Showing posts with label Opinião. Show all posts
Showing posts with label Opinião. Show all posts

Thursday, August 06, 2009

ACERVO AYOM NA REVISTA + SOMA!!

O acervo Ayom foi entrevistado pelo pessoal da + SOMA http://www.maissoma.com/ , através do repórter André Maleronka. A + SOMA, atualmente é a maior revista de cultura e arte contemporânea do Brasil. Abaixo, as fotos e a entrevista na revista.
Para ler a entrevista clique abaixo e faça o download em arquivo PDF:

http://www.mediafire.com/download.php?mmtmhm3onid



"(...) incomparável é o resgate realizado pelo etnomusicólogo Yan Kaô (Obashanan), pesquisador incansável da música de terreiro brasileira e das suas relações com a música popular".

Editores da + Soma











Saturday, August 01, 2009

A Índia Negra e os paralelos de união entre os cultos brasileiros

Indianos do grupo Siddi

Umbanda e Candomblé em algum ponto de sua história religiosa se unem, ou pelo menos se encontram ou derivam um do outro, quer seja a Umbanda descendente dos Candomblés Bakongo/Ngola, quer seja o próprio Candomblé Yorubá Urbano, que ressurgiu nas grandes metrópoles a partir do contigente Umbandista em cidades como São Paulo e Curitiba.
Seria tão somente coincidência que palavras como Orixá, Exu, Ogum, Oxossi, rum, lê, Roncó, peji, Zamby, Egun e tantas outras existam tanto em uma tradição quanto em outra? Assim como palavras indígenas - e este é mais um caso a ser discutido - entraram para o mundo social dos terreiros indistintamente, assim também fundamentos africanos foram se espalhando por todos os cultos brasileiros de forma mais ou menos uniforme.
Sabemos que por dentro da Umbanda os nomes se ligam aos fonemas originais da fala cósmica, embora, claro, tudo possa ser discutido à luz das provas factuais tão queridas pela academia. Isso por um lado, pelo lado umbandista, de alguns setores esotéricos. Por outro, pelo lado das Nações Africanas, por mais que se abalize o fim do sincretismo nas novíssimas gerações dos candomblés brasileiros, há que se tomar o cuidado de se repensar cautelosamente 500 anos de história e os porquês dela assim ter acontecido. Mas tal assunto é oportuno para uma outra discussão, em outro texto, pois acreditamos que o ideal para a perfeita relação entre os cultos seja, inicialmente, o encontro das semelhanças rituais, cânticos, danças etc, de tudo aquilo que é compartilhado naturalmente, já que, de uma forma ou de outra, todos pertencem, nas origens, a uma mesma linhagem e família espiritual.

E mesmo que se pense em termos históricos e/ou tempos míticos, onde algumas correntes entendem que a Umbanda é mais nova que os Cultos de Nação e outras acreditam que ela é origem de todas as religiões do mundo, ainda assim, em ambos os conceitos há convergência, há conexão entre saberes muito antigos usados por todos. Partem de uma mesma fonte, ou são rios que se encontram num mesmo mar que só os apegados ao não-diálogo, à diversidade voltada ao ódio e à disputa não conseguem ver. Chegará um dia em que, finalmente, poderemos discutir com felicidade sobre fundamentos católicos, esotéricos, kardecistas, africanos, indígenas e tantos outros que fazem a Umbanda ser tão rica e tão maravilhosamente necessária ao colorido das opiniões diversas mas nunca contrárias em si e nem contraditórias em sua fenomênica e doutrina? Quem sabe?

Mas vamos ao que interessa: até prova em contrário que seja admitida pela ciência (pois ela mesma assim afirma, embora hajam ainda provas incontestes que podem revolucionar este conceito - o da origem humana em solo sul-americano), por volta de 50 mil anos atrás, povos negros deixaram o continente africano, adentrando a Europa, Ásia, e o continente americano modificando seu fenótipo em função dos diferentes ambientes que encontravam. Assim, a pele tornou-se branca pela ausência de sol, os olhos tornaram-se oblíquos pela adaptação a locais de muito vento, etc. No século V a.C, Heródoto afirmava existirem duas “na­ções etío­pes”, uma na Áfri­ca, ou­tra em Sind, re­gião cor­res­pon­den­te aos ­atuais ter­ri­tó­rios da Í­ndia e do Paquistão.
Marco Pólo escreveu que os in­dia­nos re­pre­sen­ta­vam ­suas di­vin­da­des co­mo ne­gras e os de­mô­nios como brancos, afir­man­do que ­seus deuses e san­tos ­eram pre­tos. Mais, ainda, em O Livro das Maravilhas, atribuído ao viajante (Porto Alegre, L&PM, 2006, pág.236), lê-se que os habitantes do “reino de Coilum”, atual cidade de Quilon, na província de Querala, eram “todos de raça negra”.
Esses povos in­dia­nos te­riam sido le­va­dos co­mo es­cra­vos da África, inicialmente por mer­ca­do­res ára­bes e de­pois pelos por­tu­gue­ses em suas naus, per­fa­zen­do uma ro­ta li­to­râ­nea situada hoje nos ­atuais Iêmen, Omã, Irã e Paquistão. Cativos e importantes em muitas tarefas, se destacaram como sol­da­dos nos exér­ci­tos dos che­fes mu­çul­ma­nos, a par­tir do sé­cu­lo ­XIII. Por vol­ta de 1459, o rei mu­çul­ma­no de Bengala possuía um exér­ci­to de 8 mil es­cra­vos africanos. Em 1500, foram conquistados pelos portugueses os ter­ri­tó­rios in­dia­nos de Goa, Damão e Diu, o que trans­for­mou dras­ti­ca­men­te a es­cra­vi­dão na Í­ndia: o de­sem­pe­nho de ­seus es­cra­vos foi relativizado a ta­re­fas me­no­res em ­seus ne­gó­cios, ca­sas e fa­zen­das e as mu­lhe­res negras pas­sa­ram a ser ­mais uti­li­za­das co­mo con­cu­bi­nas ou pros­ti­tu­tas.
Sob o domínio inglês, a maio­ria foi re­pa­tria­da pa­ra a Áfri­ca e ­seus des­cen­den­tes fo­ram dei­xa­dos em bol­sões ao lon­go da cos­ta oci­den­tal, principalmente nas re­giões cen­tral e sul (esta tese nos faz pensar: a palavra Umbanda pode tanto ser de origem Bantu como pode ter vindo, realmente, dos povos indianos que retornaram à África). Hoje o país com maior população negróide é a Índia. Hoje, além dos po­vos ­afro-in­dia­nos que lá che­ga­ram ­mais re­cen­te­men­te, os drá­vi­das cons­ti­tuem uma das pro­vas incontestes des­sa pre­sen­ça, pois estão no continente há milhares de anos, antes mesmo da invasão ariana. Localizados no Sul do ­país, e con­tan­do por volta de 100 mi­lhões de in­di­ví­duos, os povos Dravidianos têm pe­le bem es­cu­ra e fei­ções africanas, ­além de cos­tu­mes, lín­gua e he­ran­ça cul­tu­ral que evi­den­ciam la­ços com as ci­vi­li­za­ções egíp­cia, cu­xi­ta e etío­pe (segundo nos diz Nei Lopes em Kitábu: o Livro do Saber e do Espírito Negro-Africanos - Editora: Senac Rio, 2005) .
Construtores de alguns dos mais antigos e misteriosos com­ple­xos ur­ba­nos da história humana, tais co­mo os de Harappa e Mohenjo-Daro, ­mais tar­de fo­ram re­du­zi­dos também à con­di­ção de es­cra­vos e co­lo­ca­dos no ­mais bai­xo pa­ta­mar do sis­te­ma de cas­tas ins­ti­tuí­do pe­los aria­nos. Até 1951, o rei (Nizam) de Haiderabad man­te­ve uma guar­da de­no­mi­na­da “ca­va­la­ria afri­ca­na”. E es­sa re­gião (a zo­na de Siddi Risala de onde provém as fotos que abrem nosso artigo. Veja em http://www.kamat.com/kalranga/people/) con­ser­va, na cultura musical, na dança e no uso de pa­la­vras da lín­gua suaí­le, for­tes tra­ços cul­tu­rais afri­ca­nos. Pes­qui­sas re­cen­tes des­co­bri­ram a exis­tên­cia de co­mu­ni­da­des ­afro-in­dia­nas em Karna­kata, Gujarat e Anhara Pradesh, onde ­seus mem­bros se au­to­de­no­mi­nam “afri­­ca­nos” (con­for­me The African Dias­po­ra in India, 1989).

Mas muitos podem perguntar: o que este texto tem a ver com a introdução? Aqui talvez esteja o paralelo existente entre as “Umbandas Africanistas” e as Nações Africanas dos Candomblés brasileiros, com seus mistérios milenares de 10.000 anos atrás e a “Umbanda Esotérica” de muitos fundamentos indianos, remontando a datas bem anteriores, de períodos míticos e pré-históricos. As origens são as mesmas e as conexões evidentes. Por isso o atabaque, Ifá e Orixá, chacra e reencarnação pertencem tanto a uma corrente quanto à outra em suas questões metafísicas mais profundas. Basta saber olhar.

P.S. – Já ia esquecendo: é claro que não veremos nenhum negro indiano na novela da globo, assim como muitos não querem que a África exista dentro da Umbanda e que a Umbanda tenha raízes com a Índia.

Ayan Irê Ô!
William de Ayrá (Obashanan)

Thursday, November 29, 2007

Amor e música


Precisar o que se recebe e o que se doa durante um rito através da música de terreiro é extremamente difícil. Em jogo estão as possibilidades de quem se emociona, de quem se entrega pela devoção e pela curiosidade e ainda, todos os questionamentos acerca da vida, da morte e do sobrenatural... Há um verdadeiro ato coletivo de amor num ritual, onde os envolvidos são assistentes e médiuns, sacerdotes e leigos, encarnados e desencarnados... E este é o motivo central da existência da música nos ritos: é o que faz as pessoas se aproximarem e nessa conexão sem parâmetros em nenhuma outra religião surgem os mistérios da conexão com o mundo antigo.

Sem amor este mundo é vazio e quase sem propósito, assemelhando-se a uma sepultura. Somos movidos pelo amor e pelas questões oriundas de sua órbita e mesmo desde o início de nossas vidas, nossas relações giram em torno do amor dos pais e de como obter amor das outras pessoas. Na fase da pós-adolescência quando do surgimento da maturidade sexual o amor é o principal canal rumo à compreensão do mundo, pois os sonhos acordados, e a mágica complexidade das conquistas preenchem a vida. Mais tarde vem o amor aos frutos de nossas relações, ao cônjuge ou amante, aos filhos e netos.

E quase não se pensa sobre isso, mas o ser humano não sabe o que fazer do seu tempo se lhe roubam a capacidade de amar. Não há gratificação que a riqueza, a comida ou mesmo a saúde possam trazer se nelas não existir a experiência profunda do amor em todos os seus sentidos e amplitude. Enfim, nada custa fazer um balanço do quanto a sua vida está neste instante embebida em amores para saber o quão parecido ou distinto é seu mundo de um sepulcro.

Comparativamente tanto a música quanto o amor se encontram paradoxalmente, na periferia de seus próprios limites, pois tanto em um caso como no outro qualquer segurança só é possível no risco. Pois tanto a música quanto o amor não são experiências que se fortalecem no controle, mas sempre na liberdade.

Caso contrário começa-se a se preocupar mais com o que se vai receber do que com aquilo que se vai oferecer. Tal é o equilíbrio da ritualística musical: duas pessoas só se amam quando ambas querem se doar, o que permite a ambas receber. Músico e ouvinte estabelecem sempre a relação de quem quer ouvir e de quem quer ser ouvido, num pacto não verbal de querer sentir o coração bater num mesmo sentimento e nisso, o tambor e canção organizam a coletividade terreiro no sentido pleno da celebração ritualística - um só caminho comum para todos, em comum acordo: o despertar para o espiritual. E apesar de muitos hoje quererem “elitizar” a espiritualidade, entendendo a Umbanda como um caminho para os mais abastados, muitos dos filhos de Orixá permanecem pobres, pois sua presunção de riqueza é tão somente a caridade aos que têm fome de luz espiritual nas agruras da matéria... Pois a Umbanda nasceu entre os humildes, entre os que encontraram a glória no desprezo e a justificação do trabalho na calúnia que é movida contra eles... Assim, o que o espírito é no corpo, os filhos de orixá são no mundo: sementes distribuídas no físico para o renascer de uma celeste ascendência na música, na dança e no amor entre pai e filho, homem e mulher, Orixás e humanidade.

Sacerdote Obashanan