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Monday, January 21, 2008

Mestre Pastinha/Mestre Bimba - provavelmente anos 40 (mestre Bimba) e anos 60 (Mestre Pastinha)


Mestre Pastinha/Mestre Bimba - LP - Gravadora desconhecida - Provavelmente anos 60


01.Dim, dim, dim; 02.Ferro de bater; 03.Água de beber; 04.Aruandê; 05.Maior é Deus; 06.Eu já vivo enjoado; 07.Bê a bá do berimbau; 08.Eu vou levar meu abc; 09.Eu nasci prá capoeira;


Mestre Pastinha

Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889, filho do espanhol José Señor Pastinha e de Dona Maria Eugênia Ferreira. Seu pai era um comerciante, dono de um pequeno armazém no centro histórico de Salvador e sua mãe, com a qual ele teve pouco contato, era uma negra natural de Santo Amaro da Purificação e que vivia de vender acarajé e de lavar roupa para famílias mais abastadas da capital baiana.


Menino ainda, Mestre Pastinha conheceu a arte da capoeira com apenas 8 anos de idade, quando um africano que chamava carinhosamente de Tio Benedito, ao ver o menino pequeno e magrelo apanhar de um garoto mais velho, resolveu ensinar-lhe a arte da Capoeira. Durante três anos, Pastinha passou tardes inteiras num velho sobrado da Rua do Tijolo, em Salvador, treinando golpes como meia-lua, rasteira, rabo-de-arraia e outros. Ali aprendeu a jogar com a vida e a ser um vencedor.


Viveu uma infância feliz, porém modesta. Durante as manhãs freqüentava aulas no Liceu de Artes e Ofício, onde também aprendeu pintura. À tarde, empinava pipa e jogava Capoeira. Aos treze anos era o moleque mais respeitado e temido do bairro. Mais tarde, foi matriculado na Escola de Aprendizes Marinheiros por seu pai, que não concordava muito com a vadiagem do moleque. Conheceu os segredos do mar e ensinou aos colegas as manhas da Capoeira.


Aos 21 anos voltou para o centro histórico, deixando a Marinha para se dedicar à pintura e exercer o ofício de pintor profissional. Suas horas de folga eram dedicadas à prática da Capoeira, cujos treinos eram feitos às escondidas, pois no início do século esta luta era crime previsto no Código Penal da República.


Em fevereiro de 1941, fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, no casarão n.º 19 do Largo do Pelourinho. Esta foi sua primeira academia-escola de Capoeira. Disciplina e organização eram regras básicas na escola de Mestre Pastinha e seus alunos sempre usavam calças pretas e camisas amarelas, cores do Ypiranga Futebol Clube, time do coração do mestre.


Mestre Pastinha viajou boa parte do mundo levando a Capoeira para representar o Brasil em vários festivais de arte negra. Ele usava todos os seus talentos para valorizar a arte da Capoeira. Fazia versos e chegou a escrever um livro, Capoeira Angola, publicado em 1964, pela Gráfica Loreto. Trabalhou muito em prol da Capoeira, divulgou a arte o quanto lhe foi possível e foi reconhecido por muitos famosos que se maravilharam com suas exibições. Aos 84 anos e muito debilitado fisicamente, deixou a antiga sede da Academia para morar num quartinho velho do Pelourinho, com sua segunda esposa, Dona Maria Romélia e a única renda financeira que tinha era a das vendas dos acarajés que sua esposa vendia. No dia 12 de abril de 1981, Pastinha participou do último jogo de sua vida. Desta vez, com a própria morte. Ele, que tantas vezes jogou com a vida, acabou derrotado pela doença e pela miséria. Morreu aos 92 anos, cego e paralítico, no abrigo D. Pedro II, em Salvador, numa sexta-feira, 13 de Novembro de 1981, vítima de uma parada cardíaca que, no estado frágil em que se encontrava, foi fatal. Pequeno e notável em sua arte, Mestre Pastinha nos deixou seus ensinamentos de vida em muitas mensagens fortes e inesquecíveis como esta: "Ninguém pode mostrar tudo o que tem. As entregas e revelações tem que ser feitas aos poucos. Isso serve na Capoeira, na família e na vida. Há momentos que não podem ser divididos com ninguém e nestes momentos existem segredos que não podem ser contados a todas as pessoas."


Na Capoeira de Angola, vale mais a astúcia do que a força muscular. O método de Pastinha, ensinado regularmente desde 1910, consiste em golpes desferidos quase que em câmara lenta. O capoeirista fica a maior parte do tempo com o corpo arqueado e sua ginga é de braços soltos, relaxados, porque a tática era se fazer de fraco diante do oponente. Os golpes não tem pressa de chegar, mas quando chegam o fazem de forma harmoniosa. Muitas pessoas que conheceram a Capoeira Angola acham que ela é menos violenta, pois os golpes são desferidos em câmera lenta, mas às vezes chega a ser mais perigosa que a Capoeira Regional. Como Mestre Pastinha dizia: "Capoeira Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta."

Mestre Bimba

Em 23 de Novembro de 1900, início de um novo século, no Bairro de Engenho Velho, Freguesia de Brotas, em Salvador, Bahia, nascia Manoel dos Reis Machado, o MESTRE BIMBA. Seu apelido ele ganhou logo que nasceu, em virtude de uma aposta feita entre sua mãe e a parteira. Sua mãe, dona Maria Martinha do Bonfim, dizia que daria luz à uma menina. A parteira afirmava que seria homem. Apostaram: perdeu dona Maria e o filho, Manoel, que ganhou o apelido que lhe acompanharia pela vida inteira: Bimba, um nome popular do órgão sexual masculino.


Seu pai, Luís Cândido Machado, já era citado nas festas de largo como grande "Batuqueiro", como Campeão de "Batuque", "a luta braba, com quedas, com a qual o sujeito jogava o outro no chão". De 1890 a 1937, a Capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República. Simples exercícios nas rua davam até seis meses de prisão. Aos 12 anos de idade, Bimba, o caçula de Dona Martinha, iniciou-se na Capoeira, na Estrada das Boiadas, hoje o grande bairro negro Liberdade. Seu mestre foi o africano Bentinho, Capitão da Companhia de Navegação Baiana.


Nesse tempo a Capoeira ainda era bastante perseguida e Bimba contava:"Naquele tempo Capoeira era coisa para carroceiro, trapicheiro, estivador e malandros. Eu era estivador, mas eu fui um pouco de tudo. A Polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado. Imagine só que um dos castigos que davam a capoeiristas que fossem pegos brigando, era amarrar um punho num rabo de cavalo e o outro em cavalo paralelo, os dois cavalos eram soltos e postos a correr em disparada até o Quartel. Comentavam até, por brincadeira, que era melhor brigar perto do Quartel, pois houve muitos casos de morte. O indivíduo não agüentava ser arrastado em disparada pelo chão e morria antes de chegar ao seu destino: o Quartel de Polícia."

A essa altura, Bimba começou a sentir que a Capoeira que ele praticava e ensinou por bom tempo, tinha se folclorizado, assim como a Bahia, que degenerou-se e passou a servir de "prato do dia" para "pseudo-capoeiristas", que utilizavam a Capoeira unicamente para exibição em praças, e, por ter eliminado seus movimentos fortes, mortais, deixava muito a desejar em termos de luta. A "pantomima" se fazia altamente necessária a esse tipo de jogo para "inglês ver". O capoeirista se tornou um folclórico em demasia, sem a verdadeira malícia e eficiência técnica que uma luta como a Capoeira exigia. Foi para reverter esse quadro que Bimba criou a Capoeira Regional, aproveitando-se de golpes do "batuque", luta da qual seu pai foi campeão, do Jiu-jítsu e do Boxe, e criou um método de ensino. Para fugir de qualquer pista que lembrasse a origem marginalizada da Capoeira, mudou alguns movimentos, eliminou a malícia da postura do capoeirista, colocando-o em pé e criou um código de ética rígido que exigia até higiene, estabeleceu o uniforme branco e se meteu até na vida privada dos alunos.

Teve o cuidado de retirar a palavra "Capoeira" do nome da academia que fundou em 1932 em Salvador, o "Centro de Cultura Física e Luta Regional". O resultado é que, a partir daí, a Capoeira começou a ganhar alunos da classe média branca e, também, a se dividir. Até hoje Angoleiros e Regionais criticam-se mutuamente, embora se respeitem. Os primeiros se consideram guardiões da tradição, enquanto os outros acham que a Capoeira "deve evoluir". Mas, com isso, Mestre Bimba deu ares atléticos ao jogo e atraiu as mulheres, até então excluídas das rodas. O jogo que Mestre Bimba criou é um jogo mais rápido, em que os capoeiristas jogam de pé, não jogando tanto no chão quanto na Capoeira Angola.

Este disco nos foi enviado por um grande amigo baiano, não possui rótulo e provavelmente trata-se de uma prensagem independente de outras edições. Um disco maravilhoso com registros importantíssimos destas duas lendas da arte marcial brasileira.

Para ouvir a faixa 03, de Mestre Bimba, "Água de beber", clique abaixo:





Para ouvir a faixa 05, de Mestre Pastinha, "Maior é Deus", clique abaixo:


Sunday, January 13, 2008

Carolina Soares - 1990

Carolina Soares - CD - Independente - 1990

01. Eu já vivo enjoado; 02. A Hora é essa; 03. Lei Áurea; 04. As Vezes me chamam de negro; 05. Saudades de Bimba; 06. Marinheiro Só; 07. A Arte de CARIBE; 08. Paranauê; 09. Maculelê; 10. Puxada de Rede; 11. Samba de Roda; 12. Toques de Berimbau;
Carolina Soares nasceu na cidade litorânea de Santos, São Paulo, em 14 de outubro de 1979. Muito cedo, porém, mudou-se com seus pais para Iguape, onde foi criada em meio aos costumes desta região simples, cercada por antigos quilombos. Deve-se a isso, talvez, o seu jeito caiçara de ser. Filha de pai negro e mãe branca, seus traços genéticos tornam visível essa mistura de raças, com destaque para a voz, que herdou o timbre forte e a musicalidade do lado afro. Sua primeira experiência com o público se deu aos dezesseis anos de idade, ainda na cidade de Iguape, onde cantou acompanhada por uma banda local.
Em 1988 foi viver em São Paulo. Em setembro deste mesmo ano conheceu a Revista Capoeira, primeira revista de capoeira editada no Brasil (e considerada a primeira do mundo, no gênero) do editor Adriano Chediak. A partir daí, sua vivência com o mundo da Capoeira teve início e foi se aprofundando: percorria as “rodas“ e os grandes eventos, conhecia os mestres e os capoeiristas. Surgiu, então, o projeto para lançar o primeiro CD, Músicas de Capoeira, com todas as faixas cantadas por uma mulher, ela, a escolhida. O sucesso foi imediato. Em conseqüência, Carolina tomou algumas aulas de canto e, dois anos depois, gravou o segundo cd - Músicas de Capoeira, vol.II -, também sucesso absoluto de mercado, trazendo quatro composições de sua autoria. Aproveitando o intervalo de gravação entre os dois primeiros cds, Carolina Soares se aprofundou na pesquisa sobre o verdadeiro Samba, cantando já com a sua própria banda, formada com músicos da velha guarda do samba de São Paulo e da Jovem Guarda da Bateria da Escola de Samba Vai-Vai.
Em 2004, no Dia Nacional do Samba que aconteceu no Teatro Sérgio Cardoso (SP), Carolina Soares foi aplaudida pela velha Guarda do Samba Paulista, com seu trabalho reconhecido e aceito. Destacando-se a cada ano no mercado fonográfico da Capoeira e do Samba, a cantora foi convidada a participar de várias comunidades de samba, levando para os jovens sua arte que procura resgatar o nosso ritmo brasileiro. Carolina Soares reside em São Paulo, de lá só sai para percorrer o Brasil, fazendo shows de Samba e Capoeira. Este seu disco de estréia é muito bom, bem gravado e Carolina canta muito bem. Há algo estranho na execução do músico que toca o agogô em algumas faixas, com relação ao tempo das músicas, mas não compromete o trabalho final. Além disso, é muito bom ver um disco de capoeira moderno com a intenção inovadora que ele traz.
Para ouvir a faixa 4, Maculelê, clique abaixo:


Viva Bahia - Volume 2 - 1968

Viva a Bahia - Volume 2 - LP - Philips - 1968

01.Candomblé de Kêto; 02.Samba de Roda; 03.Capoeira;
Criado em 1962, o Conjunto Folclórico da Bahia nasceu com o objetivo de despertar o interesse de estudantes pela música popular, através de pesquisas e realizações artísticas sem abandonar o aspecto da espontaneidade e autenticidade, tão importantes no folclore. O grupo foi pioneiro no estado da Bahia, supervisionado e orientado pela professora Emília Biancardi Ferreira e era constituído de estudantes de vários estabelecimentos de ensino médio da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. O disco, gravado em mono e captado de modo amador possui problemas sérios de nitidez no que se refere aos timbres dos instrumentos e mesmo à limpeza dos corais. Mas é um belíssimo disco - raríssimo -, e junto ao seu antecessor, resumem bem o contexto da musicalidade baiana na época e mesmo nos dias de hoje. As faixas são únicas, os músicos não dão pausas entre os cânticos e a gravação foi realizada ao vivo e sem cortes no tetro Castro Alves. O Alabê principal, pelo jeito de cantar e tocar, provavelmente é o mestre Vadinho do Gantois, inconfundível. No disco - como sempre - não constam os nomes dos músicos.

Para ouvir o excerto da faixa 01, "Oyá", clique abaixo:

Wednesday, December 26, 2007

Eu, Bahia - 1975


Edinho Marundelê e Onias Comenda - Eu, Bahia - LP - Phonogram/Philips - 1975

1.Sequecê (Oração aos orixás, Ritual Angola)/Ouiumba ouiumba é de mê (Pergunta, ritual angola); 2.Ereum Malê/Yêyê ô/Yada Baô; (saudação a Oxum); 3.Mina Oraê (saída de Caboclo)/Têtêtê da cabocla kissanga (ritual de caboclo); 4.Oridê deô (Saudação a Oxum); 5.Cambinda quearaquara (pedido de licença para entrar no Terreiro de Angola, ritual angola); 6.Dilanumatambangola (despedida de Nanã, ritual angola); 7.Toques tradicionais (Angola, São Bento Grande, Santa Maria e Idalina); 8.Cânticos de capoeira; 9.Trio de berimbaus (Gunga, Viola e Viola centro) 10. Desafio de viola com o berimbau; 11.Berimbau (improvisação); 12.Ê tava lá em casa;

Já comentamos várias vezes sobre as "pontes" que existem entre a música de terreiro e a música popular, pontes estas que estabelecem o vínculo emocional entre a atmosfera ritual e a necessidade de expressão popular que se manifesta na alegria e na celebração. A Capoeira é uma dessas pontes, pois ela traz a magia dos timbres, dos temas e de todo o mistério dos rituais dos cultos brasileiros. Este disco é um ótimo exemplo desta unidade que sempre existiu entre a arte marcial brasileira e os cânticos sagrados, que recentemente tem sido abalada por uma infecção evangélica que pretende descaracterizar a essência da capoeira, dissociando sua identidade com a umbanda através da negação de suas raízes essenciais.

O disco demonstra muito claramente que essa é uma união indissolúvel: de um lado, Edinho Marundelê canta maravilhosamente vários pontos da raiz Angola e de Umbanda, para caboclos.
Do outro, Onias Comenda mostra vários toques de capoeira e até mesmo a Viola é inserida (raramente ela é reconhecida como instrumento ligado às coisas do santo, apesar de sua igual importância) numa das faixas, em desafio com o Berimbau.

Um disco raríssimo, muito disputado, é uma obra singela e basilar para quem quer conhecer a verdadeira unidade de nossa religião brasileira.



Para ouvir a faixa 2, "Ereum Malê/Yêyê ô/Yada Baô (saudação a Oxum); ", clique abaixo:

Sunday, December 23, 2007

Mestrando Morcego - 2005



Abadá Capoeira - Mestrando Morcego - CD - Independente - 2005


Mestrando Morcego, natural do Rio de Janeiro, iniciou capoeira com o Mestre Camisa no ano de 1981 no Clube de Natação e Regatas Santa Luzia, no Aterro do Flamengo - RJ e formou-se Mestrando em 1995. Iniciou seu trabalho ministrando aulas na academia Souza Anjos, em Cordovil - RJ, ampliando posteriormente este trabalho nas Academias Las Vegas, Jardim América - RJ e Jorge Gonzales, Ilha do Governador - RJ. Mudou-se para Brasília em 1998 onde ministrou aulas até o ano de 2004, atualmente reside no Rio de Janeiro, contudo supervisiona trabalhos realizados por seus alunos nos seguintes locais do DF e entorno: Asa Norte, Asa Sul, Guará, Lago Sul, Taguatinga, Braslândia , Samambaia, Águas Claras, Val Paraíso e Cidade Ocidental. Durante três anos foi o responsável pelo aprimoramento técnico dos integrantes da Abadá-capoeira da Região Sul e atualmente é o responsável por este acompanhamento na Região Nordeste, além de ter seu trabalho estendido por seus alunos aos seguintes estados: RJ, DF, RN, CE, PR, PB e GO. E também na França, Córsega e Luxemburgo.
O cd é muito bom, Mestre Morcêgo é afinado e tem aquele timbre de voz que faz com a capoeira seja uma das mais fortes ligações dos movimentos populares com os cultos brasileiros. É um disco bem gravado, com a ambiência típica de uma roda, sem certas modernidades que as vezes, por excesso dos produtores, tornam os discos atuais um tanto quanto artificiais...
Para ouvir a faixa 06, "Vôo da Iúna", clique abaixo:


Saturday, September 08, 2007

Berimbau - 1980

Capoeira - LP - Chantecler - Camafeu de Oxossi - 1980

1.Baba Mixorô; 2.Moriô; 3.Ojo Matin Dolaiê; 4.Afoxé Loni; 5.Alá Filá Lá; 6.Adabaô no Mafê; 7.Ala la la é; 8.Paraná; 9.Quem quiser moça bonita/aidée; 10.Samba do Mar; 11.Adeus Corina; 12.Sou eu Maíta; 13.Vou dizê a meu sinô que a manteiga derramou;

Trabalhamos para a Chantecler nos anos 80 e lembramo-nos das discussões sobre alguns lançamentos na gravadora. Houve nessa década uma tentativa em se constituir um mercado de capoeira, na tentativa de se encontrar um nicho onde se fixar no contexto brasileiro de raiz e este disco foi largamente discutido até quase no final do ano de 1990...

Apesar da edição em 1980 e a reedição em 1989, as gravações parecem ter sido realizadas em outra época, talvez nos anos 60/70. São gravações ao vivo, talvez em local aberto. As primeiras músicas do lado A disco são ijexás, não há a presença de nenhum berimbau, ou de canções relativas à capoeira, são todos cantos de nação. A partir da canção "Paraná", no lado B, são cânticos de capoeira, a maior parte clássicos, conhecidos em qualquer roda. O disco é muito bom, com os temas típicos das composições de capoeira, falando das coisas do santo, da valentia e da força de vontade do escravo...

Solista de berimbau, cantor. Ápio Patrocínio da Conceição, andarilho do Pelourinho, foi um homem de sorte. Tanto no jogo, quanto no amor, daí o nome Camafeu. Ele nasceu no dia 04 de outubro de 1915, no bairro do Gravatá, em Salvador, e se criou no Pelourinho. Filho de Faustino José do Patrocínio e Maria Firmina da Conceição. Seu pai era mestre-pedreiro, descendente de africano. Conviveu com ele até os sete anos. Sua mãe veio de Camamu, era negociante de tabuleiro. Negociava frutas, doces, acarajé, tudo na Baixa dos Sapateiros. Sua mãe teve 16 filhos. Ele, Raimundo e João, cada um de um pai. Como ficou órfão de pai aos sete anos, seu padrasto dava mais atenção ao Raimundo. Não suportando aquilo, resolveu sair de casa. De menino de rua que passou fome e perdeu toda a família, estudou na Escola de Aprendiz de Artífice, trabalhando na fundição, vendeu cordão de sapato (cadarço) na porta do Elevador Lacerda. Dali passou para o passeio do Mercado Modelo como engraxate, além de vender os jornais de modinha nas feiras de Água de Meninos, Dois de Julho e Sete Portas. Saiu de lá para ser marítimo e foi parar na Estiva - Companhia Docas da Bahia até se tornar proprietário da famosa barraca de São Jorge, no velho Mercado Modelo, e de um restaurante de fama internacional.

A música entrou em sua vida desde garoto. Foi criado na roda de samba, tocando berimbau, ensinando aos turistas como tocar o instrumento. Era um homem de muitas palavras, casos e lendas para contar. Chegou a ser diretor das escolas de samba Só Falta Você, Deixa Pra Lá, Gato Preto, onde aproveitava para cantar seus sambas. No Mercado Modelo ele começou a cantar música de capoeira e ijexá, tocando berimbau e atraindo a clientela. A partir daí começou a fazer sucesso.
Na sua Barraca São Jorge, aberto em riso, cercado de objetos rituais de obis e orobôs, ele ensinava os mistérios da Bahia. Na década de 60, a Universidade Federal da Bahia criou o curso de língua ioruba e Camafeu foi um dos primeiros alunos. Foi convidado para ir à África, representando a Bahia no Primeiro Festival de Arte Negra do Senegal, junto com Pastinha e outras pessoas.
Lá ele cantou em iorubá para Oxum e para Oxóssi. Sobrinho de Mãe Aninha e filho-de-santo de Mãe Senhora, o obá de Xangó do terreiro Axé Opô Afonjá esbanjou alegria. Figura baiana conhecida em todo o Brasil, personagens de muitos livros de Jorge Amado (Tereza Batista, Dona Flor, Tenda dos Milagres, Tieta do Agreste, entre outros) de quem era amigo particular. Seu nome está presente em dezenas de músicas: aquela que diz “Camafeu, cadê Maria de São Pedro”, gravada por Martinho da Vila, outra gravada por Maria Alcina e também o conjunto Os Originais do Samba gravou um samba em sua homenagem.
Tocador de berimbau, batuqueiro, ex-presidente dos Filhos de Gandhi, Camafeu de Oxossi gravou dois discos, um deles Berimbau da Bahia com os cantos de capoeira mais belos, alguns velhos do tempo da escravidão ou da Guerra do Paraguai: “Volta do mundo, ê!/volta do mundo, ah!/ Eu estava lá em casa/sem pensá, sem maginá/e viero me buscá/para ajudar a vencê/a guerra do Paraguá/camarado ê/camaradinho/camarado...”.
Esses cantos estão cheios de lembranças da vida dos escravos: “No tempo em que eu tinha dinheiro, camarado ê, comia na mesa com ioiô, deitava na cama com iaiá... Depois que dinheiro acabou, mulher que chega prá lá, camarado. camaradinho ê....”. Contam da guerra, da escravidão, das lutas dos negros. Outros são improvisados no repente da brincadeira e, repetidos, permanecem e se tornam clássicos: “Bahia, minha Bahia,/Bahia do Salvador,/Quem não conhece capoeira/Não lhe pode dar valor//Todos podem aprender/General e até doutor”.
Com o tempo, a voz rouca não cantava mais, porém se emprestava a histórias e nomes com quem conviveu numa cidade que não existe mais.“No mercado, em meio a seus orixás, aos colares e às figas, queimando o incenso purificador, rindo sua gargalhada, saudando São Jorge e Oxóssi, rei de Ketu, o grande caçador. Camafeu comanda a música, o canto e a dança. Um baiano dos mais autênticos, um dos guardiães da cultura popular. Homem que possui o saber do povo, um desses que preservam o passado e constroem o futuro”, segundo Jorge Amado no livro Bahia de Todos os Santos. E diz mais: “Compositor, mestre solista de berimbau, obá de Xangô, Osi Obá Aresá, filho de Oxóssi, preferido de Senhora, amigo de Menininha e de Olga de Alaketu, o riso cortando o rosto, dono da amizade. Em sua barraca, em prosa sem compromisso, numa conversa largada como só na Bahia ainda existe, sem horário e sem obrigações temáticas, podem ser vistos o pescador, a filha-de-santo, o pintor Carybé, o passista de afoxé, o Governador do Estado, o compositor Caymmi, a turista loira e esnobe, a mulata mais sestrosa e Pierre Verger, carregado de saber e de mistério. A barraca de Camafeu é ponto de reunião, é mesa de debates, é conservatório de música. Na cidade do Salvador a cultura nasce, se forma e se afirma em bem estranhos lugares, como por exemplo, uma barraca do mercado (...) lá se vai Camafeu pelos caminhos da Bahia, invencível com seu santo guerreiro. Vir à Bahia e não ver Camafeu é perder o melhor da viagem. Ele é um obá, um chefe, um mestre”.
Um ritual religioso marcou no dia 27 de março de 1994 o sepultamento de uma das figuras mais conhecidas da Bahia: Apio Patrocínio da Silva, o Camafeu de Oxossi. O enterro foi no Cemitério da Ordem Terceira do São Francisco, e contou com a presença de vários amigos e admiradores daquele que era uma das maiores autoridades do culto afro-brasileiro na Bahia. Camafeu ficou conhecido não só como proprietário de um dos mais famosos restaurantes de comidas típicas da Bahia, localizado no Mercado Modelo, como também pelo posto Obá de Xangô, que ocupava no Terreiro Ilê Axe Opô Afonjá. Era querido pelas principais mães-de-santo da Bahia e amigo de Dorival Caymmi, Jorge Amado e Gilberto Gil. Doente há muito tempo, Camafeu foi vencido por um câncer na garganta e faleceu no Hospital Aristides Maltez, aos 78 anos.


Para ouvir a faixa 11, "Adeus Corina", clique abaixo:

Monday, July 16, 2007

Capoeira Cordão de Ouro Vol.2 e 3 - 1978/1979

Capoeira Cordão de Ouro Vol.2 e 3 – Continental – LP – versão em cd contendo os dois discos – 1978/1979

Volume 2: 1.Capoeira; 2. Os Negros De Aruanda; 3. Cânticos De Capoeira; 4. Marinheiro Só; 5. O Congo Chegou; 6. Samba De Roda; 7. São Bento Grande De Angola;

Volume 3: 8. Maculelê; 9. O Mundo De Deus É Grande; 10. Cantigas De Capoeira; 11. Capoeira Câmara; 12. Samango; 13.Capoeira Ligeira; 14. Se Não Fosse A Escravidão; 15. Toques De Berimbau; 16. Igreja Do Bonfim;

Dirceu foi um dos maiores bateristas e percussionistas das décadas de 50/60/70. Tivemos o privilégio dele ser nosso professor de música durante muitos anos e foi com ele que aprendemos que a música estava muito além da mera estética de modismos, rótulos e influências silenciosas da dominação estrangeira. Dirceu, com sua aproximação da Capoeira nos ensinou a valorizar, em nossa adolescência, o contato positivo com as coisas da Umbanda e do Santo, uma vez que a nossa arte marcial nativa está intrinsecamente relacionada com o mundo religioso afro-brasileiro e é impossível dissociar o universo da capoeira do mundo dos terreiros. Nestes dois discos encontramos desde a capoeira retratada em sua pureza rítmica, com berimbau, atabaque e pandeiro (seja na ginga lenta e misteriosa de Angola, seja na velocidade estonteante dos toques da regional) até faixas onde o arranjo das músicas se aproxima bem mais da música regional de outras vertentes, como o samba de roda, o coco e o maracatu. Estes dois discos são essenciais, importantíssimos para a compreensão das pontes que ligam as origens da música brasileira nos templos às derivações lógicas da música popular. Dirceu deixou saudades como músico, professor, e divulgador da capoeira e da música do santo no Brasil e no mundo.


Para ouvir a faixa 2, "Os negros de Aruanda", clique abaixo: