O Acervo do Templo da Estrela Verde foi criado como resgate das tradições musicais dos templos brasileiros,conhecidos como Umbandas,Encantarias e Nações. Inclui a recuperação de fonogramas antigos, que são salvos em arquivos digitais e o registro de todo tipo de manifestação musical desta origem. Aqui postamos comentários e exemplos dos discos já catalogados. Contatos: obashanan2@yahoo.com.br
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Disco raríssimo, registra o culto Egun como era realizado no antigo Daomé. Podemos ouvir os instrumentos dos Alayans, Dunduns e Batás (no verdadeiro fundamento, Alabês e Ojès possuem uma importante e inseparável conexão espiritual e ritualística, sacralizada nas varas rituais). Na faixa apresentada abaixo, podemos escutar o diálogo entre o Ojè e o Ancestral materializado nas roupas e máscaras sagradas.
Por falar nisso, lembrem-se: jamais toquem em um Egun!!
1-Vim da África (Alafin Oyó); 2-Alafin eu sou (Alafin oyó); 3-Capital Yorubá (alafin oyó); 4-Obá-Omi (Alafin Oyó); 5-Gexá (Ylê de egbá); 6-Sublime egbá (Ylê de egbá); 7-negra Nagô (Ylê de Egbá); 8-Agê-Re-Okê (Ylê de egbá); 9-Nossa Riqueza (Filhos d´Ogundê); 10-Vem meu povo (Filhos d´Ogundê); 11-Axé de Oceano (Filhos d´Ogundê); 12-Louvação para Yemanjá (Filhos d´Ogundê);
O que é um Afoxé?
Pesquisando o Dicionário Yorubá (Nagô)/Português, de Eduardo Fonseca Júnior, o estudioso não encontrará a palavra Afoxé, mas Afòsé. Tal palavra (é um substantivo) africana e em português tem a seguinte tradução: “dança ritual de encomendação das almas dos mortos” (pág. 13). Logo, provavelmente, em sua origem, o Afoxé seria um tipo de Cortejo Africano, com destaque na dança, que apresenta o morto aos cuidados de um mundo que não é o material.
Afoxé em Pernambuco
Por volta do final da década de 1970, negros participantes e ligados ao atual MNU, na cidade do Recife, iniciaram rodas de conversas para a organização de um repasse sensível de conscientização para a comunidade negra daquele momento histórico. A Arte, a Cultura, são meios de comunicação de forte impacto, que atingem o ser humano em sua ótica de percepção crítica e sentimental. Logo, o viés articulado por tais negros foi a criação (ou recriação) do Afoxé Pernambucano. Assim nasceu o Ilê de África, o Axé Nagô... E surgiu o Ara Odé (de Seu Raminho de Oxóssi) em Olinda. Desse último, da Ala de Xangô, saiu a Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó.
Contudo, o Afoxé em PE é um bem cultural que possui como principais funções o vivenciar e preservar a Cultura Negra, como uma forma de possibilidade de conscientização negra da sociedade. Todavia, esse tipo de Cortejo possui um forte vínculo com o Candomblé, não compreendendo apenas o cultural, mas a junção entre Arte e Religiosidade.
O Afoxé, longe de ser, como muita gente imagina, apenas um bloco carnavalesco, tem profunda vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de Candomblé. Vem daí o fato de chamar-se o afoxé, muitas vezes, de "Candomblé de rua". Inclusive por homenagear um orixá, geralmente, o orixá da casa de candomblé a que pertence. Em Pernambuco, o afoxé ressurge com o Movimento Negro Unificado no final da década de 70, como uma das formas de se fazer chegar à maioria da população, o debate sobre consciência negra e liberdade, através da música. Esse álbum conta com a presença de 3 grupos de afoxé: Afoxé Alafin Oyó, Ylê de Egbá e Filhos de Ogundê.
Paula Guedes: vocais; Thiago Nagô: vocais, atabaque, moringa; André Mulatinho: atabaque, agogô, abê; João Juquinha: atabaque, rum, tantã; Fabiano: atabaque, abê; Dito d'Oxóssi: voz, rum, pi, berimbau; Nouga do Axé: alfaia, lé; Karina Buhr: agogô, abê; Leandro: voz; Liliane: backing-vocals e abê; Cristine: backing-vocals e abê; Reginho: tantã; Alixandre: agogô, conga, tantã, timba; Diêgo: agogô; Flávio: conga, agogô; Binho: atabaque;
Alafin Oyó
Fundada em 02 de março de 1986 tem por principal objetivo repassar e preservar a Cultura Tradicional Pernambucana; em especial, a Cultura Negra. Ela é uma reverência a ancestralidade oyó. Trajas-se à moda africana – como a estética de todo Cortejo de Afoxé – e é responsável por um dos maiores repertórios de Afoxé do Estado de Pernambuco. A entidade se configura como um dos maiores expoentes da Cultura Negra local e em 2004 foi oficializada como um Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura; ou seja, um dos pontos (entidades) que perpetuam a identidade do povo brasileiro. Segundo Lepê Correa, e toda a trajetória da entidade, até os dias de hoje ela se mostra, em toda sua riqueza de valores, da seguinte forma: Oni ê ê Omo Afonjá Pela benção de Oxalá Alafin eu sou Ouvi o agogô no repique Ao som de atabaques Tocando ijexá Eu me animei e disse é agora Minha preta está na hora O Alafin já vem São muitos negros De encarnado e branco Pelas ruas de Olinda Vem para mais de cem É a cultura Que vem descendo a ladeira Despertou lá na Ribeira Pela força de Xangô
Para ouvir a faixa 01, "Vim da África" com o Alafin Oyó, clique abaixo:
Ile de egba
Fundada em 17 de agosto de 1986 no bairro Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife, a Entidade de Cultura Negra Afoxé Ylê de Egbá é oriunda do centro de Candomblé Ilê-Axé Ayra Dôcy, tendo como presidente da agremiação Expedito de Paula Neves (Babalaô), mais conhecido como Dito D'Oxossi. O Ylê de Egbá é formado por vários segmentos que cuidam de sua organização, entre eles o Afoxé, grupo de ritmistas, cantores e compositores responsável pela parte musical da entidade. O Afoxé mescla o toque do "Ijexá" (ritmo afro) a vários outros ritmos das nações yorubás que vieram para o Brasil, resultando arranjos e músicas com interessantes variações rítmicas, dando um "toque" singular à batida do grupo através de xequerês, atabaques, ganzás e agogôs, entre outros instrumentos específicos dessas nações negras.A entidade também desenvolve várias atividades comunitárias, educacionais e de preservação da cultura negra, participando de eventos como o "IV Congresso Afro-brasileiro" ou da "Campanha dos 300 Anos de Zumbi dos Palmares".
Para ouvir a faixa 6, "Sublime Egbá" com Ylê de Egbá, clique abaixo:
Filhos D'Ogundê
Para ouvir a faixa 11, "Axé de Oceano" dos Filhos d´Ogundê, clique abaixo:
01.Abá Cuna Zambi Pala Oso (Pedrinha de Lourdes Santos); 02.Nêgo véio / Ela que mandou (Hélio Evangelista do Carmo); 03.1888 (Domínio Público); 04.Beija-fulô/ ai, pavão...Quando Deus andou pro mundo (Domínio público); 05.Ô, minha mãe / Meu coração está doendo(José Manoel)/ ( Maria das Graças de Morais, Celso Dimas Pinto,Francisco Machado da Silva)06.Tamborim / Balaim de fulo/ Vamos coroar (Domínio Público); 07.Toque de Catupé (Lázaro da Silva); 08.Vilão de Nossa Senhora do Rosário; 09.Vilão de Santa Efigênia; 10.A volta do mundo/ Dói coração / Chorei chorar (Domínio Público); 11.Mariazinha (domínio público adp. Pedro Aponízio dos Santos); 12.Ê, princesa/ Beira –mar-ô (Valdemir de Souza); 13.Ê, minha mãe / Virgem mãe das Mercês / Eu sou de voto / Venha ver (Antônio Eustaquio dos Santos); 14.Engoma / Olé-Oleleô/ Taquaia; 15.Na (Sebastião Pinto de Souza ,d.p. adapt);
Grupos que participam do disco:
Lado A: 01 – Moçambique de Nsra das Mercês; 02 – Moçambique de São Benedito; 03 – Catupé de Nsra do Rosário; 04 – Catupé de São Benedito; 05 – Moçambique de Santa Efigênia, Catupé de Nsra das Mercês; 06 – Moçambique de Santa Efigênia, Catupés de Nsra do Rosário e Santa Efigênia; 07 – Catupé de São Benedito;
Lado B: 01 – Moçambique de Nsra Das Mercês; 02 – Vilão de Nsra. Aparecidade; 03 – Catupé de N.Sra. do Rosário (Bairro da Graça); 04 – Catupé de N.sra. do Rosário (Rua da Preguiça); 05 – Moçambique de N.Sra. Aparecida; 06 – Vilão de N.Sra. do Rosário; 07 – Moçambique de N.Sra. do Rosário;
Este disco foi gravado entre setembro de 1986 e setembro de 1987 nas ruas de Oliveira/MG durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário.
A música e a cultura Bantu ainda hoje permanecem um mistérios para nossa gente, quer seja pelas inúmeras nações que aqui aportaram, com suas variadíssimas manifestações de religiosidade, quer seja pela presença portuguesa que já era forte em terras de Angola/Congo desde o século 16. Desde que os portugueses chegaram ao Golfo da Guiné, o cristianismo entrou lá e pegou. Em 1533, foi criada a diocese de Cabo Verde e Guiné. Outra diocese fundada no reino do Congo já celebrou os seus 400 anos de existência, assim, muitos escravos bantos do Brasil já eram cristãos na África. Assim, muitos povos Bantu já chegaram ao Brasil catequizados, ou trouxeram suas manifestações religiosas e culturais já sincretizadas com os sistemas católicos e/ou mesmo muçulmanos e judaicos, expressos fortemente no Congado Mineiro, essa manifestação que já existia em Portugal - celebrada pelos negros - antes mesmo da descoberta do Brasil.
No Golfo da Guiné, a recepção do cristianismo não foi passiva. No reino do Congo, surgiram algumas manifestações afro-católicas. A jovem Beatrice Kimpa Vita liderava um movimento de Sto. Antônio, que africanizava o cristianismo, procurando fazer retroceder, de forma inteligente, a dominação religiosa. Ela encarnava Santo Antônio e disse que Jesus e muitos santos nasceram no Congo. Beatrice foi condenada pela inquisição e morreu na fogueira, em 1706. Curiosamente, no Brasil, encontramos Luiza Pinta, escrava de Angola e devota de Santo Antônio em Sabará (MG), que foi torturada pela inquisição, em Lisboa no ano de 1742. Quem sabe, a Luiza tenha pertencido ao movimento da Beatriz? E quem sabe, o sincretismo de Santo Antônio com as divindades guardiãs (os Njilas, Baras e Exus), não tenha se iniciado já na África e não no Brasil, assim como outras divindades Jeje e Yorubás?
Em 1526, já havia na ilha de São Tomé a irmandade dos "Homens Pretos". Outras irmandades do Rosário existem no Congo, na Angola e em Moçambique, desde o séc.XVII. Antes de 1552, já existia no Brasil uma irmandade para os escravos da Guiné, segundo Frei Odulfo van der Vat e outros historiadores. Em 1610, o rei do Congo entrou na irmandade do rosário fundada por Fr. Lourenço O.P., em Mbanza, capital do Reino do Congo. Assim, as irmandades do rosário surgidas no Brasil, não vieram só da Europa, mas também da África. Provavelmente, houve escravos africanos que já vieram para cá como irmãos do rosário.
E como Nossa Senhora do Rosário entrou na devoção dos negros, em Portugal, na África e no Brasil? Uma lenda contada em todas as irmandades coloca a Senhora do Rosário como sendo a origem do congado (assim, há que se verificar as origens de cultos no Brasil, tais como o Omolokô, que têm relação profunda com as festas do Congado Mineiro). A irmandade do rosário (dos brancos) fundada na Alemanha em 1409, chegou a Lisboa em 1478. A mais antiga menção a uma “Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos” encontramos em 14 de julho de 1496, portanto quatro anos antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Esta informação consta num alvará dado à dita confraria, sita no mosteiro de S. Domingos de Lisboa, "para poderem dar círios e recolher as esmolas nas caravelas que vão à Mina e aos rios da Guiné". Para quem gosta de comprovações acadêmicas, encontra-se este importante documento no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa: Confirmações Gerais, L.2 fls.107v.-108.
Chegando aqui, os Lunda, Kassange, Kongos, Angolas, Moçambique e tantos outros, ao se relacionarem com seus aparentados sudaneses fizeram uma nova conexão cultural, que resultou nas várias formas de culto e musicalidade que vemos hoje no país.
Um exemplo disso é a faica de abertura do disco, onde se ouve na voz de dona Lourdes, um dialeto curioso, onde a mistura de Yorubá, Umbundo além de palavras em Tupi e Português resulta numa sonoridade suave e tão brasileira que dá gosto de ouvir. Os tambores são executados em células simples, mas com um peso hipnótico, sendo tocados por horas a fio, talvez lembrança das festas intermináveis dos povos Lunhaneka e Kikongo.
Para ouvir a faixa 01, "Abá Cuna Zambi Pala Oso", clique abaixo:
Sons e Vozes do Brasil - AFOXÉ FILHOS DE GHANDI - 2006 - CD - Atração
01.Cântico para Exú; 02. Hino de Saudação: Cântico de Ogum; 03.Cântico de Elevação; 04.Cântico de Elevação II e III; 05.Romaria de Gandhi (Dia de Romaria): Cânticos de elevação IV e V; 05.Cântico de Elevação VI: Cântico de Descanso; 06.Cântico de Despedida;
Em 1948 os estivadores eram tidos como privilegiados, dadas às condições econômicas da época que lhes favorecia e ao fato de não terem patrões. O trabalho era fiscalizado pelo próprio sindicato dos estivadores, o que lhes conferia um certo status. Data desse ano a fundação do bloco "Comendo Coentro", composto de um caminhão em que se instalaram vários instrumentos musicais, seguido dos estivadores, trajados finamente com o que de mais elegante existia: roupas de linho importado, chapéus "Panamá" e sapatos "Scamatchia".
A festa era regada a muita comida e bebida e os estivadores chegavam a alugar barracas para a farra carnavalesca. Em 1949 com a política de arrocho salarial, numa verdadeira economia de pós-guerra, o Governo Federal interviu nos sindicatos, inclusive no sindicato dos estivadores, o que fez decair a renda dos sindicalizados. O "Comendo Coentro" não pode sair às ruas devido à crise financeira que se abateu sobre os estivadores e porque eles não queriam desfilar em condições inferiores as do ano anterior. Surgiu, então, a idéia de levar um "cordão", ou bloco de carnaval, idealizado por Durval Marques da Silva, o "Vava Madeira", com o apoio dos demais estivadores arrecadaram dinheiro e foram às compras, adquirindo lençóis para serem utilizados na confecção dos trajes, barris de mate e couro, com os quais construíram os tambores utilizados no acompanhamento do cortejo. O nome do bloco foi sugerido por "Vava Madeira", inspirado na vida do líder pacifista Mohandas Karamchand Gandhi, trocando-se, entretanto, a letra "i" por "y", com a intenção de evitar possíveis represálias pelo uso do nome de uma importante figura do cenário mundial. Batizou-se então o bloco com o nome "Filhos de Gandhy".
Ouve-se aqui a mais característica derivação do ritmo Ijexá (um dos ritmos sagrados dos cultos afro-brasileiros) na música popular: o Afoxé. Interessante reparar na afinação dos agogôs e gans que fazem uma combinação harmônica que dá a base para os cânticos e os clarins. Embora o disco não consiga captar a força do afoxé ao vivo (dificilmente se consegue captar o poder da percussão em estúdio), ainda assim o cd é muito bom, um ótimo registro de uma de nossas mais importantes tradições de raiz e ancestralidade.
Para ouvir a faixa 01, "Cântico de Exu", clique abaixo:
Afrique Vol. 1 - Collection du musée de l'homme - VOGUE - LP - 1952
01.Acclamation des femmes; 02.Acclamations des femmes & Tambour Ogbon; 03.Chants des Mariwo; 04.Choeurs et tambours Ogbon; 04.Discours du Revenant et Choeurs des Mariwo; 05.Iwi Engungun; 06.Souhaits des revenants;
Em 1952, Pierre Verger, o famoso Babalawô, fotógrafo e ethnologista, realizou algumas das mais famosas fotos dos Eguns em terra, pois fotografar os Eguns é proibido. Egun é uma máscara, um ancestral divinizado que volta à terra através de rituais onde são invocadas as forças essenciais do morto para que sua força animal preencha as roupas sagradas de que le se serve para atuar novamente no mundo. Pierre Verger realizou este trabalho em parceria com Gilbert Rouget, o grande Etnomusicologista que trabalhou durante um longo período em Benim.
Este disco é raríssimo. Tão raro que até dói o osso ilíaco!! Existem apenas umas 50 cópias dele no mundo inteiro (se é que ainda existem, pois a gravadora o lançou apenas por causa do trabalho de Verger, mas não acreditava que o produto fosse vender), o que leva os colecionadores a se estapearem quando descobrem algumas delas. Eu mesmo dei umas bofetadas em uns três prá conseguir esse. As gravações foram feitas em um gravador de rolo, em condições absolutamente livres de qualquer acústica, no ambiente natural do templo do Benin.
Há o ritmo maravilhoso do tambor Ogbon, os tambores dos Alabês/Babalawôs da sociedade Oshogboni e o os cânticos de invocação das mulheres e dos homens e o cântico de Mariwô, a palha sagrada de Xapanã e Ogum, os senhores da morte, simbolizando a cortina disposta no chão, na forma de esteira, que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
E, finalmente, a última faixa, Souhaits des revenants, onde podemos ouvir a raríssima voz do próprio Egun em terra, organizando a comunidade com seus conselhos e orientações.
Para ouvir a faixa "Souhait des Revenants", a voz do Egun, clique abaixo:
Só para ilustrar, um culto a Baba Egun na África, do "Povo "Zangbeto" os Guardiões da Noite, um Culto Ancestral, patriarcal beninense.
Aqui, um emocionante registro de um Baba Egun, filmado em Lauro de Freitas/Bahia no Ase Opo Aganju, onde o Bàbálàwòrìsà é Obaray (Balbino Daniel de Paula), filho de Alapini Pedro... reparem na alegria do pessoal ao receber seu ancestral, por sinal muito simpático e amoroso!!!
CEGO OLIVEIRA - Rabeca e Cantoria - 1988 - Reedição - CD - 1999 - Cariri Discos
Disco 1 - Lado A - Asa branca; 2-Leva eu Corina; 3-Maria José; 4-Sereno de amor; 5-Morena bota a barca n’água; 6-São José também chorou; Lado B - 1 - Choro da cabritinha; 2-Ai, Lampião, cadê tua muié?; 3-Minha rabequinha; 4-Bendito de N. S, das Dores; 5-A revolta de São Paulo; 6-Despedida de reisado;
Disco 2 - Lado A - 1-Acorda Maria acorda; 2-Lampião; 3-Bendito de N. S. das Candeias; 4-Bendito de N. S. do Socorro; 5-Essas mocinhas de hoje; Lado B - 1-Severina; 2-Águas caririzeiras; 3-Arraiá; 4-Anunciada; 5-Zebelê; 6-Adeus pessoal; No cd é acrescida "Na porta dos Cabarés"
Compositor. Instrumentista. Tocador de rabeca. Cantador. Uma lenda da música brasileira!
Cego Oliveira não era exatamente cego, mas portador da visão subnormal. Ao registrar o mundo ocorriam-lhe alterações oculares que produziam interferências na sua maneira de olhar. Uma outra visão de mundo. Em geral, via mais longe com sua criatividade do que os que olham apenas por suspeita.
Natural do Juazeiro do Norte, no Ceará, em 1929 teve o primeiro contato com a rabeca, ao receber de um tio um desses instrumentos (lembrando que nossa Rabeca pouco tem a ver com o Violino europeu. É, antes, um instrumento de origem árabe/judaica - o Nefer, ou Rebab árabe -, cruzado com as Maracás de nossos índios - Maracás eram o nome dado não só aos chocalhos, mas aos violões e violinos Tupis-Guaranis).
Foi um representante de um estilo musical pouco conhecido e em vias de extinção: o romance. Os romances remontam à Europa medieval, e contam histórias - por vezes bastante longas- em forma de versos com estrofes e rimas intrincadas. Oliveira declarou já ter possuído um repertório de nada menos que 75 "rumances", dentre os quais o famoso "Romance do Pavão Misterioso" e "A verdadeira história de João de Calais".
Tal qual um menestrel Ibérico, percorria praças e feiras desfiando sua cantoria e ponteando sua rabeca a troco de moedas e dinheiro miúdo dos ouvintes, em sua maioria, gente humilde do sertão do Ceará, cuja única diversão era ouvir velhos cantadores.
A popularização do rádio foi aos poucos acabando com o espaço de Oliveira e outros vates da época, que passaram a sobreviver tocando em velórios, batizados ou aniversários. Em 1975, Cego Oliveira foi filmado pela diretora Tânia Quaresma no documentário "Nordeste: Cordel, Repente e Canção" (que vocês podem assistir abaixo). É interessante notar a posição com que toca sua rabeca, apoiada sobre os ombros, e o fraseado simples, utilizando os harmônicos naturais das cordas. Observe também a influência da cantoria de viola, onde o cantador para de tocar o instrumento enquanto canta, fazendo-se acompanhar de marcação rítmica batucada no próprio corpo do instrumento.
Aprendeu a tocar por conta própria e a decorar os versos das cantorias com a ajuda de um irmão quer lia para ele os versos dos romances. Aprendeu a viver duramente como muitos de nossos heróis que insistimos em não ver - cegos as avessas que somos com nossa cultura (só vemos o que desejamos) -, pois estes se apresentam com a roupa rota, com os pés e as mãos calejados e o olhar triste de séculos de opressão e agonia. São uma amostra clara do Brasil que insistimos em negar e esquecer. Enfim, nos envergonhamos do que nos faz ilustres. O seu jeito de cantar e tocar traz a valência de todo o mistério religioso do nordeste, em especial as litanias católicas em paralelo com os lamentos indígenas. Há muito do aboio, de origem árabe, ecos de um oriente furioso, revelando ao mundo moderno o poder da ancestralidade modal e sua voz é o exemplo fustigante das rezas dos verdadeiros encantados, além dos temas onde morte, sofrimento, alegria e amor se combinam nas doses exatas para o deslumbramento.
Há algo que une cantadores do Brasil como Cego Oliveira aos primitivos Bluesmen americanos como Robert Johnson e Blind Lemon Jefferson (este também cego) além do sentimento de "Banzo" (palavra Quibundo significando tristeza que foi relacionada pelos afro-americanos à palavra inglesa "Blues"), mas apesar disso, há um interesse muito maior dos brasileiros pelo Blues americano do que pelos cantadores de nossa terra, quase sempre desprezados e esquecidos. A verdade é que o público brasileiro não sabe lidar com os valores que possui. Se fosse americano, Cego Oliveira seria conhecido e repeitado no mundo inteiro.
O tocador de rabeca morreu em 1977 com 94 anos, pobre e desconhecido.
Para ouvir a impressionante "Na porta dos Cabarés" Clique abaixo:
O igualmente impressionante e único vídeo de Cego Oliveira, finalzinho de "Na porta dos Cabarés":
AMAZÔNICA – Camerata Cantione Antiqua e Angaatanàmú – CD – Sony – 1997
01.Caramuru; 02.Toada pra Xangô; 03.De deserto a deserto; 04.loa de maracatu:Vovó falou e baque de parada; 05.Baiano; 06. Chegança; 07.Caboclinhos; 08.Caramuru (reprise); 09.Aboio; 10.Aboio Grande;
Um disco interessantíssimo, que reconta – através de partituras recuperadas – como era a música brasileira dos anos 1600, com suas influências bem nítidas e ainda puras: há desde o canto das “Santidades”, onde os índios entoavam loas católicos (uma das bases dos cultos de encantaria), passando pelos primeiros cânticos de Candomblé até uma esquecida, mas importantíssima matriz da música nordestina: a música árabe/judaica. Nessa faixa (faixa 03 - De deserto a deserto) pode-se notar como as duas formas de se fazer música – do oriente médio e do nordeste – estão assustadoramente próximas, acrescidas ainda de um toque de flautim quase barroco à guisa de Ars Nova. Outra faixa importantíssima é a recuperação de um cântico de bruxaria Gêge, onde, num envultamento faz-se a pergunta tenebrosa: “que diabo de casa que não tem buraco pra sair?” O pessoal da pesquisa deste disco – em especial o diretor musical Miguel Kerstman - foi realmente fundo e produziram um dos mais importantes registros de nossa história musical, que, é claro, ninguém conhece, infelizmente... O disco é tão legal e importante, que colocamos logo três faixas para apreciação...
Para ouvir as faixas 02, "Toada prá Xangô", 03, "De deserto a deserto" e 06, "Chegança: Que diabo de casa é essa?", clique abaixo:
1-Maracatu Misterioso; 2-Viver solto Virado; 3-Latina Cigana; 4-Toque Moderno; 5-Mateus embaixador; 6-Coroa Imperial; 7-Pão e Circo; 8-Recife; 9-Folia Geral; 10-Brasindiano; 11-Cambinda Nova; 12-Leão Coroado; 13-águas do MUndo das Águas; 14-Boi Aroeira;
Todo Maracatu possui ligação direta com algum terreiro. Esta é a tradição e sempre surge em algum tema a ser tocado o imaginário das Umbandas, Encantarias e Nações. Surgido em 1989, formado, em sua maioria, por jovens da classe média, o Maracatu Nação Pernambuco tinha como objetivo difundir o ritmo, na época em decadência, e pouco conhecido fora das comunidades onde era praticado. O Nação Pernambuco teve papel importante no reinteresse pelo maracatu em Pernambuco e no resto do país, e também no exterior, pois o Nação Pernambuco tem feito apresentações constantes na Europa. Participante da primeira edição do Abril Pro Rock, em 1993, o grupo ajudou bastante a fazer com que os novos músicos pernambucanos se interessassem pelo maracatu. O grupo já lançou três discos, o primeiro deles Batuque da Nação (1992), e tem participações em diversos outros discos, entre os quais Oceano, de Sérgio Mendes (1997).
Para ouvir a faixa 10, "Brasindiano", clique abaixo:
01.Candomblé de Kêto; 02.Samba de Roda; 03.Capoeira;
Criado em 1962, o Conjunto Folclórico da Bahia nasceu com o objetivo de despertar o interesse de estudantes pela música popular, através de pesquisas e realizações artísticas sem abandonar o aspecto da espontaneidade e autenticidade, tão importantes no folclore. O grupo foi pioneiro no estado da Bahia, supervisionado e orientado pela professora Emília Biancardi Ferreira e era constituído de estudantes de vários estabelecimentos de ensino médio da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. O disco, gravado em mono e captado de modo amador possui problemas sérios de nitidez no que se refere aos timbres dos instrumentos e mesmo à limpeza dos corais. Mas é um belíssimo disco - raríssimo -, e junto ao seu antecessor, resumem bem o contexto da musicalidade baiana na época e mesmo nos dias de hoje. As faixas são únicas, os músicos não dão pausas entre os cânticos e a gravação foi realizada ao vivo e sem cortes no tetro Castro Alves. O Alabê principal, pelo jeito de cantar e tocar, provavelmente é o mestre Vadinho do Gantois, inconfundível. No disco - como sempre - não constam os nomes dos músicos.
Para ouvir o excerto da faixa 01, "Oyá", clique abaixo:
Jongo da Serrinha - 2002 - CD/Livro - Independente
01. Bendito / Pisei na Pedra / Boi Preto / Eu Chorei0; 02. Vapor da Paraíba; 03. Guiomar; 04. Caxambu de Sá Maria; 05. Ai Morena / 13 de Maio; 06. Finca Tenda (Seu Vito) / É de Lorena / Jongueiro Bom; 07. Caxinguelê; 08. Coitado do Zé Maria; 09. Eu num é Doutô / Desaforo / Carnero tá na Serra; 10. Mamãe Foi Pro Jongo / Papai Subiu o Morro de São José / Maria Sunga a Saia / Eu Tenho Pena; 11. Saracura; 12. Bana Cum Lenço / Vou Caminhar / Bênção de Deus;
A associação Grupo Cultural Jongo da Serrinha (GCJS) foi criada em 2000 com o objetivo de dar continuidade aos trabalhos de preservação do patrimônio histórico do jongo e assistência social desenvolvidos há mais de 40 anos por Vovó Maria Joana Rezadeira e Mestre Darcy do Jongo.
Com sete anos de existência, a ONG já recebeu diversos prêmios entre eles o Itaú-Unicef e a Medalha de Ordem ao Mérito Cultural do Ministério da Cultura. O GCJS tem duas missões institucionais: educar e capacitar crianças e jovens e preservar o jongo como Patrimônio Imaterial. Como estratégia, desenvolve atividades de arte-educação e memória oral diárias e cria produtos como discos, livros, filmes e espetáculos que envolvam, da criação à produção, moradores da Serrinha. A Escola de Jongo funciona em 3 espaços da comunidade: no Centro Cultural Jongo da Serrinha, na Biblioteca Comunitária Resistência Cultural da Serrinha e no Terreiro Vovó Maria Joana.
O projeto é financiado pelo Ministério da Cultura, Prefeitura do Rio e Criança Esperança e sua base pedagógica é a cultura afro e as tradições e memória da Serrinha. Este disco foi lançado em 2002, produzido independente pelo próprio Jongo da Serrinha. Contudo, a edição de 4 mil cópias está esgotada.
O jongo é uma herança cultural trazida da África pelos negros bantus, da região do Congo-Angola, para as fazendas de café do Vale do Paraíba durante o período da escravidão. Com a Abolição, muitos libertos migraram para a então capital do país, o Rio de Janeiro, formando as primeiras favelas cariocas. É uma das pontes entre a arte musical dos terreiros e as manifestações populares. Considerado como o ritmo “pai do samba”, o jongo quase foi extinto durante o século passado. O Morro da Serrinha, em Madureira, na zona norte, é uma destas favelas centenárias da cidade do Rio e o único núcleo tradicional de jongo da cidade. Contudo, em 2005, o jongo foi tombado pelo IPHAN como o primeiro Bem Imaterial do Estado do Rio e as ações positivas de divulgação do Jongo da Serrinha vêm fortalecendo esta tradição.
Para ouvir a faixa 2, "Vapor da Paraíba", clique abaixo:
1.Ritmo de Macumba; 2.Dhina-ô; 3.Canto de Xangô; 4.Sequecê (oração aos Orixás, ritual angola) Ouiumba ouiumbá é de me (Pergunta, ritual Angola); 5. Ereum Male; Yêyê ô,Yada Baô (saudações a Oxum); 6.Ponto; 7.Mina Oraê (saída de Caboclo);Tetetê da Cabocla Kissanga; 8.Oridê Deô (saudação a Oxum); 9.Cambinda Queuaraquara (licença para entrar no templo de angola); 10. Toques tradicionais (Angola, São Bento Grande, Santa Maria e Idalina); 11.Dilanumatambangola; 12.Da Suíte “os quatro elementos” A-água/Oxum; B – Terra/Oxossi.
Intérpretes: Escola de samba da cidade – Faixa 1; Nana Vasconcelos – Faixa 2; Baden Powell – Faixa 3 e 6; Edinho Marundelê – Faixas 4, 5, 7, 8, 9, 11. Onias Comenda – Faixa 10; Djalma Correia – Faixa 12.
Um disco maravilhoso, onde músicos de terreiro e músicos populares se encontram, sem prejuízo ou diminuição para nenhum dos lados. É um disco equilibrado pela diversidade e este caminho, tão natural ao sistema umbandista em todos os tempos apresenta claramente, nesse registro, respostas às constantes dúvidas sobre as origens da música popular.Baden Powell, Nana e Djalma Correia estão bem a vontade e naturais ao lado das faixas de músicos de terreiro, tais como Edinho Marundelê e Onias comenda. Em todas as faixas sente-se o Brasil, emoldurado pelos cânticos Bantu, pelas cantigas Ketu, Gêge e até mesmo ecos de litanias católicas mineiras, amplamente acopladas às vozes em terças dos corais de Edinho. Há a presença inquestionável do índio (cabocla Kissanga) e dos ritmos misteriosos de Pernambuco pelas mãos de Naná. Djalma Correia se apresenta em quase todas as faixas – sua pegada de couro é inconfundível. Só quem tocou com ele pode perceber seu estilo próprio e elegante – embora não esteja nos créditos, é obrigatória a audição da suíte os quatro elementos, aqui, infelizmente, apresentados apenas dois deles: água e terra. Para ouvir a faixa 01, "Ritmo de macumba", clique abaixo:
1.Catende; 2.Sirrum; 3.Kiningé; 4.Aguemarina; 5.Dialeto; 6.Jiló; 7.Iúna; 8.Salomão; 9.Origens; 10. Reza da Noite e Durê;
Aline Pedreira de Menezes: Vocal; Aloísio dos Anjos Flores: Percussão; Antonio da Silva: Vocal, viola e violão; Antônio da Silva Cruiz: vocal, viola e violão; Carlos Guimarães:Viola e Violão; Elizael Ribeiro: Percussão e vocal; Luciano Chaves: Vocal e Flauta doce; Onias Vieira Camardelli: Vocal e Percussão; Vânia Souza Ferreira: Violino e Vocal;
Grupo Zambo
Disco raríssimo disputado a fortunas e tapas nos sêbos do Brasil. Eu mesmo entrei em muitas brigas para conseguir esse exemplar! Justifica sua fama por ser procurado exatamente por suas qualidades intrínsecas, tais como delicadeza, qualidade de gravação, seu clima mítico (quase místico), e por ser, talvez, um dos últimos representantes de uma música genuinamente brasileira, devidamente inspirada em suas origens nos terreiros brasileiros. Zambo é um grupo baiano e faz-se aqui a necessária distinção entre música feita na Bahia com música genuinamente baiana, e já faz muito tempo que há um descaso com a música realmente popular, pois muita coisa classificada como música brasileira está na verdade muito longe dos valores musicais e literários da nossa cultura.
Zambo significa mulato, ou seja, a música do branco e do negro aqui se misturam - daí ouvirmos claramente a harmonia existente entre flautas, violas, atabaques e xequerês. A miscigenação racial tem sua correspondência cultural no sincretismo musical e assim, o grupo Zambo faz música da melhor qualidade com o melhor que nossa terra e nossa religião pode oferecer: a pureza e a força de um Brasil ainda por se descobrir em sua fé concretizada nesta delicada jóia musical.
Para ouvir a faixa 10, "Reza da noite e durê", clique abaixo: