Monday, August 30, 2010

Notas sobre Ayom - III - Quem são os Alabês?




"Éyin omo onilù a fi àrán bantè sosán
Omo agbórí odó lù fún Eégún
Omo agbóríi odó lù fún òòsá
Orò Korin lò Ayan tundè l'Ayè!!!"
(Vocês, da linhagem do tambor, que embelezam seus instrumento com panos e cordas de veludo...
Descendentes daqueles que fizeram o fundamento para o primeiro tambor de Egun...
Descendentes daqueles que fizeram o fundamento para o primeiro tambor de Orixá...
Toquem e cantem, para Ayan voltar à Terra!!)

Primeiro verso dos cânticos sagrados de Ayom.

Hoje os Alabês constituem-se numa das classes mais interessantes dentro das comunidades-terreiros do Brasil.

O nome ALABÊ é de origem Yorubá. Designa, dependendo da entonação, uma cabaça coberta de búzios, um dos símbolos de Ayom/Ayan/Aña e por extensão dos músicos-sacerdotes. Pode significar ainda, num sentido mais profundo, ALÁ – O pano branco; ABÊ – profundidade, aqueles que conhecem a origem, uma alusão ao aspecto Funfun de Ayom.

Ainda que no Brasil erroneamente sejam chamados apenas de Ogãs, os músicos dos templos brasileiros (que podem ser também chamados de Tabaqueiros, Batuqueiros, Xicarangomas, Huntós e outras designações, segundo a tradição a que pertençam...) enfrentam uma posição no mínimo paradoxal dentro destes mesmos templos... É inegável que um dos fatores que mais chamam a atenção é a orquestra ritual e mesmo que o templo conduza os trabalhos apenas com cânticos, ainda assim a música é o ponto de partida mais eficaz e completo para estabelecer o contato com o mundo espiritual. E apesar de toda essa importância, os Alabês são considerados, na maior parte das casas, personagens secundários, no sistema.

Babalawôs da sociedade Oshogboni. Todos são músicos-sacerdotes.
E por que isso acontece? Há que se lembrar que os músicos dos templos raramente aprendem sua atividade com o Pai ou a Mãe de Santo. Aprendem, sim, com um músico mais velho da casa que são verdadeiras fontes vivas dos cânticos e dos toques sagrados. Tal procedimento se destaca de tal maneira que sugere uma espécie de iniciação paralela, onde os segredos rítmicos e as invocações, e a maior parte dos fundamentos muitos sacerdotes desconhecem.
Olubatás africanos com tambores consagrados a Ayan

Mas existe uma explicação: na antiguidade, quatro eram os tipos de sacerdotes: o Babalorixá, que detinha o segredo do culto às potestades; o Babalossain, senhor dos segredos da terra e das ervas, da medicina e da flora; o Babaojê, sacerdote responsável pelo culto aos mortos, ao renascimento e aos mistérios da morte e o Babalawô, o "pai do segredo", o único autorizado a movimentar os segredos de Ifá e os mistérios do Okpelê e do Opon, jogos oraculares de extrema complexidade.

Todos estes sacerdotes se completavam num único e sólido sistema. Assim, surgiram sociedades secretas que primavam pela manutenção e integridade do culto. Ora, na antiguidade (até mesmo entre os egípcios, indianos, gregos e chineses) a música era o termômetro e o aferidor da igualdade entre os diversos templos. Ela deveria ser basicamente a mesma em todas as casas de iniciação, com o mínimo de variações possíveis, para que pudesse haver uma estabilidade de culto. E esta estabilidade é que conferia coesão a todas as partes do estado, reino ou império.

A música e o mistério de Ayom estavam entre os últimos aprendizados dos Babalawôs de mais alto grau, fazendo do conhecimento do som e dos éteres como a quinta fase sacerdotal. Quando atingiam esse nível eles eram chamados de ALAGBÁS, os "Sacerdotes Anciões", aqueles que impõem respeito ou ocupam um lugar de honra. Ainda hoje, ALAGBÁS são os chefes do mistério dos cultos egungun (este culto possui uma relação muito estreita com os fundamentos dos tambores, nos sentidos invocatórios e de transe) e todos, Babalorixás, Babalossains, Babaojes e Babalorixás, quando em seu mais alto grau, detinham esse título.




Fundamento de Ayom/Ayan/Aña com os símbolos dos Guerreiros, Mães, Reis e dos Funfun, representados por Ayan, e os sete tambores de fundamento. No TEV - Templo da estrela verde - SJRP
Por motivos políticos, em determinada época, houve uma revolta entre aqueles que não queriam ser vistoriados e aferidos. Os Alagbás foram perseguidos – talvez levassem consigo a maldição contida nas lendas de Ayom, onde o músico deverá lidar para sempre com emoções, ambientes e sentimentos infernais. Estes foram torturados, mortos e/ou tornados escravos, muitos deles sendo vendidos para o tráfico, já em tempos mais recentes. A sua atividade foi reduzida ao status da submissão aos outros sacerdotes, que passaram a lhes chamar de ALAGBÊS – os mendigos (Alá – gbés: perder-se no pano branco, estar perdido para o céu, os decaídos). A lembrança deste título permanece até hoje, na iniciação de muitos Alabês no Brasil e em outros países das américas: o ritual da salva no chão, onde se coloca dinheiro nos pés do atabaque, além do hábito de muitos Alabês serem itinerantes, cobrando para tocar nos templos.

Maldição? Tradição? Talvez ambas. Onde uma começa e outra acaba?

Analisando esses fatores, percebemos que há raríssimos Babalawôs que são verdadeiros Alagbás, pois além de traduzirem o cargo de sacerdotes dos Orixás, conhecerem profundamente o mistério das ervas, atenderem as necessidades dos cultos dos ancestrais e serem profundos perscrutadores dos mistérios do Ifá, conhecem também os mistérios do Ayom, dos toques e ritmos sagrados.

Ayom, do Eterno Retorno, aquela que sempre renasce com as canções de Oshupá Iwènumòó, a Lua Nova da Purificação.

Saturday, August 28, 2010

A mensagem de Ary Lobo - 1979








Ary Lobo – A mensagem de Ary Lobo - 1979 – Alladin Records

01. Baião do coração (Nelson Trigueiro / Tony Garça); 02. Só eu fico aqui (João Gonçalves / Ary Lobo); 03. Ei pomba gira (Álvaro Matos); 04. Buscas (Lindolfo Mastellaro); 05. O grande arquiteto (Joaquim Borges); 06. Amor e paz (Joaquim Borges); 07. No Pará não tem seca (Airão Reis / Darci Ayrão); 08. Meu São Carlos (Chico Caldas / Albuquerque); 09. Festa no mar (Amadeu Macedo / Tony Garça); 10. A Hora do adeus (Airão Reis / Darci Ayrão); 11. Caicó também está no mapa do Brasil (Severino Ramos / Ary Lobo); 12. Tem francês no samba (Nelson Trigueiro / Tony Garça);



rranjos e direção de Sylvio Viana, músicos: Armando Nunes (Violão), Guaracy (Cavaquinho), Raul de Barros (Trombone) e Jaime Storino (Bateria).

Gabriel Eusébio dos Santos Lobo (Belém, Pará, 14 de agosto de 1930 — Rio de Janeiro, RJ, 22 de agosto de 1980), mais conhecido como Ary Lobo, foi um dos inúmeros cantores e compositores brasileiros que seguiam as religiões afro-brasileiras e as cantavam em seus discos, dedicando pelo menos uma ou duas faixas ao tema.


Ary Lobo


Ary Lobo teve mais de 700 músicas gravadas, por ele e outros cantores, músicos e intérpretes. Era defensor da música nordestina de raiz.

De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, cantando derivativos do baião, além de cocos e rojões, Ary Lobo lançou vários sucessos nos anos 50 e 60 em seus nove LPs na RCA. Retratava a vida e os costumes nordestinos em números divertidos, como "Cheiro da Gasolina" e "Madame Paraíba". Este disco, "A mensagem de Ary Lobo" foi seu último lançamento e a maior parte das letras possui mensagens de espiritualidade. Estas faixas com arranjos recheados de teclados, com arranjos mais próximos de boleros e rumbas.

Sua gravação mais conhecida é, provavelmente, "O Último Pau-de-Arara".

Para ouvir a faixa 03 "Ei pomba gira", clique abaixo:




Monday, August 16, 2010

Les revenants de Ouidah - 1943



Les Reveants de Ouidah - EP - Discafric - 1943

Lado A: Savi Gnon Nou Lê;

Lado B: Ibahê;

Disco raríssimo, registra o culto Egun como era realizado no antigo Daomé. Podemos ouvir os instrumentos dos Alayans, Dunduns e Batás (no verdadeiro fundamento, Alabês e Ojès possuem uma importante e inseparável conexão espiritual e ritualística, sacralizada nas varas rituais). Na faixa apresentada abaixo, podemos escutar o diálogo entre o Ojè e o Ancestral materializado nas roupas e máscaras sagradas.

Por falar nisso, lembrem-se: jamais toquem em um Egun!!

Para ouvir a faixa Ibahê, clique abaixo:


Monday, July 26, 2010

O fim anunciado da cultura brasileira ou porque não votarei na Marina Silva ou ainda: aonde as coisas podem chegar!!!





Ayrton, desastrado cobrador da empresa Sá, Pato & Cia. sofre um acidente automobilístico na região de Friburgo (Rio de Janeiro) e é resgatado pelo recluso professor Benson, que o leva para sua residência. Ali, ele trava contato com a grande invenção de Benson, o "porviroscópio", um dispositivo que permite ver o futuro, e com Miss Jane, a bela e racional filha do cientista.

Através de Jane, Ayrton é posto a par da disputa pela Casa Branca nos Estados Unidos da América do ano 2228, onde a divisão do eleitorado branco entre homens (que querem reeleger o presidente Kerlog) e mulheres (que pretendem eleger a feminista Evelyn Astor), transforma o candidato negro, Jim Roy, no 88° presidente dos EUA.

A alegria dos negros, contudo, dura pouco. Incapazes de aceitar a derrota, os brancos (agora novamente unidos) elaboram uma "solução final" para o "problema negro", muito mais sutil e eficaz do que aquela elaborada por Hitler para os judeus. Esta história (quase real... ou não?) foi escrita em 1926 pelo criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, o grande Monteiro Lobato, intitulado "O Presidente Negro", (originalmente denominado "O Choque das Raças" e posteriormente, "O Presidente Negro ou O Choque das Raças: romance americano do ano 2228"), é o único romance (e de ficção científica) escrito por Monteiro Lobato.
Em 2008, a coincidência de dois pré-candidatos, um negro (Barack Obama) e uma mulher branca (Hillary Clinton) disputando a Casa Branca contra um candidato branco, despertou novamente a atenção da mídia brasileira para "O Presidente Negro". O livro ganhou nova edição da Editora Globo e, em algumas resenhas foi citado que Lobato teria previsto o surgimento da internet, graças a um diálogo das personagens Ayrton e Miss Jane sobre o ano de 2228:

"Ainda havia jornais neste tempo?"
"Sim, mas jornais nada relembrativos dos dias de hoje. Eram radiados e impressos em caracteres luminosos num quadro mural existente em todas casas."
O autor também fala do "teletrabalho": "em vez de ir todos os dias o empregado para o escritorio e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritorio. Em suma: trabalhar-se-á a distancia.

As idéias racistas defendidas por Monteiro Lobato estavam presentes em sua obra desde pelo menos 1900, quando leu L’Homme et les Sociètes (1881) de Le Bon, onde o autor afirma que os seres humanos foram criados de forma desigual e que a miscigenação é um fator de degeneração racial, além de que, as mulheres, brancas ou negras, são inferiores até mesmo quando comparadas aos homens de "raças inferiores".

Embora tenha tentado descobrir uma alternativa à "teoria científica" da desigualdade das raças, através da leitura de Comte e Spencer, nos anos seguintes, livros dos poligenistas Hyppolite Taine e Ernest Renan, figuras influentes no racialismo do século XIX, tornaram-se importantes fontes de referência para o escritor, que inclusive recomendava sua leitura aos amigos.

Em carta de 1905 endereçada a um amigo chamado Tito, Lobato declara ser impossível "civilizar" e "corrigir" o povo brasileiro, "devido ao fatalismo das inclinações, dos pendores, herdados com o sangue e depurados pelo meio". Ele conclui, absurdamente, que apenas uma injeção de "sangue da raça mais superior" asseguraria o futuro do país. Nesta mesma carta, ele chama de "patriota" ao brasileiro que se casasse com "italiana ou alemã".

Em 1908, talvez ecoando uma célebre declaração do Conde de Gobineau (que certa feita havia chamado os cariocas de "macacos"), Lobato confidenciou ao amigo Godofredo Rangel que a miscigenação criara uma classe de "corcundas de Notre Dame" nos subúrbios do Rio de Janeiro, declaração que trazia implícita uma crítica aos intelectuais da época, segundo os quais haveria um "padrão de beleza grega" entre a população mulata da cidade. Lobato advoga ainda a adoção de um esquema de segregação racial para o Brasil, nos moldes do então vigente nos EUA e a imigração de europeus para consertar a "anti-Grécia" carioca... Talvez seja por isso que vemos a Tia Anastácia ser retratada como uma cozinheira ignorante, fato que se repete até mesmo em revistas distribuídas ainda hoje com os personagens do Sítio, onde idéias ainda estranhas como as por Lobato admiradas estão em voga.

No livro "A Lei do Santo" (Rio, Ao Livro Técnico, 2000) de Muniz Sodré, cientista social, encontramos um conto igualmente profético intitulado Purificação. Traz a história da expansão política das igrejas evangélicas no Brasil, as quais têm como concorrente, o movimento “carismático” da Igreja Católica. No conto, se agrupam em torno de uma organização política, o Partido Evangélico, que consegue maioria no Congresso Nacional.

Muniz Sodré, a certa altura, logo a seguir deixa claros, para que o leitor comece a pensar, o que está por trás da Teologia da Prosperidade que orienta o neopentecostalismo: “A palavra de ordem era purificação. Casas de diversão e cultura eram compradas e transformadas em templos. A rede evangélica de televisão cobria o território nacional com mensagens de regeneração dos costumes e das crenças d toda espécie. Os pregadores eram todos especialistas em marketing e técnicas de motivação coletiva”.
Sodré anteviu, por exemplo, a resistência que está acontecendo em muitas escolas para ser implantada a história do povo africano e o recente ataque de evangélicos à terreiros afrobrasileiros: “Os evangélicos em especial queriam apagar todas as marcas consideradas negras. Por isso, havia agora ritos de apagamento. Um lugar com sinais de culto afrobrasileiro era perseguido, eventualmente arrasado a fogo e purificado com sal. Todos os negros que no início haviam aderido às seitas evangélicas terminaram sendo considerados suspeitos e finalmente expulsos”.

Os evangélicos se dizem perseguidos pela mídia, mas caso não existisse meios de comunicação denunciando a corrupção nesse meio, imagine as bizarrices que teríamos em nosso país. Interessante é a postura de gente como o jogador Kaká e Marina Silva, que se dizem vítimas, tentando se passar por modelos inocentes de um perseguição maior da qual são cúmplices e parceiros. Graças a Exu que a "Igrejinha" da seleção saiu maravilhosamente desonrada da Copa. E espero que Exu nos ajude a não colocar uma evangélica no topo do país, apesar de certos setores umbandistas estarem, vergonhosamente apoiando, sabe-se lá por quê, a candidata-símbolo das barbaridades feitas contra o povo do santo.

Somos descendentes de auropeus, asiáticos, indígenas e africanos. Devemos grande parte de nosso modo de pensar e sentir ao povo africano e é aterrorizador ver o que o cristianismo das igrejas evangélicas criou nos países do continente berço da cultura humana, onde crianças são acusadas de bruxarias pelos pastores, que pedem uma quantia equivalente a cerca de 4 meses de trabalho para que as crianças sejam exorcizadas. O tal exorcismo consiste em mutilar os corpos das crianças (como poderão ver no vídeo anexo) e queimar os ferimentos com o fogo de uma vela.

O principal precursor dessa doutrina perversa que campeia na África (e está pululando na Amazônia - de onde a candidata verde saiu - entre os nossos índígenas) foi um alemão e pastor neopentecostal conhecido como Reinhard Bonnke, o qual foi recebido pela Igreja Batista da Lagoinha no ano de 2007 com todas as honras de um "grande homem de Deus".

O jornal alemão Die Zeit o caracteriza como "um dos mais bem sucedidos missionários do nosso tempo". Como se não bastasse, esses missionários na África ainda recebem cachês milionários para virem pregar em congressos em outros países, como aconteceu aqui no Brasil. E muitas igrejas brasileiras já estão indo prá lá, buscar o dinheiro e disseminar sua doutrina entre os já sofridos povos africanos.


Nwanaokwo Edet, 9 anos, foi forçada a beber ácido pelo pai após pastor evangélico acusá-la de bruxaria. A menina ficou cerca de 1 mês internada em Akwa Ibom, Nigéria, antes de morrer

Os missionários brancos, vindos da América e da Europa, não se envolvem diretamente com a vitimização das crianças, como já era possível imaginar. Isso representaria muitos problemas para eles, tanto na África como em seus países de origem; um problema desnecessário, uma vez que o negócio deles é promover grandes cruzadas e construir grandes ministérios.

Moradores revoltados com Udo, 12, acusando-o de ser uma bruxa. Seu braço quase foi cortado com um facão. Fonte: http://guardian.co.uk

Dessa forma, o que resta a eles é usar o medo da bruxaria que os africanos possuem, pois o assunto bruxaria está presente em sua cultura há milênios. Não é mais possível, na África os evangélicos se utilizarem do argumento da "macumba" e do "encosto" como fazem aqui no Brasil quando se referem a Umbanda e ao Candomblé, pois mais de 70% da população é evangélica. O que eles fazem é usar um mito antigo de que existem "crianças bruxas" que, segundo eles são enviadas por Satanás para atrapalharem os negócios da família, trazendo má sorte e doenças.

Estima-se que mais de 5000 crianças foram abandonadas na Nigéria desde 1998 por conta das acusações de bruxaria feitas pelos pastores evangélicos, para morrerem; isso quando não são mortas, espancadas, dilaceradas e violentadas antes de serem abandonadas. Estatísticas dizem que a cada 5 crianças abandonadas, 1 acaba morrendo de desnutrição ou por conta das torturas indescritíveis que elas sofrem.
Juntem todas essas questões e pensem bem. Lembrem-se das "previsões" de Monteiro Lobato e de Sodré. Nossa cultura musical já está sendo esmagada pela dominação evangélica quando ligamos o rádio e ouvimos os trinados horrorosos de cantores e cantoras brasileiras que querem imitar o estilo "gospel"de canto. Quando ligamos a TV e vemos os calouros do Raul Gil, desesperadamente se esgarçando e dizendo "Graças a Deus" no mesmo modo fanático e falacioso de interpretar. Quando temos de engolir Robinho e Kaká dizendo "Amém Jesus" nos gols que fazem. Vejam o vídeo (apesar dele ainda arrastar alguma asa para os "bondosos" católicos) e percebam até onde as coisas podem chegar. Lembrem-se destas imagens na hora de votar. Lembrem-se das crianças africanas, de sua pele de ébano sendo queimada pela estupidez. E para a platéia que ainda julga ser este apenas problemas deles lá, na África, imaginem crianças brancas, loiras, sofrendo a lavagem cerebral e a tortura psicológica que só a imaginação de quem abraça esse tipo de fé pode ter.

E ainda tem (diri) gente que se diz do santo que quer abraçar este modelo de identidade evangélica para nossa comunidade e que diz, que se eles podem movimentar milhões (de almas e de grana), nós também podemos.
Como vêem, se adotarmos o mesmo sistema, haverá muita pouca coisa que não poderemos fazer...










Afoxés de Pernambuco - 2004




Afoxés de Pernambuco - 2004 - CD - Pernamhusica
1-Vim da África (Alafin Oyó); 2-Alafin eu sou (Alafin oyó); 3-Capital Yorubá (alafin oyó); 4-Obá-Omi (Alafin Oyó); 5-Gexá (Ylê de egbá); 6-Sublime egbá (Ylê de egbá); 7-negra Nagô (Ylê de Egbá); 8-Agê-Re-Okê (Ylê de egbá); 9-Nossa Riqueza (Filhos d´Ogundê); 10-Vem meu povo (Filhos d´Ogundê); 11-Axé de Oceano (Filhos d´Ogundê); 12-Louvação para Yemanjá (Filhos d´Ogundê);
O que é um Afoxé?
Pesquisando o Dicionário Yorubá (Nagô)/Português, de Eduardo Fonseca Júnior, o estudioso não encontrará a palavra Afoxé, mas Afòsé. Tal palavra (é um substantivo) africana e em português tem a seguinte tradução: “dança ritual de encomendação das almas dos mortos” (pág. 13). Logo, provavelmente, em sua origem, o Afoxé seria um tipo de Cortejo Africano, com destaque na dança, que apresenta o morto aos cuidados de um mundo que não é o material.
Afoxé em Pernambuco
Por volta do final da década de 1970, negros participantes e ligados ao atual MNU, na cidade do Recife, iniciaram rodas de conversas para a organização de um repasse sensível de conscientização para a comunidade negra daquele momento histórico. A Arte, a Cultura, são meios de comunicação de forte impacto, que atingem o ser humano em sua ótica de percepção crítica e sentimental. Logo, o viés articulado por tais negros foi a criação (ou recriação) do Afoxé Pernambucano. Assim nasceu o Ilê de África, o Axé Nagô... E surgiu o Ara Odé (de Seu Raminho de Oxóssi) em Olinda. Desse último, da Ala de Xangô, saiu a Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó.
Contudo, o Afoxé em PE é um bem cultural que possui como principais funções o vivenciar e preservar a Cultura Negra, como uma forma de possibilidade de conscientização negra da sociedade. Todavia, esse tipo de Cortejo possui um forte vínculo com o Candomblé, não compreendendo apenas o cultural, mas a junção entre Arte e Religiosidade.
O Afoxé, longe de ser, como muita gente imagina, apenas um bloco carnavalesco, tem profunda vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de Candomblé. Vem daí o fato de chamar-se o afoxé, muitas vezes, de "Candomblé de rua". Inclusive por homenagear um orixá, geralmente, o orixá da casa de candomblé a que pertence. Em Pernambuco, o afoxé ressurge com o Movimento Negro Unificado no final da década de 70, como uma das formas de se fazer chegar à maioria da população, o debate sobre consciência negra e liberdade, através da música. Esse álbum conta com a presença de 3 grupos de afoxé: Afoxé Alafin Oyó, Ylê de Egbá e Filhos de Ogundê.

Paula Guedes: vocais; Thiago Nagô: vocais, atabaque, moringa; André Mulatinho: atabaque, agogô, abê; João Juquinha: atabaque, rum, tantã; Fabiano: atabaque, abê; Dito d'Oxóssi: voz, rum, pi, berimbau; Nouga do Axé: alfaia, lé; Karina Buhr: agogô, abê; Leandro: voz; Liliane: backing-vocals e abê; Cristine: backing-vocals e abê; Reginho: tantã; Alixandre: agogô, conga, tantã, timba; Diêgo: agogô; Flávio: conga, agogô; Binho: atabaque;

Alafin Oyó


Fundada em 02 de março de 1986 tem por principal objetivo repassar e preservar a Cultura Tradicional Pernambucana; em especial, a Cultura Negra. Ela é uma reverência a ancestralidade oyó. Trajas-se à moda africana – como a estética de todo Cortejo de Afoxé – e é responsável por um dos maiores repertórios de Afoxé do Estado de Pernambuco. A entidade se configura como um dos maiores expoentes da Cultura Negra local e em 2004 foi oficializada como um Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura; ou seja, um dos pontos (entidades) que perpetuam a identidade do povo brasileiro. Segundo Lepê Correa, e toda a trajetória da entidade, até os dias de hoje ela se mostra, em toda sua riqueza de valores, da seguinte forma: Oni ê ê Omo Afonjá Pela benção de Oxalá Alafin eu sou Ouvi o agogô no repique Ao som de atabaques Tocando ijexá Eu me animei e disse é agora Minha preta está na hora O Alafin já vem São muitos negros De encarnado e branco Pelas ruas de Olinda Vem para mais de cem É a cultura Que vem descendo a ladeira Despertou lá na Ribeira Pela força de Xangô

http://alafinoyo.blogspot.com/

Para ouvir a faixa 01, "Vim da África" com o Alafin Oyó, clique abaixo:







Ile de egba

Fundada em 17 de agosto de 1986 no bairro Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife, a Entidade de Cultura Negra Afoxé Ylê de Egbá é oriunda do centro de Candomblé Ilê-Axé Ayra Dôcy, tendo como presidente da agremiação Expedito de Paula Neves (Babalaô), mais conhecido como Dito D'Oxossi. O Ylê de Egbá é formado por vários segmentos que cuidam de sua organização, entre eles o Afoxé, grupo de ritmistas, cantores e compositores responsável pela parte musical da entidade. O Afoxé mescla o toque do "Ijexá" (ritmo afro) a vários outros ritmos das nações yorubás que vieram para o Brasil, resultando arranjos e músicas com interessantes variações rítmicas, dando um "toque" singular à batida do grupo através de xequerês, atabaques, ganzás e agogôs, entre outros instrumentos específicos dessas nações negras.A entidade também desenvolve várias atividades comunitárias, educacionais e de preservação da cultura negra, participando de eventos como o "IV Congresso Afro-brasileiro" ou da "Campanha dos 300 Anos de Zumbi dos Palmares".
Para ouvir a faixa 6, "Sublime Egbá" com Ylê de Egbá, clique abaixo:







Filhos D'Ogundê

Para ouvir a faixa 11, "Axé de Oceano" dos Filhos d´Ogundê, clique abaixo:





Sunday, July 25, 2010

Cabana São Jorge - 1950







Cabana São Jorge e Cosme e Damião - LP - Independente - 1950

LADO A: 01.Ele veio de tão longe; 02.Lá na mata tem sete folhas; 03.Caboclo Sete Flexas nasceu no Jardim das Oliveiras; 04.Quem manda na mata é Oxossi; 05.Eu vi chover; 06.A coral e sua cinta; 07.Vestimenta de Caboclo é samambaia; 08.Tupinambá chamei; 09.Caboclinho se perdeu na mata; 10.Filha de babalaô; 11.Chora na Macumba oi ganga; LADO B: 12.Palavra de Vovó Cabinda sacode a poeira da saia; 13.Zoa atabaque; 14.Baba de Orixá; 15.É a Pomba Gire; 16.A Umbanda é um caminho; 17.Palavra de Pai Tomé; 18.Preto Velho quer Tarimbar; 19.Preto Velho quando baixa; 20.palavra de Pai José; 21.palavra do Presidente da cabana São Jorge e vereadora; 22.Ponto de Ogum Sete Espadas; 23.Eu vi Mamãe oxum;
Alguns dos mais raros registros da Umbanda e dos cultos brasileiros não foram feitos pelas grandes gravadoras, mas sim, por pessoas zelosas, médiuns e prosélitos que amavam suas tendas, terreiros e orixás e não se furtavam a pedir permissão às entidades e/ou aos dirigentes para gravarem mensagens, cânticos e ritmos. Uma outra prática ainda era muito comum nos terreiros: e de lançarem discos sob encomenda para serem vendidos visando ajudar financeiramente o templo em questão. Estas gravações e discos são raríssimos, verdadeiras pérolas espalhadas num mar de tantos e tantos registros realizados nestes mais de cem anos de indústris fonográfica.
O registro em questão é um entre os 12 discos mais raros de nosso acervo, que pertencem à categoria daqueles que serviram como lembrança carinhosa para o dirigente da casa. Segundo nos foi informado, só existiram DUAS cópias deste vinil. A gravação foi realizada em 1950, segundo informações. Estava em péssimo estado e foi muito difícil recuperarmos a qualidade sonora. A "capa" trata-se de um velho papelão, onde alguém - talvez de muita idade, dada a imprecisão da caligrafia - escreveu o nome das faixas.
O rito gravado é um misto de Umbanda ritualizada com atabaques e palmas -, além da palavra de entidades (Pai Tomé e Pai José), e uma visita de uma candidata a vereadora que foi pedir força no terreiro para ganhar a eleição da época (talvez tenha sido ela que tenha pago a prensagem dos LPS). Sem comentários sobre isso.
Portanto, nos atenhamos à beleza do ritual. Aqui apresentamos duas faixas: uma, um ponto conhecido de invocação ao Caboclo Tupinambá, com gravação original bem precária e uma conversa de Pai Tomé, que pela proximidade do microfone pode ser ouvida com mais clareza. Registro impressionante, meu povo! E só tem aqui!
Para ouvir a faixa 08, "Tupinambá chamei", clique abaixo:





Para ouvir a faixa 17, "Palavra de Pai Tomé", clique abaixo:



Monday, June 21, 2010

Louvação ao Orixá Xangô no TEV - Templo da Estrela Verde - São José do Rio Preto


Completamos 13 anos de homenagens ao Orixá Xangô em nosso templo, situado em São José do Rio Preto. As quatro últimas louvações foram feitas de portas abertas a todos os irmãos das religiões afro-brasileiras e cada vez mais conseguimos estreitar os laços eternos da amizade e da espiritualidade. Convidamos a todos, mais uma vez, a participarem de nosso rito, no dia 26 de junho de 2010, às 20:30, no TEV - Templo da Estrela Verde, a casa de Xangô Ayrá, situado na cidade de São José do Rio Preto, na Rua Pepino Agrelli, 849 - Jd. Vetorazzo. Tel: 017 - 3011-3203.

Após o rito será servido o já legendário Ajeum de Carneiro na Cerveja de nossa Yabassê, Yamandi, a Elaine de Oxum.

Aguardamos a todos por lá!

Kawô Kabiesilê!!

Obashanan

Abaixo, imagens de nosso rito de 2009, com a presença de ilustres Pais e Mães de santo de vários estados do Brasil, em especial, da saudosa Mãe Jesuína de Olímpia, decana da Umbanda com 97 anos de idade, além da apresentação dos tambores sagrados e a imprescindível gira de Caboclos.


Monday, May 17, 2010

LANÇAMENTO AYOM RECORDS - O REI DAS ÁGUAS - Canto de Raiz e Tambor de Fundamento


01. Eu vi mamãe Oxum na Cachoeira (2:24); 02. Atira-atira (3:11); 03. Oxalá meu pai (1:11); 04. Eu vou pedir licença a Ossaim (2:34); 05. Ele jurou bandeira (3:02); 06. Ladeira da Pilar (2:33); 07. Mato quebrando, caboclo arriando (2:04); 08. O pisar dos caboclos (2:38); 09. Espia o que vem pelo céu (2:33); 10. O rei das águas (2:58); 11. É Oxalá quem governa o mundo (3:39); 12. Ela é Ogum do fundo do mar (2:17); 13. O sino da igrejinha (3:14); 14. Aguerê (2:58); 15. Cabula de Congo (Congo de Ouro) (2:26); 16. Daró (2:31); 17. Ijexá (1:59); 18. Ritmo Agalu Ayan (3:01);

Na Umbanda, e nos cultos afro-brasileiros, o canto, a dança e o ritmo são aspectos indissociáveis que evidenciam a identidade da tradição a qual o templo pertence. É possível entender a origem de uma comunidade, suas raízes, sua história e seus rumos, de acordo com o jeito de cantar, de dançar e de se tocar os instrumentos ritualísticos. Claro que existem diferenças entre estas tradições e existem ainda, semelhanças cruciais para se compreender a distância gigantesca que separa o que é sagrado do que é profano na arte dos rituais. O Canto de Raiz possui códigos conhecidos apenas por aqueles iniciados na atmosfera musical dos terreiros. São cânticos que produzem efeitos reais e positivos quer seja no momento do transe, quer seja para sensibilizar o ambiente e atrair as divindades até os terreiros, para que se processe o atendimento e as celebrações. O Canto de Raiz geralmente é trazido por uma entidade ou recebido por raríssimos médiuns que possuem a faculdade da Psicofonia, que é a capacidade de receber, através da mediunidade, canções, músicas (cantadas, ou mesmo escritas através de outra faculdade mediúnica: a Psicografia) e mantras que despertam e recuperam as pessoas para uma nova relação com o mundo. Além do Canto de Raiz, existem ainda os Cânticos de Louvação. Estes já não possuem função magística nem invocatória, mas são importantes na condução da fé do Povo de Santo. No Brasil, Tambores de Fundamento são tambores que possuem função sagrada, que movimentam forças de atração e repulsão e que passam por ritos de consagração que os eleva para um status de instrumento mágico. São tocados apenas por músicos que tenham compromisso com sua comunidade e com o espiritual da casa a qual pertencem. Tambores de Fundamento são tambores que “conversam” entre si, são instrumentos vivos (!), onde cada peça faz uma frase diferente (o resultado final é uma espécie de “movimento sonoro”, que, além de ser captado pelos ouvidos, pode ser quase que “visualizado”) e não se apresentam em uníssono, de forma automática e monótona como vemos hoje, devido à padronização imposta pelas ditas “escolas” de curimba.

Infelizmente, tanto os Cânticos de Raiz quanto os ritmos produzidos pelos Tambores de Fundamento estão desaparecendo gradativamente por causa de eventos traumatizantes para a tradição musical dos templos do Brasil, como festivais de curimba e composições feitas apenas com o intuito de se apropriar da religião através de concursos onde o dinheiro fala mais alto. Assim, estas composições e estes “cursos” invadem os terreiros e vão pouco a pouco destruindo e mudando o panorama musical criativo e renovador das antigas casas para pior, desestruturando e descaracterizando a assinatura de tradições antigas, tornando pasteurizado o modo de se cantar e de se tocar. Nesse disco, procuramos resgatar alguns pontos de raiz que foram recolhidos em vários templos do Brasil. Alguns deles já bem desconhecidos da maior parte dos terreiros que conhecemos.
Os atabaques foram tocados com antigos ritmos de fundamento, ritmos que eram usados em muitas casas antigas de Umbanda e que hoje estão cada vez mais raros e difíceis de encontrar, em especial, a faixa “O sino da Igrejinha”, ponto do Exu Tranca Ruas, executado em uma peça de ritmo Agalu, uma rara execução de ritmo em louvor a Ayom, o Orixá dos tambores. Alguns do ritmos são apresentados em seu instrumental, sem voz, no final do CD. Tivemos o prazer de sermos acompanhados por Luciana Gama, curimbeira dos Xangôs e das Umbandas de Recife e pela curimba do templo do Caboclo Arranca-Toco de Campinas, dirigido por nosso irmão, mestre Karabayara (Pai Raimundo Medeiros).
Ayan Irê Ô! (Que Ayan lhe traga felicidade).
Para ouvir a faixa 01, "Eu vi mamãe Oxum na Cachoeira":



William de Ayrá (mestre Obashanan)
Para adquirir este disco escreva para ayom77@gmail.com
Ou ligue: (011) 9761-8058 / 3499-6152

Thursday, April 22, 2010

Villa da Macumba


Villa curtia mesmo era um bom saravá!! Olha só o charutão do homem!!

Villa Lobos, nosso maior músico era um daqueles "meninos" - tais como Pixinguinha, Donga e outros bambas - que frequentavam a casa de Tia Ciata, mãe de santo famosa no Rio. Bom, é claro que ninguém divulga isso, mas nós não podemos ficar calados frente à essa ignomíniosa questão e botamos o berro, pois muitas de nossas maiores pérolas musicas surgiram ali, no terreiro da Yiá Omin.

Mestre Villa possui em seu repertório belíssimos cânticos inspirados nas melodias de terreiro e nos cânticos religiosos de nossas Umbandas, Candomblés, Encantarias etc.

Xangô é um canto de macumba escrito em 1919, com texto de autor desconhecido. É uma das Canções Típicas Brasileiras de Villa-Lobos e integra o segundo volume de Canto Orfeônico, coletânea de marchas, canções folclóricas e hinos, publicada em 1950 e destinada à educação musical. A primeira execução desta obra foi em 1930, em Paris, sob regência de Villa-Lobos.

Aqui ouvimos essa maravilha com o coral da Osesp:


Para ouvir "Xangô" clique abaixo:







Em 2000 fomos convidados a participar - tocando percussão: congas, apito, cowbell, blocks, bumbo, pratos e carrilhão - de uma apresentação com o Coral e a Orquestra de São José do Rio Preto, numa homenagem a Villa Lobos. Encontramos em nossos arquivos a gravação daquele dia (que pensávamos ter perdido). "Estrela do céu é Lua Nova" é uma das mais conhecidas canções "macumbísticas" de Villa Lobos.
Saravá Villa Lobos!!


Para ouvir "Estrela do céu é lua nova", clique abaixo:





Monday, April 19, 2010

Tam... tam... tam... 1958 (?)

Tam... tam... tam... - LP - Polydor - 1958 (?)

01.Imbarabo; 02.Imbaê Sofá; 03.Nanã Imborô; 04.Fá-eu-á; 05.Oniká; 06.Ogum olojô; 07.Maracatu de Dona Santa; 08.De Luanda ô; 09.Maracatu Elegante; 10.Nêga Zefinha; 11.Tem Brabo no samba;

Disco raríssimo, uma preciosidade praticamente perdida e desconhecida no Brasil. Também conhecida como Brasiliana, peça do escritor polonês Miécio Askanazy, de muito sucesso nos anos 30 na Europa. A orquestra é excelente, com vocais e solo de Ivan de Paula, cantor muito requisitado no período quando se tratava de executar pontes musicais entre música de terreiro, música erudita e música popular com orquestra. A gravação da época deixa um pouco a desejar, e com o estado do disco o resultado sonoro não é muito bom (apesar da recuperação que fizemos).

Com arranjos e direção de José Prates, o lado A é essencialmente baseado em música de terreiro, conforme está descrito nos rótulos do disco, são Macumbas, Candomblés e um Batuque no lado B. As outras faixas são composições regionais, Maracatus, Sambas e Lamentos. Percebe-se que a estética da época (veja a foto da capa) tenta imitar a concepção americana de "South Music", que mais tarde derivou na conhecida "Salsa", um estilo surgido da pobreza auditiva norte-americana que não sabia diferenciar rumbas de sambas, boleros de xotes, nem merengues de maracatus. Para a indústria era tudo a mesma coisa e a estética visual também pegou por lá, mas no Brasil bem menos, felizmente.




Aqui apresentamos a interessantíssima faixa 3, "Nanã Imborô", música obviamente baseada em alguma canção de terreiro, mas que mais tarde gerou a canção de Jorge Ben, "Mas que Nada", sucesso atual no batidão eletrônico da banda Black Eyed Peas. Ou não???
Para ouvi-la clique abaixo e tire suas conclusões:


Tuesday, April 06, 2010

Os Negros do Rosário


OS NEGROS DO ROSÁRIO - LP - SONHOS & SONS - 1988

01.Abá Cuna Zambi Pala Oso (Pedrinha de Lourdes Santos); 02.Nêgo véio / Ela que mandou (Hélio Evangelista do Carmo); 03.1888 (Domínio Público); 04.Beija-fulô/ ai, pavão...Quando Deus andou pro mundo (Domínio público); 05.Ô, minha mãe / Meu coração está doendo(José Manoel)/ ( Maria das Graças de Morais, Celso Dimas Pinto,Francisco Machado da Silva)06.Tamborim / Balaim de fulo/ Vamos coroar (Domínio Público); 07.Toque de Catupé (Lázaro da Silva); 08.Vilão de Nossa Senhora do Rosário; 09.Vilão de Santa Efigênia; 10.A volta do mundo/ Dói coração / Chorei chorar (Domínio Público); 11.Mariazinha (domínio público adp. Pedro Aponízio dos Santos); 12.Ê, princesa/ Beira –mar-ô (Valdemir de Souza); 13.Ê, minha mãe / Virgem mãe das Mercês / Eu sou de voto / Venha ver (Antônio Eustaquio dos Santos); 14.Engoma / Olé-Oleleô/ Taquaia; 15.Na (Sebastião Pinto de Souza ,d.p. adapt);

Grupos que participam do disco:

Lado A: 01 – Moçambique de Nsra das Mercês; 02 – Moçambique de São Benedito; 03 – Catupé de Nsra do Rosário; 04 – Catupé de São Benedito; 05 – Moçambique de Santa Efigênia, Catupé de Nsra das Mercês; 06 – Moçambique de Santa Efigênia, Catupés de Nsra do Rosário e Santa Efigênia; 07 – Catupé de São Benedito;

Lado B: 01 – Moçambique de Nsra Das Mercês; 02 – Vilão de Nsra. Aparecidade; 03 – Catupé de N.Sra. do Rosário (Bairro da Graça); 04 – Catupé de N.sra. do Rosário (Rua da Preguiça); 05 – Moçambique de N.Sra. Aparecida; 06 – Vilão de N.Sra. do Rosário; 07 – Moçambique de N.Sra. do Rosário;

Este disco foi gravado entre setembro de 1986 e setembro de 1987 nas ruas de Oliveira/MG durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário.

A música e a cultura Bantu ainda hoje permanecem um mistérios para nossa gente, quer seja pelas inúmeras nações que aqui aportaram, com suas variadíssimas manifestações de religiosidade, quer seja pela presença portuguesa que já era forte em terras de Angola/Congo desde o século 16. Desde que os portugueses chegaram ao Golfo da Guiné, o cristianismo entrou lá e pegou. Em 1533, foi criada a diocese de Cabo Verde e Guiné. Outra diocese fundada no reino do Congo já celebrou os seus 400 anos de existência, assim, muitos escravos bantos do Brasil já eram cristãos na África. Assim, muitos povos Bantu já chegaram ao Brasil catequizados, ou trouxeram suas manifestações religiosas e culturais já sincretizadas com os sistemas católicos e/ou mesmo muçulmanos e judaicos, expressos fortemente no Congado Mineiro, essa manifestação que já existia em Portugal - celebrada pelos negros - antes mesmo da descoberta do Brasil.

No Golfo da Guiné, a recepção do cristianismo não foi passiva. No reino do Congo, surgiram algumas manifestações afro-católicas. A jovem Beatrice Kimpa Vita liderava um movimento de Sto. Antônio, que africanizava o cristianismo, procurando fazer retroceder, de forma inteligente, a dominação religiosa. Ela encarnava Santo Antônio e disse que Jesus e muitos santos nasceram no Congo. Beatrice foi condenada pela inquisição e morreu na fogueira, em 1706. Curiosamente, no Brasil, encontramos Luiza Pinta, escrava de Angola e devota de Santo Antônio em Sabará (MG), que foi torturada pela inquisição, em Lisboa no ano de 1742. Quem sabe, a Luiza tenha pertencido ao movimento da Beatriz? E quem sabe, o sincretismo de Santo Antônio com as divindades guardiãs (os Njilas, Baras e Exus), não tenha se iniciado já na África e não no Brasil, assim como outras divindades Jeje e Yorubás?


Em 1526, já havia na ilha de São Tomé a irmandade dos "Homens Pretos". Outras irmandades do Rosário existem no Congo, na Angola e em Moçambique, desde o séc.XVII. Antes de 1552, já existia no Brasil uma irmandade para os escravos da Guiné, segundo Frei Odulfo van der Vat e outros historiadores. Em 1610, o rei do Congo entrou na irmandade do rosário fundada por Fr. Lourenço O.P., em Mbanza, capital do Reino do Congo. Assim, as irmandades do rosário surgidas no Brasil, não vieram só da Europa, mas também da África. Provavelmente, houve escravos africanos que já vieram para cá como irmãos do rosário.

E como Nossa Senhora do Rosário entrou na devoção dos negros, em Portugal, na África e no Brasil? Uma lenda contada em todas as irmandades coloca a Senhora do Rosário como sendo a origem do congado (assim, há que se verificar as origens de cultos no Brasil, tais como o Omolokô, que têm relação profunda com as festas do Congado Mineiro). A irmandade do rosário (dos brancos) fundada na Alemanha em 1409, chegou a Lisboa em 1478. A mais antiga menção a uma “Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos” encontramos em 14 de julho de 1496, portanto quatro anos antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Esta informação consta num alvará dado à dita confraria, sita no mosteiro de S. Domingos de Lisboa, "para poderem dar círios e recolher as esmolas nas caravelas que vão à Mina e aos rios da Guiné". Para quem gosta de comprovações acadêmicas, encontra-se este importante documento no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa: Confirmações Gerais, L.2 fls.107v.-108.


Chegando aqui, os Lunda, Kassange, Kongos, Angolas, Moçambique e tantos outros, ao se relacionarem com seus aparentados sudaneses fizeram uma nova conexão cultural, que resultou nas várias formas de culto e musicalidade que vemos hoje no país.
Um exemplo disso é a faica de abertura do disco, onde se ouve na voz de dona Lourdes, um dialeto curioso, onde a mistura de Yorubá, Umbundo além de palavras em Tupi e Português resulta numa sonoridade suave e tão brasileira que dá gosto de ouvir. Os tambores são executados em células simples, mas com um peso hipnótico, sendo tocados por horas a fio, talvez lembrança das festas intermináveis dos povos Lunhaneka e Kikongo.
Para ouvir a faixa 01, "Abá Cuna Zambi Pala Oso", clique abaixo:





Monday, April 05, 2010

Sons e Vozes do Brasil - AFOXÉ FILHOS DE GHANDI - 2006

Sons e Vozes do Brasil - AFOXÉ FILHOS DE GHANDI - 2006 - CD - Atração

01.Cântico para Exú; 02. Hino de Saudação: Cântico de Ogum; 03.Cântico de Elevação; 04.Cântico de Elevação II e III; 05.Romaria de Gandhi (Dia de Romaria): Cânticos de elevação IV e V; 05.Cântico de Elevação VI: Cântico de Descanso; 06.Cântico de Despedida;


Em 1948 os estivadores eram tidos como privilegiados, dadas às condições econômicas da época que lhes favorecia e ao fato de não terem patrões. O trabalho era fiscalizado pelo próprio sindicato dos estivadores, o que lhes conferia um certo status. Data desse ano a fundação do bloco "Comendo Coentro", composto de um caminhão em que se instalaram vários instrumentos musicais, seguido dos estivadores, trajados finamente com o que de mais elegante existia: roupas de linho importado, chapéus "Panamá" e sapatos "Scamatchia".

A festa era regada a muita comida e bebida e os estivadores chegavam a alugar barracas para a farra carnavalesca. Em 1949 com a política de arrocho salarial, numa verdadeira economia de pós-guerra, o Governo Federal interviu nos sindicatos, inclusive no sindicato dos estivadores, o que fez decair a renda dos sindicalizados. O "Comendo Coentro" não pode sair às ruas devido à crise financeira que se abateu sobre os estivadores e porque eles não queriam desfilar em condições inferiores as do ano anterior. Surgiu, então, a idéia de levar um "cordão", ou bloco de carnaval, idealizado por Durval Marques da Silva, o "Vava Madeira", com o apoio dos demais estivadores arrecadaram dinheiro e foram às compras, adquirindo lençóis para serem utilizados na confecção dos trajes, barris de mate e couro, com os quais construíram os tambores utilizados no acompanhamento do cortejo. O nome do bloco foi sugerido por "Vava Madeira", inspirado na vida do líder pacifista Mohandas Karamchand Gandhi, trocando-se, entretanto, a letra "i" por "y", com a intenção de evitar possíveis represálias pelo uso do nome de uma importante figura do cenário mundial. Batizou-se então o bloco com o nome "Filhos de Gandhy".

Ouve-se aqui a mais característica derivação do ritmo Ijexá (um dos ritmos sagrados dos cultos afro-brasileiros) na música popular: o Afoxé. Interessante reparar na afinação dos agogôs e gans que fazem uma combinação harmônica que dá a base para os cânticos e os clarins. Embora o disco não consiga captar a força do afoxé ao vivo (dificilmente se consegue captar o poder da percussão em estúdio), ainda assim o cd é muito bom, um ótimo registro de uma de nossas mais importantes tradições de raiz e ancestralidade.



Para ouvir a faixa 01, "Cântico de Exu", clique abaixo:

Monday, March 29, 2010

Brasile - Música Indígena


Brasile - Música Indígena - Vários povos: Guarani, Asurini, Waiampi, Nambikwara, Canela, Gavião-Parkatejê, Bororo e Zuruahalocal - Blonord (Itália) - LP - 19??

01. Reza de Kambá Puku (Guarani); 02. Pajelança (Asurini); 03. Dança do Tucano (Waiampi); 04. Canto do Milho (Waiampi); 05. Buzina de Embaúba (Waiampi); 06. Flauta (Waiampi); 07. Festa da moça (Nambikwara); 08. Festa da moça (Nambikwara); 09. Flautas Wasusu (Nambikwara); 10. Flautas Sararé (Nambikwara); 11. Ritual da tora pequena (Canela); 12. Cantos noturnos (Canela); 13. Solos masculinos (Parkatejê); 14. Cantos depois da tora (Parkatejê); 15. Canto com chocalho (Parkatejê); 16. Cantos de mulheres (Parkatejê); 17. Canto Aije Paru (Bororo); 18. O Zunidor (Bororo); 19. Canto Aroe Enogwa'e (Bororo); 20. Canto Marido Paru (Bororo); 21. Solo feminino (Zuruaha);

Esse disco faz parte de uma coleção de música étnica chamada FOLKlore, organizada na Itália. As gravações foram registradas em épocas diferentes por diversas equipes que cederam o material. Um disco muito bom, que mostra a diversidade dos povos originais do Brasil, com seus cânticos carregados de mistérios. É possível sentir a força da mata, a ancestralidade expressa nas vozes e instrumentos de um tempo que não conseguimos mais entender em nossa memória.


Caminho de volta a um tempo de pureza de uma humanidade que ainda existe. Mas sem nenhum rastro na velha estrada...

Povo Asurini

Para ouvir a faixa 2, ritual de Pajelança dos Asurini, clique abaixo:



Friday, February 12, 2010

Perguntas de leitores

Mestre Obashanan, saravá! Quantos são os tambores que devemos usar num terreiro? Saravá e obrigado!

Olá, caro irmão. Isso depende muito da tradição que o terreiro segue, pois cada templo deve ser respeitado dentro dos fundamentos no qual surgiu. Mas normalmente - e classicamente - existem três tambores com três alturas diferentes (agudo, médio e grave) e seus auxiliares de marcação e suíngue: os metais e chocalhos, que podem ser agogôs e xequerês, até mesmo pás e afuxés, etc. Há muitos templos do nordeste que usam triângulos e maracas. Lembrando que todos estes instrumentos, quando usados ritualisticamente devem passar por consagrações que envolvem defumações, orações, banhos e mesmo sacrifícios. Um abraço!


Perguntas sobre a música de terreiro, tambores, alabês, ogãs, música afrobrasileira e outros?


Clique aqui:

Monday, February 08, 2010

Escrava Isaura - 1976


Escrava Isaura - 1976 - Compacto - Som Livre
1-Elizeth Cardoso - Prisioneira; 2 - Francis Hime - Amor Sem Medo; 3 - Dorival Caymmi - Retirantes; 4 - Orquestra Som Livre - Nanã; 05 - Os Tincoãs - Banzo; 06 - Coral e Orquestra Som Livre - Mãe Preta;

A Escrava Isaura é um romance de Bernardo Guimarães que teve sua primeira edição publicada em 1875. O livro causou furor na época devido ao polêmico tema: a escrava de pele branca que era perseguida por seu senhor. Apesar da hipocrisia por trás do conceito (porque as pessoas se emocionavam mais com o sofrimento da escrava branca do que com o sofrimento igual - ou pior - dos outros personagens, negros.), o livro fêz a sociedade intelectual branca da época se enxergar na pele do outro seu semelhante, mesmo que de uma forma confusa. O mesmo aconteceu com a novela dos anos 70, quando as pessoas se viam divididas entre julgar as intenções do tema, no "absurdo" de existir uma escrava branca, mesmo que a história mostrasse o contrário, quando o verdadeiro absurdo era entender que nenhum ser humano merece estar em tais condições.
A trilha sonora é um primor, uma maravilha de arranjos, com composições, compositores e intérpretes espetaculares: Elizeth Cardoso, Francis Hime, os Tincoãs e Dorival Caymmi, além da Orquestra Som Livre, composta dos bambas da época. No que pese os arranjos globais serem extremamente pasteurizados, a banda fazia força prá fugir da escravidão branca dos produtores e soar exatamente como era: excepcional!
Clique abaixo para ouvir o clássico de Caymmi, "Retirantes", cujo refrão era e ainda é exaustivamente assoviado de forma "engraçadinha" por muitos patrões nazistas de todo o Brasil: