Tuesday, February 23, 2010

Summit - Astor Piazzolla e Gerry Mulligan - 1974


Summit - Astor Piazzolla e Gerry Mulligan - 1974 - LP - Atração

01.Twenty Years Ago; 02.Close Your Eyes And Listen; 03.Years of Solitude; 04.Deus Xango; 05.Twenty Years After; 06.Aire de Buenos Aires 07.Reminiscence; 08.Summit;

Podem estranhar. Astor Piazzola, aqui??? Tango??? Como é que é? Hein???

Sim, caros irmãos da "Banda", Tango tem TUDO a ver com o que fazemos em nossos terreiros, ilês, choças, choupanas, etc. Calma, eu explico:

Na Argentina (no Uruguai a História é outra), mais do que ‘argentino’, o tango é portenho, já que o interior da Argentina seria melhor representado por outros ritmos, como o chamamé, o malambo e a zamba, diga-se de passagem, todos, como o Tango, com ascendência africana.

O tango surgiu ao redor de 1877 no bairro de Montserrat (o bairro da Boca não foi o berço do tango, ao contrário do que indicam certas lendas, especialmente de guias turísticos estrangeiros), situado entre a Casa Rosada e o atual Congresso Nacional. Na época, ali residiam os descendentes dos escravos negros que haviam sido libertos em 1813.



Em Montserrat, também chamado de “barrio del Mondongo”, os afro-argentinos organizaram-se em associações beneficentes, que de noite – em barracos de sapé – preparavam festas para angariar fundos. Nesses eventos, tocavam batucadas lânguidas, que para os escandalizados vizinhos brancos da área eram danças “luxurientas” e “indecentes” na coreografia.



As reuniões em Monserrat-Mondongo muitas vezes acabavam subitamente com a intervenção da polícia, que aparecia para “colocar ordem” no lugar. Na época de carnaval as associações de afro-argentinos saíam às ruas para dançar ao som da batucada, denominada na região do rio da Prata como “candombe”. A rivalidade dos grupos – cada um queria mostrar que era melhor na coreografia – provocava confrontos sangrentos nas ruas. Por este motivo, depois de anos de incidentes, o governo ordenou a dissolução das associações.



Sem poder sair às ruas, os afro-portenhos organizaram lugares exclusivos de dança, os “Tambos”. Com esta palavra começa a polêmica sobre a origem do tango. Para alguns “tangólogos”, “Tango” viria de “Tambo”, ou "Tambu", palavra Bantu que designa um tipo de tambor. A própria palavra “tango”, com essa grafia, apareceu em 1836 no “Diccionario Provincial de Voces Cubanas”. O livro define “tango” como “a reunião de negros para dançar ao som de seus tambores ou atabaques”. A polêmica e a discussão são elementos altamente cotados na mesa dos argentinos. Portanto, abundam versões sobre o assunto. Uma teoria indica que “tango” vem de “tang”, palavra pertencente a um dialeto africano que poderia ser traduzida como “aproximar-se, tocar”. Nos Candomblés Angola, aqui no Brasil, a divindade conhecida como Pambu-Njila possui uma representação chamada "Maviletango", que significa "pernada" e define o modo de se dançar dessa entidade. Como o Tango também se encontra no Uruguai, há, ainda, a versão de que esse ritmo tenha surgido - assim como os Candombes - das Milongas do Rio Grande do Sul, e seria, assim, na verdade um ritmo de origem brasileira.



Curiosamente, outra versão sustenta que a palavra vem do latim “tangere”, que também significa “tocar”. No espanhol antigo, “tangir” equivale a tocar um instrumento. Para complicar, no século XIX existia na Espanha um “tango andaluz”. E no México, no século XVIII, uma dança com o mesmo nome. Nenhuma dessas teorias (há várias teorias adicionais sobre a origem da palavra) foi comprovada. Os argentinos continuam dançando este gênero sem se preocupar com sua etimologia. Desta forma, os afro-portenhos tiveram que resignar-se a ficar dentro de seus “tambos”, dançando o embrião daquilo que em poucas décadas seria o tango tal como o conhecemos hoje em dia.


A forma de dançar era – de certa forma – vagamente similar ao samba brasileiro atual: dança solta, eventualmente segurando o/a parceiro/a, além de muito requebro. Mas, nesse momento em que essa forma prototípica do tango está em plena ebulição nos lugares de encontros dos afro-argentinos, os brancos aderem à dança e ao ritmo, mas entre estes, as danças acontecem entre dois homens (!).
Gabino Ezeiza, um dos expoentes afro-argentinos do tango em seus primórdios

Astor Pantaleón Piazzolla, nascido no dia 11 de março de 1921 na cidade de Mar del Plata, passou a infância entre Buenos Aires e Nova York - mais na segunda cidade que na primeira. Começou a estudar música aos 9 anos nos Estados Unidos, dando continuidade em Buenos Aires e na Europa. Em 1935 teve um encontro quase místico com Carlos Gardel, ao participar como extra no filme El Día que me Quieras.



Sua carreira começa verdadeiramente quando decide participar como bandoneonista na orquestra de Aníbal Troilo. Em 1952 ganha uma bolsa do governo francês para estudar com a legendária Nadia Boulanger, quem o incentivou a seguir seu próprio estilo. Em 1955, de volta a casa, Astor forma o Octeto Buenos Aires. Sua seleção de músicos - em uma experiência similar à jazzística norte-americana de Gerry Mulligan - termina delineando arranjos atrevidos e timbres pouco habituais para o tango, como a introdução de guitarra.
A presença de Astor gerou ao princípio receios, inveja e admiração entre a comunidade tangueira. Nos anos 60 Piazzolla teve que defender com unhas e dentes sua música, abalada pelas fortes críticas. A controvérsia girava era se sua música era tango ou não, a tal ponto que Astor teve que chamá-la de "música contemporânea da cidade de Buenos Aires". Mas isso não era tudo: Astor provocava a todos com sua vestimenta informal, com sua pose para tocar o bandoneón (tocava de pé, quando a tradição era segurar o fole sentado) e com suas declarações que mais pareciam desafios. A formação da primeira parte dos anos 60 foi, basicamente, o quinteto. Seu público era integrado por universitários, jovens e pelo setor intelectual. Astor já tinha fama de durão e bravo, de lutador, estava em pleno período criativo e se rodeou dos melhores músicos.

Com Adiós Nonino, Decarísimo e Muerte de un Ángel começou a trilhar um caminho de sucesso que tería picos em seu concerto no Philarmonic Hall de Nova York e na musicalização de poemas de Jorge Luis Borges.

Em seus últimos anos, Piazzolla preferiu apresentar-se em concertos como solista acompanhado por uma orquestra sinfônica com uma ou outra apresentação com seu quinteto. Foi assim que percorreu o mundo e ampliou a magnitude de seu público em cada continente pelo bem e a glória da música de Buenos Aires. Astor Piazzolla faleceu em Buenos Aires no dia 4 de julho de 1992, mas deixou como legado sua inestimável obra - que abrange uns cinquenta discos - e a enorme influência de seu estilo. Na verdade, a produção cultural sobre Piazzolla parece não ter fim: se estende ao cinema e ao teatro, é constantemente reeditada pelas discográficas e ganha vida na Fundación Piazzolla, liderada por sua viúva, Laura Escalada.

"Deus Xangô", a música que nos interessa, foi composta originalmente como uma homenagem argentina à Bahia, durante os anos em que sua música foi se chegando a nós brasileiros, abertos que estávamos para não exigir nenhuma fidelidade cultural ao tango tradicional. Piazzolla veio ao Brasil muitas vezes, fez muitos amigos e conquistou aqui um de seus públicos mais apaixonados. Conta a lenda que "Deus Xangô" surgiu de uma impressionante consulta que Astor teve quando visitou uma casa de Candomblé na Bahia, quando foi consultado por um Caboclo chamado Pedra Grande de Xangô. O Caboclo consultou em espanhol, com o músico, língua que a médium - dizem -, não dominava.


Com os melhores elementos da Escola Moderna, sobretudo Bartok e Stravinsky, e não esquecendo sua base bachiana, Piazzolla construíu uma linguagem revolucionária que jamais traíu a essência estética do tango. Neste ponto assemelha-se a Duke Ellington, que levou sua música às salas de concerto sem nunca deixar de fazer jazz. E é interessante a birra de Piazzolla com o próprio Mulligan, que não sabia ler partitura (Astor Piazzolla era rigorosíssimo com a qualidade dos músicos com quem trabalhava), pois, mesmo debaixo de um estresse estupendo, Mulligan e Astor conseguiram produzir um dos albuns mais lindos da história da música.
"Deus Xangô" é tão importante quanto as obras de outros grandes músicos: Bernstein compôs West Side Story e o songwriter Gershwin nos deu Porgy and Bess, pois este revezar de estéticas e influências no Século XX foi o que mandou a música para o futuro, desde Ravel e Stravinsky com o jazz, até as poliritmias de Villa-Lobos com cantos ameríndios, batuques africanos e com a ginga do choro. Esta mesma música que torce o nariz dos eruditos "xiitas", que os indecisos mal rotulam de "crossover", que as redações não sabem qual crítico mandar cobrir, essa mesma música que nós, dos cultos afro-brasileiros precisamos descobrir em nós mesmos, pois faz parte de nossa origem e de nossa contemporaneidade...

Precisamos saber nos encontrar além da música de mídia, além das distorções financiadas por gangues da espiritualidade que querem impor mediocridades musicais ao povo de santo tranformando-o em massa de manobra. Devemos saber ouvir músicos como Piazzolla, nos reinventar como ele, que achava que reinventava o Tango, mas estava na realidade reinventando a música do continente.
Para ouvir a faixa 04, "Deus Xangô", clique abaixo:




Friday, February 12, 2010

Perguntas de leitores

Mestre Obashanan, saravá! Quantos são os tambores que devemos usar num terreiro? Saravá e obrigado!

Olá, caro irmão. Isso depende muito da tradição que o terreiro segue, pois cada templo deve ser respeitado dentro dos fundamentos no qual surgiu. Mas normalmente - e classicamente - existem três tambores com três alturas diferentes (agudo, médio e grave) e seus auxiliares de marcação e suíngue: os metais e chocalhos, que podem ser agogôs e xequerês, até mesmo pás e afuxés, etc. Há muitos templos do nordeste que usam triângulos e maracas. Lembrando que todos estes instrumentos, quando usados ritualisticamente devem passar por consagrações que envolvem defumações, orações, banhos e mesmo sacrifícios. Um abraço!


Perguntas sobre a música de terreiro, tambores, alabês, ogãs, música afrobrasileira e outros?


Clique aqui:

Monday, February 08, 2010

Escrava Isaura - 1976


Escrava Isaura - 1976 - Compacto - Som Livre
1-Elizeth Cardoso - Prisioneira; 2 - Francis Hime - Amor Sem Medo; 3 - Dorival Caymmi - Retirantes; 4 - Orquestra Som Livre - Nanã; 05 - Os Tincoãs - Banzo; 06 - Coral e Orquestra Som Livre - Mãe Preta;

A Escrava Isaura é um romance de Bernardo Guimarães que teve sua primeira edição publicada em 1875. O livro causou furor na época devido ao polêmico tema: a escrava de pele branca que era perseguida por seu senhor. Apesar da hipocrisia por trás do conceito (porque as pessoas se emocionavam mais com o sofrimento da escrava branca do que com o sofrimento igual - ou pior - dos outros personagens, negros.), o livro fêz a sociedade intelectual branca da época se enxergar na pele do outro seu semelhante, mesmo que de uma forma confusa. O mesmo aconteceu com a novela dos anos 70, quando as pessoas se viam divididas entre julgar as intenções do tema, no "absurdo" de existir uma escrava branca, mesmo que a história mostrasse o contrário, quando o verdadeiro absurdo era entender que nenhum ser humano merece estar em tais condições.
A trilha sonora é um primor, uma maravilha de arranjos, com composições, compositores e intérpretes espetaculares: Elizeth Cardoso, Francis Hime, os Tincoãs e Dorival Caymmi, além da Orquestra Som Livre, composta dos bambas da época. No que pese os arranjos globais serem extremamente pasteurizados, a banda fazia força prá fugir da escravidão branca dos produtores e soar exatamente como era: excepcional!
Clique abaixo para ouvir o clássico de Caymmi, "Retirantes", cujo refrão era e ainda é exaustivamente assoviado de forma "engraçadinha" por muitos patrões nazistas de todo o Brasil: