza, foi um ambiente de intenso aprendizado para o autor de "Odara" - o aprendizado mais gostoso, em que é difícil dizer quem ensina e quem aprende, e ninguém chega a perceber o processo acontecendo.

E é óbvia, para quem é da "Banda", logo na primeira audição, a presença inquívoca de trechos de pontos cantados em terreiros de Encantaria, Omolokô, Candomblés de Caboclo e nas Umbandas desse Brasil. Um exemplo claro é "Viola meu bem, viola", que em qualquer terreiro se escuta nas giras de baianos e boiadeiros. Além desta, é óbvia, ainda a "Marinheiro Só", usada para invocar os encantados do mar. Dizem ser de domínio popular, criação do povo para a festa. Acreditamos que esses cânticos em sua maioria surgiram dentro do terreiro e depois foram levados para o folguedo profano. Um modo muito saudável que a espiritualidade brasileira encontrou para se manter viva na cultura e na alma de nosso povo.

Para ouvir a faixa 03, "Marinheiro só", clique abaixo:

Monday, June 23, 2008

Salloma Salomão - Memórias Sonoras da Noite - 2003

Salloma Salomão - Memórias Sonoras da Noite - Cd - Aruanda Mundi - 2003

01-O Principe Traidor; 02-Mansane Cisse; 03-Kalunga; 04-Kaiala; 05-Negros Bantus; 06-Cantigas dos Vissungos; 07-Atlantico Negro; 08-Seriema; 09-Maio entrou; 10-Arreda e deixeu passar; Faixa 11-Batuque Malinke; 12-Viola Dangola; 13-Moleque Zaranza; 14-Pabula preto; 15-Lamento ao meu morro; 16-Mineira Folia; 17-Folia do sul; 18-Açucar tambem azeda; 19-Dinha Mira;

Conheci Salloma através de um grande amigo, o violeiro Zé Márcio e não há muito o que dizer, além de que Salloma é um gênio. Gênio de sua raça, de seu povo brasileiro, e principalmente, da humanidade. Sensibilidade, poesia, inteligência nos arranjos, na concepção de cada música, na sutileza de cada nota. Salloma nos brinda com tanta beleza e conteúdo que chega a ser difícil ouvir o disco inteiro sem querer voltar cada faixa para querer prestar atenção novamente naquele detalhe que se engastou em nossa alma por segundos... são instrumentos africanos exóticos, tambores com timbres vivos, temas tão próximos da alma que chega logo a confissão de quem ama os sons do Brasil: somos de qual cultura mesmo? O mundo habita a música de Salloma e uma saudade que o mundo inteiro sente, uma dor distante no peito da raça humana está lá, abraçada naquele acorde. De tão maravilhoso, os 60 minutos do disco acabam virando duas, três horas, pois é preciso ouvir mais outra e mais outra vêz, para que não sobre nenhuma pérola no chão para os incautos que ainda não o conheçam. Mas como se diz em ambientes esotéricos: os verdadeiros heróis da humanidade são anônimos.

Para ouvir a faixa 19, "Dinha Mira", clique abaixo:


Wednesday, June 04, 2008

Marku Ribas - Underground - 1972


Marku Ribas - Underground - LP - Philips - 1972
1. Zamba Ben; 2. 5 30 Schoelcher; 3. O Adeus Segundo Maria; 4. N'biri N'biri (Tradicional/Adpt. Marku Ribas) Música tradicional angolana; 5. Porto Seguro; 6. Pacutiguibê Iaô; 7. Madinina; 8. Tira Teima; 9. Matinic Moins; 10. Orange Lady;
Marku Antônio Ribas é gênio, além de mineiro de Pirapora. Dito isso, vale também lembrar que é músico de primeiríssima grandeza. Cantor. Compositor. Violonista. Percussionista. "É samba, é patchanga, é jazz, funk, reisado e batuque...", como descrito na biografia do seu site. Viveu sete anos na Martinica e na Jamaica, encontrando-se muitas vezes com Bob Marley.
Underground de 73, é um clássico pra quem entende da matéria. Com arranjos do maestro Erlon Chaves traz pérolas musicais como a maravilhosa “5,30 Schoelcher”, num arranjo impecável e letra memorável: “… raios solares entram na minha mente, iluminando o coração / e meu espírito contente me mostra a direção do mar…” Se você conhece a letra, só falta agora quebrar a moringa no chão e relaxar. “N’ Biri N’ Biri é nada menos que brilhante adaptação para música do folclore africano. “Pacutiguibê Iaô“ injeta percussão e suingue nos poros, num provável hit em homenagem à Umbanda… saravá! “Matinic Moins” mostra influências de sua estada de 7 anos na Martinica, com a verve latina em ação e guitarrinha a la Santana no final. “Orange Lady” é samba-fruit-rock (sic) com caldo e bagaço pra lá de dançantes e letra que narra um barraco no salão de baile às 3 da matina. Pegou geral!
Mas o destaque é mesmo a praieira “Zamba Ben”, clássico absoluto e verdadeiro hino do samba-rock. Gravada na época da ditadura militar, quase foi vetada pela impiedosa censura da época. Marku compôs a música original sem letra, a fim de usar sua voz como um instrumento. Um dos censores encasquetou com aqueles dialetos indecifráveis e pediu uma letra pra música ser aprovada. Marku escreveu a letra na hora e a música enfim foi liberada. No final, um drible aqui, uma pedalada lá e a música acabou sendo gravada da maneira original mesmo. É o craque a serviço dos bons sons.
Em 1978 gravou pela Philips o LP Barrankeiro, onde registrou de sua autoria "Quem sou eu?", "Maleme" e "A lua e o rio", entre outras, além de "Colcha de retalhos", clássico de Raul Torres, e "Kelé", parceria com João Donato e Djalma Correia. Em 1979 gravou pela Philips o Long Play "Cavalo das alegrias", com destaque para "Beira D'Água", com a participação vocal de Erasmo Carlos, co-autor da música "Maria Mariá", com Walter Queiroz, "Cirandando" e "Balaio da nega" com Armando Pittigliani e "Canção do sal" de Milton Nascimento.
Em 1980 gravou o LP "Mente e coração" pela Philips, com participação especial de João Donato, Ed Maciel, Jotinha e Bira Brasil. Destacam-se no disco as composições "Choro verde", de sua autoria, "Mente e coração", com Carlos Cao Jr, "As vozes não mentem" com Luizão Maia e "Novo dia" de Carlos Cao Jr. e Fatão Ribas. É uma das figuras principais na ópera Alabê de Jerusalém de Altay Veloso. Rodou o mundo sintonizado em novas sonoridades, lançou 12 discos no Brasil, e mais 2 na França. trabalhou com gente como Erlon chaves, Wilson das Neves, João Donato e Erasmo Carlos... abriu show do James Brown em barbados (!!!), gravou com os Stones no álbum "Dirty Work" (85)... viajou pela África, morou na França, no Caribe, tem história esse Marku, nesses 42 anos de carreira... No Brasil, não toca no rádio nem aparece na televisão; a mídia impressa lhe reserva duas ou 3 notinhas por ano. Uma pena. Iluminado, este homem transpira, por detrás de todo suingue, a atmosfera dos terreiros do Brasil numa alegria poucas vezes vista em nossa música...
Para ouvir a faixa 06, "Pacutiguibê Iaô", clique abaixo:


Maria Bethânia - Brasileirinho - 2003


Maria Bethânia - Brasileirinho - CD - Quitanda/Biscoito Fino - 2003

1.Salve As Folhas - Poema De Mário De Andrade; 2.Yáyá Massemba; 3.Capitão Do Mato; 4.Cabocla Jurema - Poema De Mário De Andrade; 5.Santo Antonio; 6.Padroeiro Do Brasil; 7.São João Xangô Menino - Ponto De Xangô; 8.Cigarro De Paia - Boiadeiro; 9. Sussuarana; 10. Senhor Da Floresta - Manuelzão E Miguilim; 11. Purificar O Subaé - Cantiga Para Janaína; 12. Melodia Sentimental;

Na convergência de suas diferenças e seus credos, o Brasil vê-se grandiosamente refletido sob o mais musical dos diminutivos. Neste disco, Bethânia alcança o ápice da expressividade. Sua voz, cristalina e dona de uma força única, chega a cortar o coração da gente, uma obra perfeita em todos os sentidos possíveis, chega a beirar o lendário e terá eco na memória de muitos num futuro onde o imaginário perdido das coisas de Umbanda provavelmente ainda terá lugar. Produzido por Maria Bethânia, com direção musical de Jaime Alem, Brasileirinho tem as participações especiais dos poetas Ferreira Gullar e Denise Stoklos, do grupo instrumental mineiro Uakti, do grupo de choro Tira Poeira e das cantoras Miúcha e Nana Caymmi.

Bethânia tem o dom de dar ao público a nítida e real sensação de viver ou ter vivido cada detalhe das letras. Cada canção, toda palavra, é uma passagem de sua vida e resume ou define suas emoções, sua evolução espiritual e seu amadurecimento profissional. Mergulhar em um texto, em uma canção exige sensibilidade, talento e doação. Maria Bethânia empresta seu corpo, sua voz e sua alma a tudo o que interpreta. Ela é toda, em cada parte. Ela parece cantar, tão e somente, a sua existência. É tão perceptível, palpável, como se ela mesma fosse autora e personagem de tudo, e, meu Deus, que clareza, que beleza, que doçura é essa que nos faz lembrar de tudo que há de mais puro nos terreiros do Brasil e, sim, não só com atabaques, mas com vários instrumentos nos levando para a atmosfera mais enigmáticas de nossos congás, tendas e ilês... Impossível de dizer qual a faixa mais perfeita, qual a a atmosfera alcançada mais legítima, quais os melhores arranjos. Todo o disco se complemente e se atrai, de uma faixa a outra, convidando-nos sempre para mais.

Um misto de dor e prazer que alimenta a alma e acalenta o coração. Bethânia é atemporal. Ela sobrevive aos modelos e padrões criados pela indústria fonográfica e pela mídia em geral, nesses dias estranhos de cantoras baianas de um timbre repetitivo em série e de cantoras que teimam em imitar os maneirismos evangélicos, levantando as mãozinhas prá cima e prá baixo, como se isso melhorasse a voz.

Sem dúvida, os orixás despertaram para vê-la e ouvi-la. Maravilharam-se com a limpidez de sua voz, inundaram o céu com as lágrimas de sua emoção. Aplaudiram e convocaram-se, mutuamente, para esse espetáculo inesquecível e receberam, finalmente, Maria Bethânia perante a plêiade de estrelas que a aguardavam para coroá-la como nossa cantora maior. Bethânia chega aos píncaros de um Olimpo já habitado por cantoras perfeitas como Clara Nunes e Clementina e torna-se uma deusa na terra, a cantar lembranças do céu entre os homens.

Para ouvir a faixa 03, "Capitão do Mato", clique abaixo:







Assista ao vídeo de "Ya Massemba" abaixo:

Tuesday, May 06, 2008

Umbanda de Todos Nós - 1961

Umbanda de Todos Nós - LP - Equipe - 1961

01.Príncipe Gerson; 02.Saravá, meu Pai; 03.No pé da Jurema Preta; 04.Mineiro Grande; 05.Vamos Saravá; 06.Zé Arigó; 07.Mestre Luiz; 08.Babalorixá; 09.Mãe Aruanda; 10.Santa Bárbara; 11.De corpo fechado; 12.Pai Oxalá;

Com direção de Oswaldo Cadaxo, fundador da lendária gravadora Equipe (gravadora especializada em música brasileira, cujos discos - raríssimos - hoje são disputados a tiros e machadadas entre os colecionadores), J. Bruno Magalhães e Olavo de Barros realizaram esta obra prima absolutamente desconhecida da música brasileira e da Umbanda em todos os tempos. Cearenses, os compositores criaram xotes, baiões e rastapés maravilhosos em cima de temas e de pontos de raiz da Umbanda nordestina.

Os músicos são excelentes, principalmente os violonistas e o sanfoneiro, um cabra "bão da muléstia"!!. Apenas as vocalistas não conseguem em alguns trechos manterem o registro e quase não chegam no tom, mas mesmo assim soam muito simpáticas.

Nesta homenagem não deixaram ninguém de fora: cantam se referindo aos universos das nações, das juremas, catimbós e a todas as formas de se fazer Umbanda no Brasil. Nas faixas convivem harmoniosamente o imaginário de encantados como Príncipe Gerson, Mineiro Grande, de Mestres de linha como Mestre Luiz, de ícones das "bandas" kardecistas e católicas como Zé Arigó e Santa Bárbara (referem-se ao culto Babaçuê = Barba Soeira = Santa Bárbara) e das nações africanas na faixa "Pai Oxalá". Na música "Vamos Saravá", dão a dica de toda intenção do nome do disco: a Umbanda de todos nós está ali expressa, ao citarem todos os cultos numa letra muito simples, mas extremamente apropriada, que diz: "Filho de Umbanda precisa trabalhar, quem for de Umbanda salve meu pai Orixá..."

Para ouvir a faixa 05, "Vamos Saravá", clique abaixo:

Wednesday, April 23, 2008

Fernando Santos - 1978


Fernando Santos - CBS - LP - 1978
01.Obaluaê; 02.O Caboclinho; 03.Iemanjá; 04.Negor Zumbi; 05.Modaruê; 06.Iansã; 07.Africano (Marabú do Senegal); 08.Omulu; 09.Ibeji; 10.Olorum; 11.Orum;

Foi nos longínquos anos 70, quando ainda era criança, me lembro como se fosse hoje: um sábado chuvoso, acordei tarde porque tinha saído de madrugada da gira no terreiro em que militava e liguei a tv na antiga TV Tupi, se não me engano. Lá estava o Carlos Imperial, comandando um novo programa só de Discoteque, o ritmo da época. Carlos Imperial teve um dos programas mais influentes da música pop brasileira na década de 70. Antes, nos anos 60, conduzia o Clube do Rock, que apresentou nomes então desconhecidos como Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia e Jorge Ben. Além de apresentador, ele foi produtor musical, ator, jurado do Chacrinha e até vereador no Rio de Janeiro. Faleceu em 1992.
Para quem viveu aqueles dias, a Disco invadiu como erva daninha praticamente todas as áreas da música: de Bach ao Jazz, do Rock ao Samba, do Cinema aos quadrinhos (havia até uma super-heroína disco, chamada Cristal. Uma bobagem...) até o grupo de rock Kiss e os Sex Pistols, os inventores da onda Punk que iria ajudar a destruir o movimento dançante se renderam à moda. Tudo, absolutamente tudo, era Discoteque e praticamente todos precisavam flertar um pouco com ela para não serem discriminados ou passarem ao largo da história.
Ora, caros irmãos, até mesmo a Umbanda foi envolvida e Fernando Santos se jogou de cabeça na onda, misturando temas e ritmos dos terreiros ao baticum dançante do movimento das minorias de Los Angeles surgido nos Estados Unidos no início dos anos 70. E foi com a mesma sensação estranha que tive quando vi, na minha infância, ao vivo, o Fernando Santos rebolando de branco na minha TV preta e branca (na verdade mais preta do que branca devido a algumas válvulas queimadas), que encontrei, no milagroso You Tube, essa raridade que agora trazemos até vocês.
Carlos Imperial inicia o programa com uma frase polêmica e provocativa: "De norte a sul discute-se, é válido ou não é válido a umbanda em ritmo de discothéque. Você em casa, acenda a sua vela". E começa a surreal "Omulú".
No disco, Fernando Santos até que canta bem, e é nítida a tentativa de aproximar seu timbre de voz à rouquidão característica de Ronnie Von, que anos antes emplacou o sucesso "Cavaleiro de Aruanda." A banda de Fernando era formada por músicos sensacionais , um absurdo de precisão e técnica, a produção de William Luna é de primeiro mundo e os arranjos, para o universo Disco da época, são primorosos.
E Fernando sabia muito bem o que estava fazendo, pois pelo encarte e pelos temas das letras, nota-se tratar-se de alguém que conhecia a fundo a doutrina e todo o sistema afro-brasileiro, com seus mitos e símbolos, e embora as letras, conceitualmente não digam muita coisa - característica básica da Dance Music - Fernando Santos tenta dar o seu recado espiritual. Mas mesmo assim, convenhamos, soa estranho. Assim como surgiu, a Disco desapareceu e junto com ela, o Fernando, pois ninguém mais aguentava a batida, as roupas, os bailes e toda a atmosfera da Discoteque, que era tida como extravagante e que hoje, convenhamos até que é inocente, beirando o ridículo. Mas julguem os irmãos: será que dava prá convencer??? Há outros discos do cantor, mas não tão clássicos. E por onde andará Fernando Santos?

Para ouvir a faixa 11, "Orum", clique abaixo:



Abaixo, Fernando Santos, aos olhos de hoje, inacreditável!