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Monday, September 13, 2010

XII Congresso Afro-brasileiro de Uberlândia

Cerca de 800 pessoas estiveram presentes em cada dia do XII Congresso de Uberlândia que a cada ano está cada vez mais organizado e atraindo mais e mais gente do "santo" de todo o Brasil. Agradecemos especialmente ao nossos filhos Eliton e Alessandro por mais essa oportunidade.


Todas as tradições estiveram presentes!





Mestre Aramaty palestrando

Clique abaixo e escute a entrevista com Mestre Aramaty para a rádio municipal de Uberlândia:
























Grandes Alabês de Uberlândia, ajudando em nossa palestra! Obrigado a todos!




Obashanan

Transmissão e educação nos terreiros. Quase tudo se transmite pelo axé do toque, do canto, da dança e das invocações. Tambor é comunicação!

Com Pai Élcio de Oxalá


Casa cheia. Bateu no tambor, o povo vem!
Clique abaixo e escute a entrevista do Obashanan para a rádio municipal de Uberlândia:















Saturday, August 09, 2008

Laguidibá


Recentemente discutia sobre o assunto abaixo com um amigo meu:


A MODA DO LAGUIDIBÁ

Na complexa e sofisticada tradição jeje-iorubana, o lágídígba (em português, laguidibá) é um fio preto de rodelas de chifre de búfalo, usado, tradicional e ritualisticamente, em torno de cinturas femininas.

Ligado ao culto de divindades da terra, como Nanã, Omolu e Oxumarê, é peça de alto fundamento, podendo ser usada como colar, mas não aleatoriamente.


As divindades representadas no laguidibá são cultuadas de modo muito particular, com muito mistério e respeito. Tanto que "Omolu" é apenas o epíteto de um orixá ou vodum tão forte que seu nome não pode sequer ser pronunciado.


E este papo todo vem a propósito da "moda do laguidibá", que virou adorno obrigatório de pescoço de percussionista; e de alguns músicos "de raiz". Raro hoje ver, no palco, um pandeirista, um tantanzeiro, um repiquista-de-mão, ou mesmo um violonista, que não se apresente com um laguidibá no pescoço.


Foi aí que, naquela linha do "quem não pode com mandinga, não carrega patuá", ocorreu ao Veterano aqui fazer um samba. Que pode começar mais ou menos assim:


"Quem não é de Obalibô / Não usa laguidibá/

Tira o colar do pescoço, seu moço / Que pode se machucar..."


Obalibô, vocês sabem, é outro cognome da grande divindade conhecida como Omolu e que, em Cuba, inspirou a rumba famosa: "Babalu! Babalu-aiê!"...


Atotô, meu pai!


Nei Lopes



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Veja o clip e cante junto:



Laguidibá
.
Quem não é de Obalibô (ioiô)
Não usa laguidibá (iaiá)
Tira o colar do pescoço, seu moço
Que é pra não se machucar

Laguidibá
Não é simples ornamento
É colar de fundamento
Você tem que respeitar
Então, seu moço
Sai desse angu de caroço
Tira o colar do pescoço
Pra Papai não se zangar
.
Laguidibá
É adereço muito certo
É coisa de santo velho
Do Antigo Daomé
Quem é de jeje
Pegue esse colar e beije
Quem não é, deite, rasteje
Se quiser ficar de pé.
Laguidibá
Pra usar, tem que ser feito
Dentro de todo o preceito
Da nação... Me diz qual é?
Nagô vodum, Jeje ruinhó, Mina-jeje
Peixe vira caranguejo
Na vasante da maré.

Tuesday, April 22, 2008

O Polêmico Nei Lopes


MARCELO BERABA

da Folha de S.Paulo, no Rio.

O escritor e compositor popular Nei Lopes critica o afastamento de setores da umbanda das raízes africanas. "Essa umbanda não usa tambores e se pretende esotérica", diz. "É como se seus praticantes dissessem: 'Essa coisa de tambor, sacrifícios de animais, isso é coisa de selvagens! Nós somos civilizados'. Nessa oposição entre 'selvagem' e 'civilizado' é que está o racismo". Nei Lopes é o autor da "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana" (Selo Negro Edições).

Folha- Como analisa a formação da umbanda?

Nei Lopes - O mito de origem da umbanda, na versão que tem como protagonista o médium Zélio de Moraes, é exemplar. Ele evidencia a busca de inserção dos despossuídos da sociedade brasileira no espaço religioso.Todo mito tem um fundo de verdade, que os eruditos chamam de "mitologema"; e, na história da umbanda, esse fundo é o episódio do médium Zélio. Mas antes já havia, além dos calundus coloniais, que não tinham organização social, comunitária, os candomblés, organizados, como se sabe hoje, desde antes de 1850. Na virada para o século 19, a ialorixá baiana Mãe Aninha vinha de vez em quando ao Rio, onde inclusive fundou, por volta de 1906, uma filial de sua "roça", o Opô Afonjá, que funciona até hoje em Coelho da Rocha, São João de Meriti [Baixada Fluminense]. E a umbanda, herdeira direta de cultos bantos como o da cabula, cresceu certamente sob a influência desse prestígio do candomblé baiano, incorporando as figuras dos orixás jeje-nagôs e outros elementos. Mas o que fundamentalmente distingue a umbanda é o culto aos pretos-velhos, que não existem no candomblé. E esses pretos-velhos são representações de espíritos familiares bantos, da área de Angola, Congo e Moçambique (África centro-ocidental e oriental), daí seus nomes: Vovó Conga, Pai Joaquim de Angola, Tia Maria Rebolo, Pai Joaquim de Aruanda. O candomblé vem do Benin, da Nigéria, da África ocidental.
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Folha- Como o sr. se define sob o ponto de vista religioso?


Lopes - Minha mãe recebia uma preta-velha, mas não era umbandista. Nós tínhamos lá em casa nosso culto doméstico. Hoje eu cultuo orixás. Mas não sou candomblecista, como aliás já fui. Eu me dedico à forma de culto que em Cuba se conhece como santeria, que inclusive já tem muitos adeptos no Brasil. E cultuo esses orixás na minha casa. A definição, então, não é fácil. E por isso eu proponho que o IBGE inclua tudo na rubrica "religião africana", ou "religião de matriz africana", onde a umbanda, por ser cada vez mais sincrética, talvez já não caiba mais.
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Folha- Qual é a diferença que o sr. distingue entre o candomblé e a santeria cubana?


Lopes - As diferenças são poucas, mas significativas. Restringem-se quase exclusivamente a particularidades litúrgicas, uso de instrumentos (aqui atabaques daomeanos, percutidos entre as pernas do tocador; lá, batás nigerianos, levados a tiracolo); diferenças nos elementos que compõem os assentamentos dos orixás etc. E é tudo uma questão de procedência: o candomblé da Bahia é basicamente um produto de Quêto, um reino localizado no atual Benin, antigo Daomé; e a santería cubana vem de Oyó, um outro reino, de onde parece ter vindo, também, o xangô de Pernambuco, que guarda muito mais semelhanças com a santeria que com o candomblé, principalmente no destaque que dá ao culto de Orumilá ou Ifá, o grande orixá do saber, do conhecimento, dono do Oráculo, em torno do qual gravita todo o conhecimento sobre os outros orixás iorubanos (nagôs, lucumis, ijexás etc.), sua mitologia e a liturgia do seu culto.
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Folha- A umbanda aparentemente vem perdendo espaço para outras religiões. O sr. tem essa percepção?


Lopes - Todas as religiões de matriz africana vêm perdendo espaço para a truculência neopentecostal. Truculência que chega à agressão física, como na Bahia.
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Folha- Muita gente que freqüenta centros não se declara umbandista. Por que será? Por medo? Vergonha?


Lopes - Essa ocultação é conseqüência do racismo brasileiro. A maioria das pessoas tem vergonha de assumir alguma coisa que remeta à África, à escravidão. Cultura negra só se for desafricanizada... é aí que a gente chega a uma coisa interessante. Existe uma vertente da umbanda que inclusive nega a origem africana da religião, buscando suas raízes na Índia. Tentam até provar que o nome umbanda (que deriva do quimbundo mbanda, ritualista, curandeiro) vem do sânscrito. Essa umbanda não usa tambores e se pretende esotérica; e é ela que vem se expandindo pela América do Sul e pelo mundo. É como se seus praticantes dissessem: "Essa coisa de tambor, sacrifícios de animais, isso é coisa de selvagens! Nós somos civilizados". Nessa oposição entre "selvagem" e "civilizado" é que está o racismo. Então, a intenção dos espíritos acolhidos pelo médium Zélio Moraes há cem anos parece que está se frustrando.

Tuesday, October 09, 2007

KANGOMA NA ROLLING STONE!!!



O grupo Kangoma - ligado à Faculdade de Teologia Umbandista - está na edição de setembro da Rolling Stone, a maior revista pop do mundo!!! Nosso último disco, "Boa Tarde Povo" foi ouvido pelo lendário crítico Alex Antunes e ganhou três estrelas na cotação (o máximo é 4 estrelas!!).



Abaixo, a transcrição da crítica:






"Boa Tarde, Povo

CPC

Terreiro elétrico

Há décadas que a chamada world music, fora do Brasil, dá margem a pesquisas de músicas étnica com apelo e acabamento pop. Aqui, parece que ainda há uma barreira entre o "purismo" e o "comercialismo" - ou parecia, porque o Kangoma ignora solenemente esses falsos limites. A pesquisa de repertório é séria (as faixas têm suas origens esmiuçadas no encarte), as vozes femininas afinadas ea percussão desempenham com fervoro ritual. Mas a presença de eventuais baixo elétrico, bateria e até guitarra metaleira em músicas como a faixa-título (onde se explora a proximidade entre o ritmo nordestino baianal e o funk americano) e "O Marco Marciano" (Lenine) dá um toque bastante saboroso e informal.

Alex Antunes"

No mais, agradecemos aos editores da Rolling Stone, ao crítico Alex Antunes e ao repórter André Maleronka por mais esta conquista. Muito obrigado!!

Sunday, September 09, 2007

Perdão, Abaluaiê!!

O Maestro Valdemar Henrique
Semana passada minha esposa chega até mim com um pacote e diz: “O que eu faço com isto??? Achei na casa do meu pai.”

Esclarecendo: o pai dela era Júlio Lerner, um dos maiores jornalistas que o Brasil já conheceu, ou que provavelmente jamais conhecerá. Só prá ficarmos na área musical, o homem foi o principal responsável pelo ressurgimento do choro, quando este estava praticamente esquecido no Brasil, nos anos 70/80. Além delançar gente como Fagner, Ednardo, Marina e Inezita Barroso.

Bem, prá encurtar a história, abri o pacote e em minhas mãos impuras ali estava, incólume um dos maiores tesouros da música brasileira e da música umbandista: a partitura do clássico “Abaluaiê” de Waldemar Henrique. Não preciso dizer que quase caí prá trás... sentei-me no chão para apreciar de perto, como um mapa do tesouro, com todo cuidado, o esmero, a dedicação e a responsabilidade artística com que o músico escreveu as notas no papel já amarelado. A partitura deve ter sido usada no programa de Inezita – há seu nome escrito numa das folhas - e daí chegou às mãos de Júlio...

Ah, e só de troco, atrás de uma das partituras está a introdução de outro clássico da música umbandista: “Funeral de um Rei Nagô”, de Hekel Tavares!!

...e agora dividimos com vocês mais este tesouro resgatado pelo ACERVO FTU!!!


A partitura é escrita para orquestra em vários instrumentos:

Piano, Violinos, Viola, Cello, Contrabaixo, Pistões, Flauta, Saxes, Trombone e Bateria.
Por ser extensa, colocarei aqui alguns exemplos, para apreciação...


Capa da partitura

Uma das páginas da partitura para o piano


Uma das páginas da partitura do maestro, onde constam indicações para todos os instrumentos.

Waldemar Henrique da Costa Martins (Belém, 15 de Fevereiro de 1905 - Belém, 29 de março de 1995), foi pianista, escritor e compositor paraense.

Waldemar Henrique, filho de um descendente de portugueses e de uma índia. Depois de perder a mãe muito cedo, foi com o pai para Portugal, retornando ao Brasil em 1918. A partir de então viajou pelo interior da Amazônia, época em que travou contato com os elementos da cultura e do folclore amozônicos que seriam mais tarde característicos de sua obra musical. A primeira música de susseso de Waldemar Henrique foi "Minha Terra", composta em 1923. Em 1929 estudou no conservatório Carlos Gomes, pelo fato de sua família ser contra, seu pai insistiu para que ele se desviasse de sua vocação empregando-o num banco. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1933, onde estudou piano, composição, orquestração e regência. Suas obras têm principalmente como tema o folclore amazônico, indígena, nordestino e afro-brasileiro.



Para ouvir "Perdão Abaluaê", com Jorge Fernandes (1949), cliquq abaixo:

Sunday, June 10, 2007

Mães de santo. Mães do samba.

Tia Ciata e Tia Josefa


Na música popular brasileira, a música de terreiro sempre esteve presente na sua origem, sob a figura de pessoas importantíssimas para a verdade de nossa identidade como povo nos dias de hoje. Embora haja uma despreocupação em se resgatar e mais do que isso, em se admitir a importantíssima porcentagem na formação da estrutura harmônico/rítmico/melódica do cancioneiro popular como oriundo dos terreiros, o passado não pode ser mudado, sequer extinguido. Assim, lembremos das "Tias" que deram origem ao samba - e suas derivações, quase esquecidas nos livros, mas sempre lembradas no lamento do atabaque, do surdo e do pandeiro...

No contexto do qual resultou a fixação do samba no Rio de Janeiro nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do século XX, a presença das chamadas "tias" baianas foi da maior importância, sob qualquer ângulo que se estude a questão.

Como guardiãs da cultura popular que elas mesmas transportaram de Salvador para o Rio de Janeiro e como transmissoras dessa mesma cultura para seus descendentes e para os que delas se aproximaram na nova terra;

Como sacerdotisas de cultos e ritos herdados de ancestrais e legados ao futuro;

Como festeiras eméritas, mestras na arte do samba, versadoras, improvisadoras, cantadeiras, passistas e mesmo como cozinheiras absolutas, mantendo por dias os fogões acesos e os quitutes quentinhos para os que vinham "brincar o samba" em seus casarões em festanças que chegavam a durar uma semana.

Tia Bebiana, Tia Preseiliana de Santo Amaro, Tia Veridiana, Tia Josefa Rica eram assim também e tantas outras mais. Porém ao ser focalizada a história do samba, o nome que aparece com mais destaque, citado nas entrevistas dos contemporâneos como João da Baiana, Pixinguinha, Donga, entre outros e por todos os historiadores, é o de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata para a maioria, Tia Asseata para alguns.

Casada com João Batista da Silva, um negro também baiano que havia cursado - sem concluir - medicina em Salvador e ocupava bons empregos no Rio, por conta de seu preparo, Ciata reinava absoluta no casarão da rua Visconde de Itaúna onde segundo Pixinguinha "tocava-se choro na sala e samba no quintal". Tal divisão era explicada pelo fato de ser o choro tolerado pela polícia, enquanto o samba era considerado coisa de marginais e perseguido. Como a posição social dos donos da casa estava acima do habitual, gozando de certo prestígio perante as autoridades, usava-se o disfarce do choro na sala da frente e sambava-se à vontade no quintal sem que a polícia batesse à porta.

Mãe-de-santo afamada, Tia Ciata festejava seus orixás, sendo famosas suas festas de São Cosme e Damião e de sua Oxum, Nossa Senhora da Conceição. Nas festas profanas suas habilidades de partideira a destacavam nas rodas de partido-alto, e seu neto Bucy Moreira aprendeu com ela o segredo do "miudinho", uma forma de sambar de pés juntos que exige destreza e elegância, no qual Ciata era mestra.

Pixinguinha, Donga e João da Baiana: influência total da música de terreiro.

Além de cozinheira perfeita, a baiana tinha mão abençoada para doces, no testemunhar de quantos os saborearam. Vestida de baiana, também os comercializava pelas ruas do Rio de Janeiro e com tino comercial alugava roupas de baiana para outras vendedoras, chegando a manter uma equipe só sua de ambulantes nas ruas.

Já viúva, reverenciada como rainha (no Carnaval os ranchos desfilavam sob sua janela), figura exponencial da Festa da Penha, faleceu em 1924 cercada do respeito de pessoas de todas as camadas sociais da cidade.

Friday, June 08, 2007

Alaiandê Xirê - 2006


Gravações realizadas no terreiro Mansu Banduquenqué, o Bate-Folha, em Salvador-BA, em dezembro de 2006. Foram gravados vários templos do Brasil e de Salvador que lá se apresentaram, tais como o próprio Bate-Folha, Axé Opó Afonjá, Casa Branca, terreiros do Maranhão, o Tumba-Junçara, Alabês FTU e Alabês de Pai Tauá.
Fotos: Vivian Lerner.

Alabê da Casa Branca

Há oito anos que os tambores batem forte num espaço dedicado especialmente a eles. O Alaiandê Xirê foi criado por um grupo de membros do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, que sediou todas as edições do evento até o ano de 2005. Sua intenção é permitir o entrosamento de músicos especializados nas diversas nações culturais procedentes da África na diáspora brasileira, que vêm contribuindo na formação da música popular.



Cléo Martins e Roberval Marinho, criadores do evento


O ALAIANDÊ XIRÊ - Festival Internacional de Alabês, Xicarangomas e Runtós reúne os melhores músicos sacerdotes: cantores e tocadores de atabaques da Bahia, do Brasil e, também, de diferentes regiões do exterior. As exibições de alguns virtuoses do universo cultural dos Orixás, Voduns e Inquices atraem centenas de pessoas de múltiplos interesses que vêm participar do ALAIANDÊ XIRÊ - já reconhecido e sedimentado na cidade do Salvador, no Brasil e alguns paises da diáspora africana.





Congá principal de Bate Folha - parte superior





Congá principal do Bate-Folha - Parte interna


A partir de 2006, o festival tornou-se itinerante. A decisão de mudar a sede do encontro foi resultado da necessidade de ampliar sua abrangência. O terreiro Mansu Banduquenqué, conhecido como Bate-Folha, foi escolhido, sobretudo, por conta da amizade entre o fundador do Bate Folha, Pai Ampumandezu (Manuel Bernardino da Paixão) e mãe Iani, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. "A escolha do terreiro Bate-Folha, além de casar com os seus 90 anos de existência, tem este aspecto mais que simbólico como se fosse a celebração desta amizade entre os dois", afirma a escritora e uma das fundadoras do Alaiandê Xirê, Cléo Martins, também apresentadora do festival, por sinal, excelente, conduzindo o evento com maestria, simpatia e profissionalismo exemplares.



Data de fundação do Bate Folha - Entrada do templo.




Tata Ampumandezu - fundador do Bate Folha


Neste ano (2007), provavelmente a sede do Alaiandê será no Ilê Axé Iya Nassô Oká, a Casa Branca do Engenho Velho, um dos mais antigos templos do Brasil, Com a abertura – no dia 01/12/2006 - da nona edição do Festival Alaiandê Xirê, o tradicional Terreiro do Bate-Folha, na Mata Escura, transformou-se, no ponto de encontro dos sacerdotes músicos das três nações de candomblé, queto, angola e jeje e também da umbanda, pois no ano de 2006 ela foi representada pela primeira vez com a presença da FTU.


Tata Mulandurê, atual mestre do Bate-Folha


O evento, que tem o objetivo de congregar as diversas religiões de matriz afro-brasileira, reúne, de maneira festiva, os mestres tocadores dos ritmos africanos - alabês (queto), xicarangomas (congo/angola) e runtós (jeje). Além do caratér musical, o Alaiandê Xirê, que pela primeira vez acontece em um terreiro que não o Ilê Axé Opô Afonjá (em São Gonçalo do Retiro), também reuniu pesquisadores de temas ligados aos cultos afro-brasileiros. O festival foi aberto com a exposição Fogo que fica, da artista plástica Suzana Duarte, que homenageia os inquices, as divindades da natureza cultuadas pelo povo de candomblé angola. O maestro Fred Dantas iniciou o evento com sua banda marcial, executando músicas com temáticas de terreiro.



Maestro Fred Dantas e bandinha Alaiandê

Na abertura, foram saudados os Nkices com os Xicarangomas do Bate Folha, principalmente Bamburucena e Kitembo, os patronos da casa. A seguir foram saudados os Orixás com os alabês do Axé Opô Afonjá, que entoaram cantigas de permissão para o bom andamento do evento.


Xicarangomas do Bate-fôlha. Em especial este senhor: o Xicarangoma Dedé! Surpreendente. Toca com suavidade e sensibilidade, reconhecendo o tambor como um sagrado ser vivo. Canta maravilhosamente, às raias da emoção. História viva!!

A atriz Chica Xavier deu um depoimento a respeito da história do evento. "Para mim, é sempre uma honra participar deste evento, que antes de tudo significa uma celebração entre os povos de candomblé. Acho que este ano ele ganha mais significado com a sua realização num terreiro histórico como o Bate-Folha" Ao saber da presença da FTU no evento, declarou-se umbandista: “Sou umbandista!! E é de extrema importância o surgimento de uma Faculdade para o povo do santo”, afirmou a atriz. Ao final, ocorreu a apresentação da banda Canjerê de Sinhá.


A atriz Chica Xavier e marido


Alaiandê Xirê significa, em língua iorubá, "festa do mestre tocador". Alaiandê serve também como epíteto do orixá Xangô, que rege o evento. De acordo com a mitologia da religião dos orixás, Xangô é o mestre tocador, o maior dentre todos os tocadores e dançarinos de batá, um toque ritual em sua homenagem – Batá ainda é na África e em Cuba, o nome de um tambor consagrado a este orixá. Segundo alguns mitos, Ayom, o orixá do tambor era filho de Xangô e Oyá.


Obashanan e Mameto Guanguacessy


Membro do terreiro Alaketu, Florivaldo Cajé coordenou a primeira mesa-redonda do dia 02/12/2006: “Bate-Folha, o Mansu Banduquenqué: 90 anos de resistência”. "A intenção da mesa-redonda é discutir e redimensionar a importância histórica do terreiro do Bate-Folha, que é um dos mais tradicionais da Bahia", afirmou Cajé.




Este é um verdadeiro Mestre tocador de Rwm. É o Alabê Edvaldo, da Casa Branca do Engenho Velho. Esse homem é um absurdo, toca muito, com seriedade, respeito e devoção ao seu instrumento!! Um dos melhores que já vi! Quem está com Edvaldo no fundo é Ogã Guelê do Axé Opô Afonjá.

Não podemos deixar de registrar a presença do professor Ângelo Mário do Prado Pessanha, o pai Alayedã, que em sua preleção colocou com maestria muitos pontos importantes para a religiosidade brasileiraLogo após, houve a exibição das delegações de alabês, xicarangomas e runtós. Além dos grupos dos terreiros de Salvador, como a Casa Branca, houve a presença de outros vindos do Rio de Janeiro, de Recife e de São Paulo. Foi aberto o espaço para a Umbanda, onde Obashanan apresentou alguns toques e pontos cantados e discursou sobre a FTU e o CONUB como de importância histórica e fundamental para todo o povo do santo. Além da FTU também esteve presente o templo umbandista do Vale do Sol e da Luz, do pai Luís.



Obashanan representando a Umbanda

A confraternização maior aconteceu quando foram entoados pontos louvando-se os Caboclos – o Orixá do Brasil, segundo as autoridades das diversas nações presentes ao evento. Carregando a bandeira do Brasil, todos, unidos, cantaram emocionados para esta entidade que é unanimidade em qualquer templo, mostrando que o astral está em todo e qualquer terreiro através desses nossos mestres da Umbanda.

A bandeira brasileira...


... sendo carregada por todas as nações quando da louvação aos caboclos.


Xicarangoma Xuxuca, um dos maiores do Brasil


No dia 03 outra mesa-redonda realizou-se cujo tema foi: “a origem dos povos bantos” e uma nova apresentação de delegações apresentou-se à tarde, com especial destaque para Pai Tauá, da raiz Angola, numa apresentação maravilhosa, mostrando um conhecimento absolutos dos cânticos Bantu, com Xicarangomas absolutamente impecáveis, próximos da perfeição e conseqüentemente, da espiritualidade.

Completos... perfeitos... impecáveis! Xicarangomas de Pai Tauá.


Filhas do Bate Folha saudando Inkices ao som dos Xicarangomas de Pai Tauá

Sunday, May 06, 2007

A história da Revista Umbanda – Uma Religião Brasileira – Parte I

Nos idos de 1993, há exatamente 14 anos, dávamos um passo importante dentro de nossa caminhada espiritual: uma série de apostilas onde compilamos assuntos importantes para a corrente mediúnica do terreiro em que freqüentávamos, subitamente transforma-se na primeira revista exclusivamente de Umbanda da história brasileira. Por essa época havíamos deixado de freqüentar o templo em questão e havíamos acabado de colocar nossa vestimenta branca na corrente da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino.

Mestre Arapiaga ao ver as apostilas disse-me: “William, acho que essas anotações podem virar algo muito maior...”. Não havia lhe contado ainda, mas estava com o contrato fechado com a Editora Pen para a publicação do material e havia ido à Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino naquele dia, exatamente para pedir-lhe permissão para publicar alguns itens que havia retirado de suas obras. Na verdade, expliquei-lhe que a idéia da revista era realizar uma ponte onde todas as formas de umbanda pudessem conviver harmoniosamente, encontrando pontos de contato em suas semelhanças. Dez anos mais tarde nosso amigo Marques Rebello retomaria a idéia com a Revista Espiritual de Umbanda.

Contei-lhe então do contrato, e com sua experiência, alertou-me: “você sabe a briga que vai comprar, meu filho?” “Acho que não imagino, meu mestre, mas estamos aqui para trabalhar e obedecer vossa vontade e a vontade do mundo astral.” Respondi.

“Faz o que tem de fazer. É sua missão. Essa revista vai trazer muita gente para a Umbanda, mas o submundo encarnado e desencarnado vai vibrar negativamente para que você se perca no caminho, pois já sabem da existência dela e vão fazer de tudo para que a luz dessa publicação se apague. Mas nada tema. Estou com você e todo o astral também. Vá à luta!”

E assim fomos, convictos da seriedade de nossa tarefa, embora não soubéssemos nem a metade das dificuldades que teríamos. E talvez tenha sido melhor assim, pois a inocência quase sempre nos livra do desânimo e nos faz focar a visão nos objetivos principais. A revista saiu em maio de 1993, depois de uma série de dificuldades, tais como doenças no pessoal da produção, assaltos na editora e até dois incêndios em duas gráficas diferentes!! Uma primeira prensagem de 2000 exemplares só foi possível – haviam previsto uma tiragem inicial de 4000 – porque o Márcio, o editor da Pen era um homem de fibra e lançou a revista tão logo ficou pronta, não quis nem saber quantos exemplares haviam sido prensados. Foi impulsionado pela vontade de ver a coisa acontecer e ela aconteceu: a revista foi um sucesso tão grande que o Márcio mandou prensar logo mais 6000 exemplares. Não houve recolhimento da primeira nem da segunda prensagem, a vendagem ficou em praticamente 100% e desde esse primeiro número, o número experimental, o mercado editorial e as “majors” da imprensa da época cresceram o olho no produto e começaram a se preparar para explorarem o filão.

E nisto a revista Umbanda – Uma Religião Brasileira (em seu número "0" trazendo o nome "Introdução à Umbanda") foi também pioneira, pois ninguém, até aquela época havia se arriscado a publicar alguma coisa, nem um folhetim em distribuição nacional, que falasse de Umbanda, Macumba, Candomblé ou religiões brasileiras, pois o preconceito era gigantesco e o público umbandista muito mais acanhado do que atualmente. Aquela era uma época simples, em que as revistas não possuíam a sofisticação gráfica e tecnológica de hoje. Foi lançada em preto e branco, com ilustrações no lugar de fotos, mas agradou tanto que uma outra editora, a Editora Escala – hoje uma das maiores editoras do Brasil - nos procurou com uma proposta mais abrangente em termos de distribuição e qualidade técnica. Como o Márcio iria mudar de ramo e fechar a Pen, nos transferimos para a Escala, onde entramos numa nova fase, de muitas lutas, físicas e astrais, onde finalmente percebi o que um iniciado umbandista enfrentava nos bastidores do terreiro...

Saturday, March 03, 2007

A Umbanda sem segredos

Em 1968, a revista Enciclopédia publicou uma matéria de 14 páginas da jornalista Zora A. O. Seljan, "Os deuses que vieram da África". Um irmão nos mostrou a revista e ao lermos a reportagem, ficamos supresos como em outros tempos a umbanda era muito mais compreendida do que hoje. A matéria, muito boa, mostra, talvez pela primeira vez a unidade da umbanda enquanto religião brasileira, unindo em seus vários braços de manifestação os Candomblés, Catimbós e outras manifestações da religiosidade brasileira, além do que a matéria em momento algum é tendenciosa ou irônica, tratando o fenômeno umbandista com a seriedade e importância que o tema merece. Abaixo, a matéria, página à página.