Showing posts with label Mundo. Show all posts
Showing posts with label Mundo. Show all posts

Saturday, October 17, 2009

Jim Doney (EUA) e Mestre Obashanan (Brasil)

Jim Doney é um grande baterista americano de jazz que se dedicou, ao final dos anos 80 a pesquisa de harmonias e ritmos antigos da humanidade e usa seu conhecimento para fins terapêuticos. Jim é mestre pelo California Institute of Arts. É compositor, professor e produtor musical. Baseando-se nas leis musicais de Pitágoras, criou um instrumento chamado "Harpa pitagórica" A harpa Pitagórica é uma adaptação moderna do monocórdio original de Pitágoras e seu método de afinação gera potencialmente todas as formas de escalas e a harmonias dos povos do mundo, num só instrumento. Nele se encontram escalas Persas, Egípcias, Negro-africanas, Celtas, Indianas, Chinesas, Indígenas, etc, dependendo da região em que se toca o instrumento.

Jim escutou nosso disco "Ayom Lonan" e ficou admirado com o fato de existirem ritmos de transe tão complexos no Brasil que lhe eram desconhecidos. Lhe dissemos que também somos estudiosos da "música das esferas" e depois de uma breve conversa, Jim nos convidou para uma "Jam" no espaço Kuikakali na Vila Madalena, onde fez algumas apresentações em sua visita ao Brasil. Foram quase oito horas de "viagens" intermináveis de improviso em percussão sacra e harmonias antigas e apesar da comunicação precária de ambos - conversávamos em "portunhol" e em "espaglês" - nos entendemos muito bem. Ficou o registro em vídeo e em áudio para no futuro compormos um disco juntos, quem sabe? Jim tornou-se nosso grande amigo e volta o ano que vem. Já marcamos mais um encontro de música e ritmos ancestrais!
Aqui, Jim fala um pouco da Harpa Pitagórica:




Abaixo, em vídeo, alguns momentos da "Jam" de mais de oito horas:

Improviso 1:



Improviso 2:



Improviso 3:

Wednesday, May 20, 2009

Voices of Africa - 1997





Vozes da África – CD – Amharsi Srl-1997

01.Mustapha Tettey Addy (Ghana); 02.Cabdullahi Qarshi-Cumar Dhule (Somália); 03.Africa Jolé (Guiné); 04.Gabin Dabiré (Burkina Faso); 05.Traditional Orchestra of the Comore Islands (Camarões; 06. La Famille dembelê (Burkina Faso) 07. El Mouahidya (Argélia); 08.Arafan Koyate (Mali); 09.Amanpondo (África do Sul); 10.Hausa-Ibo-Ensemble (Nigéria); 11.La Famille Dembele (Burkina Faso); 12. cabdullahi Qarshi-Cumar Dhule (Somália); 13.Sonia laaraisi (Tunísia); 14.Music of Nande (Zaire); 15.Florida Uwera (Rwanda);

Este é um trabalho lindíssimo do sêlo italiano Amharsi Srl. Trata-se de um apanhado precioso de canções africanas de todo o continente, constando de dois volumes: este aqui é o que dá ênfase ás vozes africanas e o volume dois, que se concentra nas cordas e nos instrumentos de sopro. Sim, exatamente! A idéia é essa mesma, a de explorar o tão pouco conhecido universo africano da música que não está concentrada só no tambor, pois a idéia estereotipada da cultura africana é de que lá só existe o tambor como instrumento e mais nada. Ao contrário, verdadeiras orquestras tradicionais de cordas realizam trabalhos importantíssimos de manutenção da cultura musical mais antiga do mundo e o tambor, em muitos casos é um mero coadjuvante.


Há a música de tribos, de griots e akpalôs - contadores de histórias -, a música influenciada e que influenciou o mundo árabe e sem exceção, em todas as faixas encontramos excelentes cantores. Um disco interessante para quem estuda as origens da música e para quem quer compreender as várias influências da música africana no modo de cantar da música de terreiro.

Para ouvir a faixa 01, com Mustapha Tettey Addy (Ghana), clique abaixo:


Tuesday, February 17, 2009

BOUBACAR TRAORÈ


Boubacara Traorè - Cassete - 19? - Syllart Production - Lado A - 01.Mariama; 02.Benidmamogo; 03.Mantjini; 04.Diarabi; LADO B - 01.Kele; 02.Kayes Ba; 03.Khobe Natuma; 04.Pierrete;

Boubacar Traorè: um pequeno motivo para entender porque a África é tão importante!

Vasculhando nossa coleção musical para catalogar, digitalizar, acoplar ao acervo ou simplesmente para jogarmos fora, nos deparamos com algumas fitas que adquirimos quando de nossa estadia na África, em um intercâmbio. Estivemos em cinco países e ao passarmos pela Nigéria, encontramos vendedores ambulantes que comercializavam fitas cassete. A indústria de vinis na época (ainda não existiam mp3 ou cds, moçada, é... faz tempo isso...) era muito fraca nos países centro-africanos, por isso o mercado de fitinhas era bem intenso e porque não dizer, gigantesco. Sabemos hoje que na verdade o povo africano (de qualquer país ou etnia) tem uma verdadeira paixão por fitas cassete. Uma das alegações - bem discutível - é que elas funcionam melhor nos carros em locais inóspitos, por causa de poeira e calor, mas a verdade é que os africanos têm um verdadeiro xodó pelas enroladinhas e hoje há, inclusive muitos colecionadores de fitas e – pasmem – até mesmo artistas que se recusam a entrar no mercado de cd ou mp3 oficialmente, tal como aconteceu no início da decadência dos LPS, em que algumas gravadoras tentaram heroicamente resistir à invasão digital.

Tínhamos 19 anos na época e compramos bastante música num mercado de Lagos, em especial algumas fitas de canto dos versos do Ifá (diga-se logo de péssima qualidade sonora), algo raríssimo e completamente esquecido, uma vez que os versos devem ser cantados e não somente recitados. Babalaôs eram verdadeiros Griots, pessoas especializadas em contar histórias através do canto e mais do que isso, preservar a memória de seu povo e da humanidade, relembrando fatos heróicos e fatalidades que devem ser evitadas. Na Nigéria eram iniciados em Ayan Poolo, o deus da música de cordas.


A importância dos Griots era tanta, que no século 13, Sundiata Keita lutou contra o tirano Suamoro Kantê, que dominava região localizada na Costa Oeste do continente africano. Da batalha de Kirina, como ficou conhecida, surgiu o poderoso Reino do Mali, do qual Sundiata foi o primeiro Imperador. Para que essa história pudesse chegar aos nossos dias, foi sendo ininterruptamente transmitida oralmente pelos griots, os guardiões da memória histórica nessa região da África. Por sua importância, os griots eram os únicos que não poderiam ser mortos durante uma batalha. Eles seguiam à frente dos exércitos, cantando e tocando, ajudando na sua condução, observando a tudo e a todos para guardar os feitos e os fatos.

Foram os griots que chegaram ao povoado anunciando a vitória de Sundiata que também foi responsável por encontrar uma saída para que o seu exército poupasse a vida dos subjugados, promovendo, por meio de um pacto, a conciliação entre ganhadores e perdedores. Os griots puderam narrar então não apenas a vitória contra o opressor, como também o bom convívio instaurado por Sundiata ao fim do conflito armado.

Mas este nosso artigo visa tratar de uma das fitas que compramos naquele mercado, um dos mais belos achados que já tivemos o prazer de escutar em nossa existência (aos 19 anos nossa vida era praticamente voltada em sua grande parte para atividades menos nobres do que lidar com música). Foi uma emoção muito grande recuperar essas gravações, fui às lágrimas quando a ouvi novamente. Suas canções estavam esquecidas em minha alma e é sempre bom nos reconhecermos novamente através de uma canção...

Ele se chama Boubacar Traorè, um antigo artista de Mali, um Griot. É praticamente desconhecido no resto do mundo. A língua Fula é utilizada por ele para cantar as tristezas e glórias de seu povo, apenas lembrando que a língua Fula é oficial no Senegal, Mali, Mauritânia, Nigéria e outros países ao norte e centro-africanos.

Traoré nasceu em 1942 e começou a ser conhecido em 1962, quando cantava contra as injustiças de seu país. Sua música é classicamente pentatônica, como é comum na região em que vive e em vários países do mundo em que a estrutura modal ainda é a força musical das comunidades humanas tradicionais. Os tempos são em 2/4, 4/4 e algumas canções em 5 e 7 tempos, evidentemente devido à conexão com o mundo árabe. Mas Traorè traz mais do que som em sua música, traz a dor de todo aquele que é oprimido e traz a alegria e o alívio de quem se livra da opressão. Seu timbre lembra alguém velho, mas ainda com força para procurar novos tempos. Escute uma das faixas que recuperamos da fitinha, “Diarabi”: se prestar atenção, sentirá porque a raça negra foi quem, na verdade, conquistou o continente americano e não o branco europeu. Praticamente toda a cultura musical de nosso continente está ali! Escute e ouvirá em algum lugar naquelas notas sobrenaturais o canto triste do bluesman americano, os timbres e cores da música sertaneja, do Baião e da Milonga Rio-grandense. Lá dentro daqueles timbres está o passado de Bob Dylan, estão Cartola, Piazzolla e Tom Jobim, estão Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd, estes, ingleses que se renderam ao Blues americano, herdeiro direto do modo como Boubacar faz o glissando no violão. Lá estão a música árabe e o Klezmer judaico, juntos, sem conflitos, tão antigos quanto a música milenar africana. Escute Boubacar, sem preconceitos. Lá estão o Candomblé e a Umbanda, minha gente, naquela voz cansada e naqueles dedos antigos e desconhecidos, a cor-sem-cor de um espírito africano que abraça o mundo, que herdamos e ainda não entendemos, infelizmente, mas que pela beleza e senioridade, devemos sempre pedir a benção, respeitosamente...

Para ouvir a faixa 04, "Diarabi", clique abaixo:

Monday, June 23, 2008

Salloma Salomão - Memórias Sonoras da Noite - 2003

Salloma Salomão - Memórias Sonoras da Noite - Cd - Aruanda Mundi - 2003

01-O Principe Traidor; 02-Mansane Cisse; 03-Kalunga; 04-Kaiala; 05-Negros Bantus; 06-Cantigas dos Vissungos; 07-Atlantico Negro; 08-Seriema; 09-Maio entrou; 10-Arreda e deixeu passar; Faixa 11-Batuque Malinke; 12-Viola Dangola; 13-Moleque Zaranza; 14-Pabula preto; 15-Lamento ao meu morro; 16-Mineira Folia; 17-Folia do sul; 18-Açucar tambem azeda; 19-Dinha Mira;

Conheci Salloma através de um grande amigo, o violeiro Zé Márcio e não há muito o que dizer, além de que Salloma é um gênio. Gênio de sua raça, de seu povo brasileiro, e principalmente, da humanidade. Sensibilidade, poesia, inteligência nos arranjos, na concepção de cada música, na sutileza de cada nota. Salloma nos brinda com tanta beleza e conteúdo que chega a ser difícil ouvir o disco inteiro sem querer voltar cada faixa para querer prestar atenção novamente naquele detalhe que se engastou em nossa alma por segundos... são instrumentos africanos exóticos, tambores com timbres vivos, temas tão próximos da alma que chega logo a confissão de quem ama os sons do Brasil: somos de qual cultura mesmo? O mundo habita a música de Salloma e uma saudade que o mundo inteiro sente, uma dor distante no peito da raça humana está lá, abraçada naquele acorde. De tão maravilhoso, os 60 minutos do disco acabam virando duas, três horas, pois é preciso ouvir mais outra e mais outra vêz, para que não sobre nenhuma pérola no chão para os incautos que ainda não o conheçam. Mas como se diz em ambientes esotéricos: os verdadeiros heróis da humanidade são anônimos.

Para ouvir a faixa 19, "Dinha Mira", clique abaixo:


Monday, June 09, 2008

Voodoo Drums in hi-fi - 1958

Voodoo Drums in hi-fi - Atlantic - LP 1958


01.Contradanse - Avant Simple with Flute; 02.Ti-roro drum solo; 3.Ti-Joe Carabien; 4.Meingue with flute; 05.Nan point la vie encore oh!; 06.Laissez yo di; 07.Rara riffs; 08.Contradanse - avant simple with accordion; 09.Annonce on xange nan dlo; 10.Contradanse - Avant simple and Meringue with flute; 11.La misere pa douce!; 12.Ti-roro drum solo;

O Vodu haitiano, chamado de Sèvis Gine (literalmente "Serviço da Guiné, ou Culto Africano"), tem também fortes elementos dos povos Congo da África Central, e dos Ibos e Yorubás da Nigéria, embora muitos outros povos diferentes ou "nações" da África estejam representação na liturgia do Sèvis Gine, tais como o culto dos índios Taíno, os povos originais das ilhas. Formas crioulas de Vodu existem no Haiti, na República Dominicana, em partes de Cuba, nos Estados Unidos, e em outros lugares em que os imigrantes do Haiti se dispersaram durante os anos. É similar a outras religiões da diáspora africana, tais como Lukumi ou Regla de Ocha (conhecida também como Santería) em Cuba, e o Candomblé e Umbanda no Brasil.

A maioria dos africanos que foram trazidos como escravos para o Haiti eram da Costa da Guiné da África ocidental, e seus descendentes são os primeiros praticantes do Vodu. A sobrevivência do sistema da crenças africanas no Haiti é incrível. Assim como aconteceu com o culto aos Voduns no Brasil, os africanos transplantados ao Haiti foram obrigados a disfarçar o seus Lowa, ou espíritos, como santos católicos romanos.

As influências no Vodu não são só africanas. Há numerosas influências indígenas Taíno, dentro do processo evolutivo a que o Vodu se submeteu ao longo da história do Haiti. E não podemos nos esquecer da grande influência do paganismo europeu no Catolicismo romano no panteão dos seu próprios santos. Vodu, como conhecemos no Haiti e na diáspora Haitiana hoje, é o resultado das pressões de muitas culturas e etnicidades diferentes dos povos que foram desarraigados da África e importados para as ilhas durante o comércio africano de escravos. Sob a escravidão, a cultura e a religião africanas foram suprimidas, as linhagens foram fragmentadas, e as pessoas tiveram que ocultar seu conhecimento religioso criando assim uma nova linguagem para seu culto.

Além do mais, para combinar os espíritos de muitas e diferentes nações africanas e indígenas, as partes da liturgia católica romana foram incorporadas para substituir rezas ou elementos perdidos. As imagens de santos católicos são usadas para representar os vários espíritos ou "misteh" ("mistérios", o termo preferido no Haiti), e muitos santos são honrados no Vodu em seu próprio fundamento católico. Este sincretismo permite uma abrangência que engloba o africano, o indígena, e os antepassados europeus de uma maneira completa. É verdadeiramente a "Religião de Kreyòl (Crioulos, mestiços)".

Historicamente, o Vodu possui uma importância basilar no Haiti, pois sem ele o país praticamente não existiria: a cerimônia mais importante do Vodu Haitiano foi a Bwa Kayiman ou Bois Caïman de agosto de 1791, que deu início à Revolução Haitiana, em que o espírito do vodun Ezili Dantor possuiu um padre e pediu um porco preto como oferenda. Através do padre o vodun Ezili incitou todos as pessoas presentes a comprometeram-se com a luta pela liberdade. Esta cerimônia resultou finalmente na libertação dos povos do Haiti da dominação colonial francesa em 1804, e o estabelecimento da primeira república de povos negros na história do mundo.

O Vodu Haitiano cresceu nos Estados Unidos de forma significativa a partir do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970 com as levas de imigrantes haitianos fugindo do regime opressivo de Duvalier, estabelecendo-se em Miami, Nova Iorque, Chicago, e outras cidades.

No Vodu haitiano acredita-se, de acordo com tradição africana difundida, que há um Deus que é o criador de tudo, chamado de "Bondje" (do francês "bon Dieu" ou "bom deus", distinguido do Deus dos brancos em um discurso dramático feito pelo houngan Boukman em Bwa Kayiman, mas é considerado frequentemente o mesmo Deus da Igreja Católica de maneira informal. Bondje é distante de sua criação, e assim é que são os espíritos ou os "mistérios", "santos", ou "anjos" que o voduísta invoca para a ajudá-lo, assim como os antepassados. O voduísta adora a Deus, e serve aos espíritos, que são tratados com honra e respeito como se fossem membros mais velhos de uma casa. Diz-se que são vinte e uma nações ou "nanchons" dos espíritos, também chamadas às vezes "Lowa-yo". Algumas das nações mais importantes do Lowa são o Rada, o Nago, e o Kongo.

Os espíritos baixam também nas "famílias" que compartilham de um sobrenome, como Ogou, ou Ezili, ou Azaka ou Ghede. Por exemplo, "Ezili" é uma família, Ezili Dantor e Ezili Freda são dois espíritos individuais nessa família. A família de Ogou é de soldados, o Ezili governa as esferas femininas da vida, o Azaka governa a agricultura, o Ghede governa a esfera da morte e da fertilidade. No Vodu dominicano, há também uma família de Água Doce ou "das águas doces", que abrange todos os espíritos dos índios. Na encantaria brasileira, particularmente no Tambor de Mina, com forte influência do culto Jeje africano, onde há o culto aos Voduns, há a presença de famílias espirituais, como a dos nobres, da baía do lençol, etc.

No Vodu há centenas de lowas. Os lowas mais conhecidos são Dambala Wedo (o deus serpente), Papa Legba Atibon, e Agwe Tawoyo. No Vodu haitiano os espíritos são divididos de acordo com sua natureza em basicamente duas categorias, se são quentes ou frios. Os espíritos frios entram sob a categoria Rada, e os espíritos quentes entram sob a categoria Petro. Os espíritos de Rada são familiares e vêm na maior parte da África, e os espíritos de Petro são na maior parte nativos do Haiti e requerem mais atenção do que o Rada, mas ambos podem ser perigosos se irritados ou contrariados. Nenhum é "bom" ou "mau" com relação ao outro. Diz-se que todos os seres humanos possuem espíritos protetores, e cada pessoa é considerada como tendo um relacionamento especial com um espírito particular, que é dito "possuir sua cabeça", porém uma pessoa pode ter um lowa, que possui sua cabeça, ou "met tet", que pode ou não ser o espírito mais ativo na vida de alguém de acordo com os haitianos. Ao servir os espíritos, o voduísta busca conseguir a harmonia com sua própria natureza individual e o mundo em torno dele, manifestado como fonte de poder pessoal relacionado à vida. Parte desta harmonia é preservar o relacionamento social dentro do contexto da família e da comunidade. Uma casa ou uma sociedade de Vodu é organizada pela metáfora de uma família extensa, e os noviços são os "filhos" de seus iniciadores, com o sentido da hierarquia e da obrigação mútua que implica em respeito e continuidade, num sistema semelhante ao da Umbanda no Brasil.

A maioria de voduístas não-iniciada, é vista como "bosal"; não é uma exigência ser um iniciado a fim de servir aos espíritos. Há um clero no Vodu haitiano, cuja responsabilidade é preservar os rituais e as canções e manter o relacionamento entre os espíritos e a comunidade como um todo (embora isto seja responsabilidade de toda a comunidade também). Encarregados de conduzir o culto a todos os espíritos de sua linhagem, os sacerdotes são conhecidos como "Houngans" e sacerdotisas como "Mambos". Abaixo dos Houngans e das Mambos estão os Hounsis, que são os noviços que atuam como assistentes durante cerimônias e que são dedicados a seus próprios mistérios pessoais. Ninguém serve a qualquer Lowa somente de acordo com o próprio destino ou natureza. Os espíritos que uma pessoa tem como mentores pode ser revelado em uma cerimônia, em uma leitura, ou nos sonhos. Entretanto, todo voduista serve também aos espíritos de seus próprios antepassados de sangue, e este aspecto importante da prática do Vodu é frequentemente subestimado pelos estudiosos que não compreendem seu significado. O culto do antepassado é de fato a base da religião Vodu, e muitos Lowas como Agassu (um antigo rei do Daomé) por exemplo, são de facto, ancestrais que foram elevados ao grau de divindade.

Após um dia ou dois de preparação de altares, preparando ritualmente e cozinhando os alimentos rituais, um ritual de Vodu haitiano começa com uma série de preces e de cantigas católicas em francês, e então uma litania em Kreyol e no "langaj africano" que abrange todos os santos e Lowas honrados pela casa. Depois, uma série das invocações para todos os espíritos principais da casa. Isto é chamado o "Priyè Gine" ou prece africana. O ritual começa com a saudação ao espírito dos tambores chamado de Hounto (no Brasil a palavra designa um ritmo ou o chefe tocador dos atabaques nas nações Fon: Huntó). A seguir as cantigas para todos os espíritos individuais são entoadas, começando com a família de Legba com todos os espíritos de Rada. Segue-se um intervalo e a parte Petro do ritual começa, terminando com as cantigas para a família de Ghede. Ao serem entoadas as cantigas os espíritos virão visitar os presentes através da mediunidade, conversando e interagindo com eles. Cada espírito é saudado e cumprimentado pelos noviços presentes aos quais darão consultas, conselhos e curas àqueles que solicitarem por sua ajuda.

Muitas horas mais tarde nas primeiras horas da manhã, a última canção é entoada, despede-se os convidados, e todos os Hounsis, Houngans e Mambos esgotados podem ir dormir.

Individualmente, um voduista ou um "sevité"/"serviteur" pode ter um ou mais altares preparados para seus antepassados aos quais louvam com retratos ou estátuas, perfumes, alimentos, e outras coisas preferidas por eles. O altar mais básico é apenas uma vela branca e um copo de água e uma flor, configuração que lembra em muito os primeiros congás Umbandistas ligados à tradição de Zélio de Morais.

No dia de um espírito particular, acende-se uma vela e reza-se o Pai Nosso e Ave Maria, sauda-se Papa Legba e pede-lhe para abrir a porta, e então sauda-se ao espírito particular como um membro mais velho da família. Os antepassados são chamados diretamente, sem mediação de Papa Legba, já que são "do sangue".

Os valores culturais que o Vodu engloba giram em torno das idéias da honra e do respeito - a Deus, aos espíritos, à família, à sociedade, e a si mesmo. Há uma idéia particular de fundamentos próprios de cada Vodun, pois o que é apropriado a alguém que tenha como Vodun de cabeça um Dambala Wedo pode ser diferente de alguém com Ogou Feray, porque, por exemplo, um espírito está muito frio e outro está muito quente. O amor e a sustentação dentro da família da sociedade de Vodu parecem ser a consideração mais importante. A generosidade em dar à comunidade e aos pobres é também um valor importante. As dádivas vêm através da comunidade e há a idéia que deve-se estar disposto a retribuir por sua vez. Assim, não há "solitários" em Vodou, somente as pessoas separadas geograficamente de seus antepassados.

O Vodu Haitiano é antes uma tradição baseada na fertilidade e não discrimina homossexuais, ou pessoas de qualquer raça ou condição social. De fato, há hounfos, ou templos no Haiti cujo o clero é inteiramente de gays e lésbicas, etc. No Vodu Haitiano a orientação sexual de um praticante não é de nenhum interesse em um ambiente ritual. Entende-se apenas que aquela é a maneira em que o deus fez uma pessoa. Os Lowas ajudam a cada pessoa simplesmente a ser a pessoa que são.

Existe uma diversidade da prática no Vodu através do Haiti e da diáspora Haitiana. Por exemplo, no norte de Haiti o sèvis tèt ("lavagem de cabeça") ou o kanzwe pode ser a única iniciação, como na República Dominicana e em Cuba, enquanto que em Porto Príncipe e no sul praticam os ritos kanzo com três classes da iniciação – kanzo seltimo é a modalidade mais familiar da prática fora de Haiti. Algumas linhagens combinam ambos, como relata a Manbo Katherine Dunham de sua experiência pessoal em seu livro Island Possessed.

Ainda que a tendência geral de Vodu seja entendê-lo com suas raizes africanas, não há nenhuma forma definitiva de se praticá-lo, não há uma unidade ritualística, não codificação, só o que é certo em uma casa ou em uma linhagem particular. Os pequenos detalhes do serviço e dos espíritos servidos variarão da casa a casa, e a informação nos livros ou na Internet pode conseqüentemente parecer contraditória.

Não há nenhuma autoridade central ou "papa" no Vodu Haitiano já que "cada Mambo e Houngan são a cabeça de sua própria casa", como diz um provérbio popular no Haiti. Uma outra consideração importante é que existe no Haiti muitas seitas além do Sèvis Gine tal como o Makaya, Rara, e outras sociedades secretas, cada uma com seu próprio panteão distinto de espíritos.

O Vodu Haitiano influenciou o sul dos Estados Unidos, surgindo o sistema de mágica e religião popular conhecido como Voo Doo, que deriva primeiramente de práticas Congo e de Angola da África central. As melhores sobrevivências da religião possivelmente influenciada pelo Haiti no sul dos EUA, entretanto, se dá dentro das igrejas espirituais Africano-Americanas de Nova Orleans. Uma seita cristã fundada por Mae Leafy em meados do século XX que incorpora a iconografica católica, adoração extática derivada de formas pentecostais e espiritismo. Uma característica das igrejas espirituais de Nova Orleans é honrar o espírito americano nativo chamado falcão preto.

O Vodu veio ser associado na mente popular com os fenômenos como "Zumbis" e "bonecas do vodu". Enquanto há uma evidência etnobotânica que se relaciona à criação do zumbi", é um fenômeno menor dentro da cultura rural do Haiti e não uma parte da religião de Vodu em si. Tais coisas caem sob os auspícios do "Bokor" ou do feiticeiro antes que do sacerdote do Lowa Gine. A prática de furar com agulhas "em bonecas vodu" foi usada como um método de amaldiçoar um indivíduo por alguns seguidores do que veio a ser chamado "Nova Orleans Voodoo", que é um variante local do Vodu.

Esta prática não é original ao Vodu de Nova Orleans e tem base em dispositivos mágicos Europeus tais como as bonecas "poppet" e ainda nos nkisi ou o bocio da África ocidental e central.

Embora não sejam características da religião Hatiana, as bonecas feitas para turistas podem ser encontradas no Iron Market em Port-au-Prince, capital do Haiti. A prática tornou-se associada ao Vodu na mente popular através dos filmes de horror.

Disco urltra-raríssimo, aqui estão representadas algumas canções tradicionais do Vodu Haitiano. Percebe-se nitidamente a influência francesa na flauta e no mode de se tocá-la. A canção lembra, ainda, muitos grupos tradicionais do nordeste, talvez pela mesma mistura de influências musicais.


Para ou vir a faixa 10, "Contradanse - Avant simple and Meringue with flute", clique abaixo:





Abaixo, reportagem do Fantástico sobre o Vodu no Haiti:

Friday, August 31, 2007

O Universo Rítmico de Guem – 1982


O Universo Rítmico de Guem – LP – Som da Gente – 1982

1.Viagem; 2.Universo; 3.Tempestade; 4.Riacho; 5.Nostalgia;

A primeira vez que vimos Mestre Guem, ele estava tocando no centro de São Paulo, num palanque baixinho, embora em minha memória tenha-se fixado a imagem de um gigante rodeado de tambores. Fiquei impressionado e até hoje parece que escuto os sons mágicos que saíam dos Ashikos, Djembês, Congas, Atabaques e outros tambores africanos...

Mais tarde, o conhecemos pessoalmente e ao seu parceiro neste disco, o grande percussionista Daniel Slom. Aprendemos muito com os dois e trazemos conosco uma lembrança muito boa daquela época.

Descendente de escravos nigerianos, Guem desistiu de ser jogador de futebol para dedicar-se a percussão tradicional africana e a música e dança de transe junto ao grupo Zaka formado por seus alunos. Um verdadeiro mestre dos tambores, Guem toca praticamente todos os instrumentos de percussão e seu interesse pelos diferentes ritmos do mundo chegou ao Brasil resultando neste disco, o álbum "O Universo Rítmico de Guem", gravado em São Paulo, junto com Daniel Slom.

Extremamente musical, o mestre se apodera muito mais das possibilidades sonoras harmônicas dos instrumentos do que das possibilidades rítmicas óbvias que os tambores oferecem. Guem, este mestre do Ayom evoca um hino harmonioso, um som que penetra em nosso ser aumentando a energia vital... para Guem, o corpo humano é o principal instrumento percussivo por carregar o ritmo da vida e ele jamais dissociou as idéias e ligações espirituais dos tambores da música que ele executa em shows e em seus discos maravilhosos...
A última faixa, "Nostalgia" é um impressionante registro de um eco dos rituais dos tambores Ayom, um solo de três Têtes (um tipo de tambor africano), onde um só músico soa como dois, ou mais.

Este LP é um encontro da musicalidade africana com a brasileira numa parceria solene entre duas das principais correntes musicais do mundo.


Para ouvir a faixa 01, "Viagem", clique abaixo:

Monday, June 18, 2007

Angola – Luiz N´Gambi - Cantos Tradicionais - 1981


Angola – Luiz N´Gambi - Cantos Tradicionais – LP/ CD - (Eldorado – 1981)


01.Muadiakime; 02.Muxima; 03.Nana Fatita; 04.Birin-birin; 05.Henda I Xala; 06. Marimbondo Uangi-Lumata; 07.Tuala Nigienda; 08.Monami Zeca; 09. Hoola Hoop; 10. Nga Kuambela Kiá; 11. Makezu; 12. Samba;

Com este disco inauguramos o setor “mundo”, onde postaremos muito das origens e raízes das músicas de terreiros no Brasil. Esse universo abrange desde as músicas de origem africana, em sua face popular e ritualística, até as músicas asiáticas, européias, etc. Procuraremos dar um panorama geral do que se canta no mundo de Zamby, esse mundo que se encontra e se renova em nosso Brasil

Luiz Ngambi é um cantor e compositor angolano, que já de longa data procura difundir as tradições Angolanas para o Brasil e o mundo. Trata-se de um trabalho onde canções tradicionais e folclóricas foram recolhidas e executadas num formato mais moderno nas doze faixas do LP. É interessante notar-se a semelhança, para não dizer a fonte de origem de muito da música brasileira e cubana. É disco com ótimos músicos, cantado em quibundo, com temas muito voltados às coisas da religião


Para ouvir a faixa 06, "Marimbondo Unagi-Lumata", clique abaixo: