Tuesday, December 25, 2007

Os Tincoãs - 1973

Os Tincoãs - LP - Jangada - 1973

01.Deixa a gira girá; 02.Yansã, Mãe Virgem; 03.Sabiá Roxa; 04.Ogundê; 05.Na Beira do Mar; 06.Raposa e Guará; 07.Saudação aos Orixás; 08.Canto para Iemanjá; 09.Capela D'Ajuda; 10.Obaluaê; 11.A Força da Jurema; 12.Embola, embola;
Geograficamente um dos maiores redutos de negros na Bahia concentrou-se na região do recôncavo, tendo a cidade de Cachoeira, às margens do Rio Paraguaçu, como maior referência. Quem a conhece pode observar tradições centenárias como a procissão da Boa Morte, misturada a rituais católicos, bem como apreciar uma boa apresentação de samba de roda com os artistas locais. A riqueza cultural dessa região trouxe muitos frutos para a cultura brasileira, como os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, Raimundo Sodré, Roberto Mendes - todos de Santo Amaro da Purificação - e o trio vocal Os Tincoãs de Cachoeira, que conquistou o Brasil com a beleza e harmonia de suas vozes, bem como a excelência de seu repertório.
Formado inicialmente por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira, os Tincoãs - cujo nome é originário de uma ave que habita o cerrado brasileiro - iniciou sua carreira em 1960 no programa da TV Itapoã "Escada para o Sucesso", interpretando canções, em sua maioria boleros, inspirados no sucesso do Trio Irakitan. Chegaram inclusive a gravar um disco intitulado "Meu último bolero", sem alcançar o êxito esperado. Em 1963 Erivaldo desligou-se do grupo e a este foi incorporado outro componente, Mateus, que com os demais formaria a base principal do conjunto. Renovaram o repertório e partiram para adaptar os cantos de candomblé e umbanda, sambas de roda e cantos sacros católicos. Mas foram os terreiros de Umbanda e Candomblé que deram a base principal da musicalidade dos Tincoãs.
Em 1973 gravam o segundo disco produzido por Adelzon Alves - o mesmo produtor de Clara Nunes nos primeiros discos -, e o primeiro como representantes legítimos da música afro-baiana, este LP é um marco importante da música brasileira, não apenas pela qualidade das músicas, como também pelo arranjo com características de coral feitos a partir de canções oriundas dos terreiros, tendo como base apenas quatro instrumentos: violão, atabaque, agogô e cabaça. Este disco também revela o talento dos componentes como compositores, principalmente Mateus e Dadinho, que assinam a maioria das músicas.
Um dos destaques do disco é "Deixa a gira girá", um ponto de Umbanda, adaptada pelo trio com muito talento (que na verdade foi "apropriado" por J.B. de Carvalho algumas décadas antes), e uma das mais executadas quando se apresentavam em público. Merece referencia também "Iansã Mãe Virgem", "Sabiá roxa", "Na beira do mar", "Saudação aos orixás" e "Capela da Ajuda", que fazem um belo painel da cultura negra do recôncavo baiano. Principalmente a última, que faz referência explícita a uma das poucas construções religiosas da Bahia de estilo católico, mas que cultua e abriga em seu interior rituais da tradição africana.
Com produção musical do maestro Lindolfo Gaya, o LP tornou-se recordista de vendas na ocasião de seu lançamento. Não pelo ineditismo de seu repertório, já que muitos outros discos com temática afro já haviam sido lançados no mercado. O seu diferencial esta na beleza plástica das canções e da perfeita harmonia vocal do grupo, o único no país que conseguiu fielmente traduzir o sentimento e a musicalidade de nossas tradições negras, numa demonstração de afirmação da identidade de uma cultura que nos engrandece e nos faz ver o quanto devemos aprender com ela. Mesmo porque já faz parte de nossa formação, e a ela devemos o privilégio de conviver com esta mestiçagem que tanto nos orgulha e é a responsável pela formação da identidade cultural brasileira. Ouvir o disco dos Tincoãs é reafirmar a certeza de que não seríamos um país tão rico se não fosse a nossa ancestralidade africana, pois ela traduz o mais autentico sentimento de brasilidade que carregamos.
Mas esse texto sobre o primeiro disco dos Tincoãs não poderia terminar sem falarmos também sobre a trajetória ocorrida logo após o seu lançamento... Em 1975 a primeira grande baixa no grupo ocorre com a morte de Heraldo, depois de gravar um compacto e uma faixa, "Banzo", no LP da trilha sonora da novela Escrava Isaura. A lacuna foi preenchida com a entrada de Morais, permanecendo por pouco tempo, mas participando do terceiro LP do grupo, "O Africanito", lançado em 1975. Logo depois, substituindo Morais, foi incorporado ao trio o vocalista Badu, mantendo dessa forma a tradição e a qualidade musical do grupo. No ano de 1977 gravaram um outro disco destacando-se a música "Cordeiro de Nana", de Mateus e Dadinho.
Em 1983 Os Tincoãs foram para Angola para temporada de uma semana em Luanda, e lá se estabeleceram, participando de projetos da Secretaria de Estado da Cultura de Angola, que entre suas prioridades visava identificar valores angolanos na cultura e na música brasileira, além de estabelecer ligações entre o culto angolano e a religião praticada no Brasil. Nessa ocasião gravaram o disco Afro-Canto Coral Barroco, com a participação do coral dos Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro, sob a regência do maestro Leonardo Bruno e produção de Adelzon Alves. Este disco permaneceu inédito, só sendo lançado em 2003, portanto vinte após a sua gravação.
Este casamento de culturas ancestrais dentro de um trabalho musical, conferiu ao Tincoãs (por autoridades antropológicas, históricas, jornalísticas e musicais como Maestro Leonardo Bruno,- Maestro João Donato, Maestro Alemão Koellreutter - na ocasião Diretor do ICBA - Rio de Janeiro, Antropólogo e Etnólogo Babalaô Nigeriano Francis Ifá Kaiodê Akinwelere, e pelo seu já conhecdio produtor, Adelzon Alves, radialista e produtor discográfico, a condição de co-reanimadores da ancestralidade musical afro-barroca, brasileira.
Em 1984 Badu desligou-se do grupo, porém Mateus e Dadinho permaneceram juntos e em 1985 gravaram um disco no Brasil pela gravadora CID, que foi lançado em Angola. No país que abraçaram trabalharam em Luanda, Huambo, Lubango, Benguela, Namibe e Bengo e puderam ver de perto as batalhas que redundaram na guerra pela independência.
Com a morte de Dadinho em 2000 o grupo se desfez (Mateus Aleluia retornou de Luanda e vive entre Cachoeira e Salvador. Ele reapareceu na TVE-Ba, no especial ‘Gaiaku Luiza’ , que versa sobre uma legendária mãe de santo do candomblé de Cachoeira.), mas deixou um legado dos mais primorosos para a música popular brasileira, e para a música de terreiro: discos e músicas inesquecíveis.


Para ouvir a faixa 01, "Deixa a gira girá", clique abaixo:

4 comments:

romério rômulo said...

amigos:
bom rever aqui os tincoãs sempre com a produção do meu grande amigo
adelzon alves.
um abraço.
romério rômulo

Yan Kaô said...

Adelzon é uma pessoa abençoada que encontrou muitos seres iluminados pelo caminho, Rômulo. Gostaria de pedir-lhe um favor, se for possível: sabe de alguém que tenha os discos mais antigos dos Tincoãs? E o mais recente, que saiu em cd? Abraços e volte sempre!

romério rômulo said...

yan:
sugiro a você fazer um contato com o adelzon na rádio mec ou na rádio nacional,rj.
o programa dele na rádio nacional é
ao vivo,da meia-noite às 3 da manhã.
creio que ele possa te dar essa resposta.
um abraço.
romério

blogger said...

ola! tudo bém adelzon! aqui quém -vos fala Marcio Brasil,eu sou neto de Dadinho e queria muito,muito saber se vc tem algo em video dos tincoås? sou musico e toco percussåo para ivete sangalo,e gostaria muito de ver meu avo tocando,ja que nåo o vi em vida.
de ante måo -lhe agradeço por tudo,segue o meu contato aqui da bahia.
071-9200-1411,8705-7319.
eu iria amar poder ver ele tocando.
tenho uma banda aqui que se chama.TERREIRO POP.e estamos regravando as musicas dos tincoås em almenagem aos mesmos.fico por aqui,grande abraço e muito obrigado.sarava!!